segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Captain Beefheart


Este blog não poderia ficar calado diante do ocorrido da última sexta-feira, dia 17, quando o controverso Don Van Vliet, o Captain Beefheart, morreu em decorrência da esclerose múltipla com qual convivia desde os anos 90.
Para homenagear esse grande ícone subversor, preparei esse post especial com um pouco de sua história e carreira, atravessando as resenhas costumeiras.

Captain Beefheart tornou-se conhecido por sua sonoridade intrincada e delirante, de letras surreais e insólitas, arranjos esquizofrênicos e por suas participações espectrais em trabalhos de seu parceiro e amigo Frank Zappa.
Mais tarde, abandonaria os palcos e as experimentações sonoras que moldaram mentes de gerações de músicos, para desenvolver sua pintura não menos desafiadora e expressiva.

Mas, antes do ícone, sempre há um homem e esse deu os primeiros passos de sua vida no deserto de Mojave, nos Estados Unidos. Ainda muito jovem, foi considerado um menino prodígio por suas habilidades com a escultura, o que poderia indicar a um mais novo Mozart... E até poderia ser, se não tivesse encontrado o rapaz asmático e frágil, um tal de Frank Zappa.
Praticamente juntos, descobriram o interesse pela música, mas enquanto Zappa enveredava-se para compositores eruditos como Webern, Varèse e Stravinsky, Don descobria o blues de Muddy Waters, Howlin´Wolf (que muito lhe influenciaria na parte vocal) e pelo jazz de Thelonious Monk e Ornette Coleman.
Mais ou menos nesse período, em parceria com Zappa, escreveu o roteiro de um filme “Captain Beefheart VS the Grunt People”, de onde partiria seu nome artístico, pelo qual seria conhecido pelo resto da vida.
Já em Rancho Cucamonga (também na Califórnia), reencontrou-se com o Frank que o incentivou a entrar para o ramo da música, para o bem de todos nós. Nesse período provou seu incrível alcance vocal emulando Howlin´Wolf.
Algum tempo depois, se uniu a primeira encarnação de sua “Magic Band”, que só conseguiria um contrato com a Buddah Records, após a rejeição da A&M.
O primeiro disco foi lançado em 1967, após muito trabalho duro, enquanto o Capitão já dava sinais de sua personalidade difícil.
                                                                                                                                                                
“Safe as Milk” já se mostrava um disco extremamente tentador. Se por um lado podemos sentir muito das influências do blues, por outro vemos que Don conseguiu conciliar um encontro interessante com o acid rock, folk, doo wop, através de seus vocais únicos e incisivos que se fazem presentes por todo o disco. O resultado é uma audição divertida, que sobressai a “quadradice” do blues tradicional, através de mudanças rítmicas cortantes, passagens insanas e até um pouco perturbadoras como na espetacular “Dropout Boogie”, em seu timbre sujo de guitarra e o vocal quase gutural de Don que se alterna a pontes cínicas e descontraídas. Há ainda a distorção árida de “Electricity” que parece desfazer-se ante os ouvidos com seus efeitos diabólicos de theremin.



No ano seguinte viria “Strictly Personal” que pode ser visto como um álbum de transição de suas fortes raízes no blues para o experimentalismo sobre free jazz que viria a seguir. Por aqui podemos encontrar alguns bons trabalhos de guitarra e gaita (em alguns dos melhores momentos do Capitão), letras ácidas com algumas interpretações terríveis, incluindo “Beatle Bones 'N' Smokin' Stones” uma provocação aos principais representantes do rock no período. Interessante é notar que John Lennon e Paul McCartney declararam gostar do primeiro trabalho de Captain que sempre foi muito crítico a banda. Talvez seja esse um de seus melhores momentos, mas ressaltaria ainda “Trust Us”, imersa numa atmosfera agonizante, recheada de temas esquizóides, sandices vocais, temas de guitarra pontilhados e fantásticas linhas de baixo em contraste.



Mas, foi em 69 que surgiu sua “magnun-opus”, “Trout Mask Replica”. Para produzir essa maravilha da música mundial, Capitão impôs uma rotina de lavagem cerebral e situações que margeavam a tortura, trancafiando seus músicos numa casa durante quase um mês de subsistência. Essa exploração levou os músicos a seus limites físicos e mentais. Apesar de seus métodos extremamente questionáveis, Don atingiu o ápice do experimentalismo e de sua musicalidade extremamente complexa.
O blues foi esquecido. Logo na primeira faixa “Frownland” sentimos a intensidade do que está por vir, quando todos os instrumentos traçam suas linhas em tempos diferentes, causando um efeito inigualável, mas extremamente bem executado, sendo perceptível o esmero em cada uma das linhas, ressaltando o fantástico trabalho de bateria.
De modo geral, o disco está cheio de experimentalismos sonoros, aproximações com o free jazz principalmente nas performances barulhentas e condensadas do sax e do clarinete-baixo, contribuindo para pandemônios muito bem estruturados. O uso heterodoxo e muito bem elaborado de todos os instrumentos, seja nos timbres mutilados da guitarra, a bateria polirrítmica que lidera as mais obtusas mudanças de compasso, o baixo ávido e consistente até os mais incongruentes ruídos, monta uma sonoridade instigante que captura o ouvinte em suas viagens transcendentais que só se equiparam ao alcance vocal de Beefheart que evoca desde nodosos balbuciares guturais até o mais perturbador falsete.
Algo que precisa ser ouvido, em minha torta concepção, um dos dez melhores discos de todos os tempos.


O que viria a seguir “Lick My Decals Off, Baby” visa manter o mesmo nível de experimentalismo, mas numa gravação mais equilibrada, povoado por menos excessos compositivos. Talvez por isso não supere, “Trout Mask Replica”, pois o conteúdo de suas composições é quase tão forte quanto.

Em 71, foi lançado “Mirror Man” que reúne gravações realizadas entre 67-68, em outro disco fenomenal. Completamente “free”, Mirror Man nos mostra Capitão e sua banda dando significados profundos ao conceito de “Jam”, através de meditações instrumentais ilimitadas que fluem com perspicácia, sob o comando desse maestro do absurdo.

Os álbuns que viriam a seguir “The Spotlight Kid” e “Clear Spot”, ambos de 72, mostram uma sonoridade mais refinada, coerente e plausível. Apesar disso mantém a qualidade esperada, unindo um pouco do que havia sido feito anteriormente a novos recursos, um pouco menos “radicais”. Talvez não sejam tão influentes quanto seus antecessores, mas facilmente servem de porta de entrada a sua sonoridade.


Os problemas viriam a seguir, Capitão resolveu reformular sua banda, contratando novos músicos não-familiarizados com sua sonoridade. Como resultado, obtivemos dois discos fracos se comparados a imponente discografia que se apresentou até aqui. “Bluejean & Moonbeams” e “Unconditionally Guaranteed” foram considerados pelo próprio Don como discos “horríveis e vulgares”, instigando aos fãs a pedirem o reembolso. Não é para tanto, mas muito ficam a dever a seus antecessores.

No ano seguinte, gravaria um disco em parceria com Zappa, “Bongo Fury”, de onde sairia “Muffin Man”, unindo influências do blues anterior do Capitão ao rock contrastante de Frank, o resultado é um bom disco que faz jus a ambas as discografias.

Don voltaria a gravar em 78, com “Shiny Beast (Bat Chain Puller)”. Voltaria aos seus experimentalismos sonoros em doses relevantes, através de uma sonoridade mais polida (até um pouco progressiva) que em momentos apontaria a fase de “Clear Spot”, ainda sim, o disco possui seu charme em suas insanidades disfarçadas.
Ainda lançaria mais dois álbuns seguindo linha similar “Doc at Radar Station” e “Ice Cream for Crow” antes de resolver debandar-se para a pintura. São bons discos sem dúvida, mantendo o nível de sua respeitosa discografia.

Construiu então uma respeitada carreira como pintor durante os anos 80, ganhando até um bom dinheiro com suas pinturas (por sorte não inventaram um equivalente a “MTV” para as artes visuais, hehe). Fazendo uma rápida leitura de suas obras (afinal, meu gosto pela arte não se resume a música), conseguimos visualizar uma tendência ao neo-primitivo (resgatando a pintura rupestre), com inserções expressionistas em cenários pesados, abusando de cores agressivas em contornos febris apenas sugestivos. Como uma possível interpretação poderíamos falar sobre essa animalização do ser humano, em contraste com seu ego, evidenciando através da perspectiva expressionista algumas de suas piores facetas, uma combinação interessantíssima.
É claro, que não sou crítico de arte (nem de música e muito menos de pintura), então a porcentagem de estar falando abobrinha é bem grande, assim como todo o conteúdo do blog.

Nos anos 90, foi obrigado a reduzir gradativamente suas atividades devido à esclerose múltipla, cujas complicações que viria a lhe tirar a vida, como já mencionado no início da postagem.


Captain Beefheart foi uma personalidade controversa, exibindo alguns dos piores lados do ser humano, através de suas letras cáusticas e de seus métodos muito questionáveis, atirando-nos todo um experimentalismo que subverteu as estruturas sonoras do período vigente, ainda de Beatles e Rolling Stones. Mesclando blues, um free jazz bélico, música concreta, influências de Steve Reich, Karlheinz Stockenhausen e Edgar Varèse, Don Van Vliet tornou-se um ícone da música popular avant-garde, influenciando uma lista infindável de músicos que atravessa cenas de Krautrock, Rock In Opposition, até bandas mais recentes de Nirvana e Radiohead passando por Franz Ferdinand, John Zorn, John Frusciante, The Mars Volta (vale ver alguns trabalhos solo de Omar Rodriguez López), Mike Patton e a lista cresce, sem esquecer-se de alguns ícones dos anos 80 como Pixies e Talking Heads, notando-se um pouco de sua postura no punk e New Wave do período.
Don foi um dos caras mais “hardcore” da história, deixando sua marca tanto na música quanto na pintura, sendo um dos artistas mais importantes da segunda metade do século passado.

Para finalizar esse post, lhes deixo algumas de suas pinturas a quem interessar.

Boat and Blue Bodagress

Curve in the Dirt

Tiger Boat

0 comentários:

Postar um comentário