segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Resenha Yes - São Paulo, 28/11/2010 - HSBC Brasil

Muitas críticas são disparadas contra o Yes, quando em sua formação não encontramos Jon Anderson, e é bem verdade que as músicas dessa que é uma das maiores bandas de rock da história foram imortalizadas pela belíssima voz de Anderson.
No entanto, o Yes com Anderson conseguiu fazer alguns álbuns tenebrosos e não falo só da fase pop dos anos 80, essa aí até perdoamos, e sim de discos insossos como “Tormato” e “Union ou do fraquíssimo “Open Your Eyes” que não fez sentido nem para os ouvintes da fase Generators nem para os da fase progressiva.
Jon Anderson não está mais com o Yes, as razões não conheço completamente, mas nós fãs temos de nos conformar. O rapaz Benoit David, que veio substituir o grande ícone, possui um registro vocal bem similar ao de Jon e tenta emulá-lo visivelmente. Ora, mas antes de criticar esse jovem, vejamos a situação que ele se meteu! Assumindo os vocais do Yes, um símbolo que encantou gerações, após a saída um de seus membros mais amados, não pode chegar e impor sua personalidade a esmo, ainda mais tendo sido antes, membro de uma banda em tributo ao Yes. Com certeza, ele não quer fazer feio e desagradar.
Se a banda deveria ter parado? Não sei, saberemos com o álbum que será lançado no ano que vem, o qual aguardo ansiosamente.
Mas, essa resposta só é válida quando analisamos friamente a situação. Quando se é um fã, exageradamente fã, e se tem a oportunidade de ver seus ídolos tocando os clássicos que moldaram os rumos da sua mente, nada externo importa e sim a emoção do show.

A noite começou com certa agitação, devido a problemas com o vôo, a banda subiu ao palco somente às 22h15min e não, as 21h, como estava previsto.
Ao som dos acordes imponentes da Firebird Suíte (que entrada triunfal!), o grupo mal espera o final dos aplausos pra já nos atirar uma pedrada. “Siberian Khatru” com a dupla Howe/Squire inspirada, a música percorre seus quase 10 minutos, levando o público ao frenesi, uma execução perfeita, inclusive do Senhor Oliver Wakeman que se mostra um tecladista muito habilidoso, de deixar o pai orgulhoso.  Não poderia se esperar resultado diferente, ao abrir o show com um dos maiores clássicos de um dos melhores períodos do grupo, só essa canção, com toda sua energia, a técnica refinada e o amplo aproveitamento de todos os instrumentos (aproveitamento esse ainda mais exacerbado na apresentação ao vivo), já valeria o preço do ingresso.
Após um longo intervalo de aplausos, surge “I´ve Seen All Good People”, levantando os ânimos da platéia (casa lotada) que canta junto seu imortal refrão. Mais uma versão extendida, com grande performance de Benoit que aos poucos ia conquistando a simpatia do público.
Apresentam então os novos integrantes, que pelo jeito vieram pra ficar, antes de nos presentear com a boa “Tempus Fugit” do audacioso disco “Drama”, um dos prováveis precursores do Metal Progressivo, culminando no grande solo de Howe que agora introduz a faixa seguinte “Astral Traveller”. Nunca fui muito chegado na fase pré-Yes Album, mas a versão ao vivo de Astral Traveller surpreendeu. Surpresa muito agradável, diga-se de passagem. Seguindo uma linha de peso similar a Tempus Fugit, os instrumentistas estavam em perfeita sincronia com excelentes improvisos e variações que deixariam qualquer um babando, e em meio a essa potente massa sonora, surge um intenso solo de bateria de Allan White, também ovacionado.
 Recuperado o ar perdido em razão da última performance instrumental, Howe desenha os primeiros acordes de “And You And I”, recebido com uma saraivada de palmas, gritos histéricos, num misto de diferentes emoções convulsas. Entre a beleza e introspecção dessa canção todas as dúvidas sobre Benoit evaporaram, “And You And I” levou as lágrimas muitos fãs, inclusive alguns veteranos, dentro do que pude noticiar.
Era momento de uma pausa. Steve sentou-se com seu violão pra roubar as luzes por alguns momentos. Inicialmente parecem ter ocorrido alguns problemas com o retorno, mas isso não impediu sua atuação magistral em “The Little Galliard” (com alusão a Bachianas Brasileiras) e em seguida com “Clap”, que mais uma vez levou todos ao delírio, num misto de entusiasmo e espanto com a facilidade que o distinto senhor percorria as cordas do violão ora com suavidade, ora com empolgação, desenhando seu tracejado mágico tão memorável quanto à versão em LP.
Howe fica incumbido de apresentar “Owner of a Lonely Heart”, num momento divertido que gerou reações variadas. Enquanto uma parte da platéia cantava em coro, a outra permanecia sentada, respeitosamente, cantando baixinho em segredo (eu, inclusive). Faz parte, não é? Nesses momentos até “Owner of a Lonely Heart” empolga, principalmente por sua execução animada, enquanto perceptivelmente os membros da banda se divertem com o que estão fazendo e no final é isso que importa.
Surge então o poderoso riff de “Heart of Sunrise”, do clássico “Fragile”. Se até aqui o show superava e muito as minhas expectativas (até pela ausência de Jon e pela posição da apresentação em relação à turnê como um todo), em Heart of Sunrise derrubou tudo aquilo que eu achava saber sobre o Yes. Meu Deus! Que atuação absurda, a qualidade transbordava pelos riffs traçados por Squire, enquanto a banda fluía em tensas e poderosas variações, solos maravilhosos e improvisos, sem medo de errar, elevando a música a um dos pontos mais altos do show. Realmente estupefato, todos os membros foram fantásticos, indescritível.
Após o banho, a aula, o profundo mergulho em “Heart of Sunrise”, surge “Roundabout”. O que dizer sobre essa? Loucura total, poucos conseguiram se manter sentados diante da agitação do riff antológico e do posicionamento cativante de David, mantendo a platéia em estado febril. Sentimentos raros e diversos se apossavam da fisionomia de cada um. Destaque também para Oliver que fez jus ao seu sobrenome em mais um fantástico solo pra provar suas capacidades. Após a jornada espetacular pelos 10 minutos de Roundabout, que elevaram o termo “rock progressivo” a sua mais alta potência, a banda é ovacionada e já começam a surgir as chamadas pelo “bis”.
E ele vem, com “Starship Trooper”. Sempre ouvi falar que a versão ao vivo dessa música supera e muito a original do disco, bom é verdade. Ninguém se sentou, todos gritavam, cantavam junto e observavam a execução de uma das faixas mais complexas do repertório, algo que o Yes tira de letra.  Na segunda parte todos batiam palmas ao ritmo frenético imposto por Howe, mais uma vez a boa interpretação de Benoit e finalmente a épica parte três, com seu riff sintético e espacial que fez marmanjos barbados caírem no choro em silêncio.
A banda se despedia então de sua platéia absolutamente satisfeita, mas como toda criança numa loja de doces, sempre quer mais e ensaiou-se então um coro por “Close to the Edge”, entre as palmas, os gritos e todo sentimento refletido por estes. Todos ali poderiam ter ouvido o Yes tocar noite a fora, sem se cansar, essas britânicas duas horas passaram voando, deixando todos com um gostinho de quero mais, “mas será que eles voltam?”.
Quem não foi perdeu um dos melhores shows desse ano, seja pelo carisma de Squire, David e vejam até de Howe que parecia estar de muito bom humor, pela execução das músicas, em seu aproveitamento mitológico de todos os instrumentos sem que nenhum ficasse encoberto ou outro se destacasse, o conjunto do Yes, que mistura técnica, sentimento, postura e virtuosismo gera uma intensa corrente sonora que inunda a mente de quem ouve de modo marcante e permanente.

É bem verdade que a banda cometeu alguns deslizes e erros em sua longa jornada através da música popular, mas que culpa tem, afinal são seres humanos como nós, mas que ninguém ouse criticá-los, pois criaram esse belo universo, pelo menos em sua forma, que influenciou gerações e continuará influenciando, o universo do Rock Progressivo.

À banda só restam meus sinceros agradecimentos pela maravilhosa noite que me proporcionaram ontem (e muitas antes disso) e pelas que proporcionarão, espero ainda, por muito.

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