sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Clivages (2010) - Univérs Zero
No final dos anos 70, o público que se aventurou a ouvir Univérs Zero encontrava-se perplexo com aquela sonoridade nunca vista antes. Passados mais de trinta anos, ao ouvir “Clivages” me encontro em similar estado de espanto.
O cd saiu em janeiro, mas somente há pouco consegui ouvir o mais novo trabalho do grupo liderado por Daniel Denis. Após a primeira audição estava completamente surpreso, não por me deparar com mais uma odisséia experimental que subvertia qualquer traço da palavra “rock”, mas por ver mais uma vez uma banda capaz de reciclar sua própria sonoridade, de modo até ousado em alguns momentos.
O disco dividiu as opiniões dos fãs mais tradicionais, se por um lado não há críticas a se fazer, sendo um disco que faz jus a respeitadíssima discografia do grupo, “Clivages” surge como um de seus trabalhos mais ecléticos e talvez acessíveis, se comparados as jornadas obscuras de “Heresie” ou “Ceux Du Dehors”.
Mas, não há motivo para preocupação, esse novo CD (facilmente um dos melhores lançamentos do ano) nos traz a, já característica, intrincada música de câmara, em performances instrumentais estonteantes, recobrando o clima acústico dos primeiros trabalhos (aliás, meus favoritos).
Outro detalhe interessante é o uso dos sopros, que transborda por todo o disco, sejam pelos elementos clássicos dos diálogos entre oboé e fagote, às novas inserções de sax e clarinete (clarinete-baixo inclusive), unindo-se ao fabuloso trabalho de bateria, linhas de baixo perspicazes, temas febris de violino, pesados ambientes travados ao teclado e alguns toques substanciais de guitarra, cortesia de Andy Kirk que contribuiu com duas faixas (Warrior e Sobressauts).
O resultado é a nossa velha conhecida e desafiadora música, que até hoje convida os ouvintes a saírem de sua zona de conforto, para compreenderem o valor artístico de suas complexas composições, que vão muito além dos padrões tradicionais da música popular.
Confirmando o poder subversivo, o disco se abre com “Les Kobolds” uma delicada faixa que assustaria qualquer ouvinte mais assíduo da banda. De uma clareza incomum, a música transcorre sobre um uso aberto dos sopros intercalados ao violino, que discorrem através de leves interlúdios de piano, que vem adquirir uma dose de peso característico somente a partir dos 1:30, em seu tema sisudo, alternando esses dois momentos. Os diálogos afiados dos instrumentos contribuem para criar uma melodia divertida e palatável, destoando do padrão de suas músicas, sem perder em qualidade.
Mas, sem dúvida o ponto mais alto do disco se encontra na faixa seguinte, a gigante “Warrior”. Se “Les Kobolds” serviria para ilustrar a versatilidade do grupo, Warrior mostra o amadurecimento compositivo de sua arquitetura sonora peculiar, calcada em sombras atmosféricas profundas (nada melhor que “Dense” para exemplificar). Inicia-se num ambiente claustrofóbico enquanto o violino cresce, até a entrada da poderosa bateria, em viradas precisas e enérgicas que avançam e preenchem a composição. Surge então os temas avassaladores da guitarra, agregando ainda mais peso, em seu timbre assustador. Tudo confluí numa melodia seca quando fagote e clarinete assumem a linha de frente, em cenários tenebrosos, agravados pelos efeitos senis que desenham o clímax da composição (e do disco). Um presente a todos os fãs da intrincada sonoridade do grupo, elevada por aqui a seus limites, através de seus doze esquizofrênicos minutos.
Após a pedrada de “Warrior”, nos surge uma dose do Univérs de outrora, primeiramente pela estruturação bem típica de música de câmara (com alguns retoques do UZ) em “Vacillements” e em seguida com mais uma “bordoada” de peso com “Earth Scream”, sobre um ambiente de tensão, que prende o ouvinte em agonia durante três minutos.
“Sobressauts” é outro dos melhores momentos do disco, numa melodia cativante que dança sinuosamente sobre a pesada linha do setor rítmico, antes de cair em mais uma impressionante série contrapontística onde as vozes confluem em temas fluídos de múltiplas camadas, trafegando com leveza, em uma belíssima e sutil composição (com algumas doses de sarcasmo), capaz de encantar quem ouve. Uma das minhas favoritas: nuances realmente fantásticas, inenarrável, principalmente pelo modo como a composição foi construída e articulada em sua instrumentação.
Em “Apasentaur” mais uma curiosa melodia, nos staccatos do violino e a fluidez do sax que vem encontrar os diferentes elementos compositivos para formar algo em torno de influências jazzísticas, dentro da capacidade criativa da banda, um momento singular em sua carreira.
“Three Days” é mais uma agradável passagem sonora entre o diálogo dos sopros e das cordas de modo afiado e sensível, com alguns toques do delicado sabor de clássicos russos como Rachmaninoff e Stravinsky (como não poderia faltar).
“Straight Edge” é a faixa mais longa do cd e também a mais eclética, por aqui podemos recapitular as doses jazzísticas de “Apasentaur”, aderindo a guitarras de um fraseado sujo em efeitos sintéticos equilibrando-se sobre tensos cenários que se alternam a momentos de mais “cor”. Esse equilíbrio entre as duas facetas da banda chega perfeitamente nesse ponto do disco, em outra música de grande carga emocional. Em alguns momentos podemos nos deparar com temas de grande liberdade e sensatez e em outros nos vemos imersos num mar de escuridão e sombras, a ser ouvido e sentido. Uma jornada sonora memorável, em suas nuances febris e multicoloridas oferecendo ao ouvinte uma experiência completa.
Em “Retouir de Foire” podemos respirar um ar menos carregado, apesar da densidade das texturas por aqui impressas, sobre as sutilezas do tema principal. Grande trabalho percussivo e nem preciso exaltar a complexidade melódica abstrata que captura o ouvinte em sua atmosfera cinzenta.
Para fechar “Les Cercles D´Hours”, baseado no imponente pulso de bateria minimalista, por onde as vozes trafegam deixando suas impressões.
Um grande disco, sem falhas ou buracos, nenhum momento que possa ser apontado como sendo fraco ou por estar apenas “cumprindo tabela”, aliás muito pela contrário, é possível sentir a entrega e dedicação dos músicos a cada faixas. Obviamente algumas superam o nível compositivo esperado, como “Warrior” ou “Sobressauts”, mas é um disco bem equilibrado com algumas passagens excelentes. Equilíbrio esse que podemos encontrar também entre as partes mais escuras e sombrias às mais amplas e multicoloridas (apesar do “cinza” ser predominante), sendo talvez o disco mais “claro” da banda, graças a momentos como “Les Kobolds” ou “Three Days”, sem deixar de lado a imensa qualidade compositiva. Tudo isso pode ser visualizado em “Straight Edge” um resumo do que é feito ao longo do CD.
Grande lançamento, pelo menos no Top 5 desse ano, não decepcionará os fãs mais antigos, uma incrível contribuição à intrincada música de câmara vintage característica do Univérs Zero.
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