terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Destaques do Avant-rock em 2010

Esse ano ouvi algumas coisas novas, principalmente em relação ao “avant-prog”, entre elas um supergrupo interessante com a participação de ex-membros de vários atos de RIO, incluindo Univérs Zero e Stormy Six, o “Yugen”, em seu mais novo álbum “Iridule”.
A primeira vista parecia ser um grande trabalho, candidato a melhor do ano, mas quando executei a audição completa percebi que não passava de um divertido amalgama de várias boas influências. Só para citar algumas temos Gentle Giant, Frank Zappa, King Crimson, Mr. Bungle, Maudlin of the Well, Etron Fou Leloublan e o próprio Univérs Zero. No mais não é um disco que muito agrega a discografia, por apenas abordar conceitos previamente desenvolvidos, mas pode agradar pela excelente base para sua fusão.

Outro que muito me recomendaram, foi “Création de I´univers” do mais novo projeto do zeuhl, “Xing Sa”. Realmente a primeira audição me surpreendeu, mas após escutar de maneira mais cuidadosa percebi que o Xing Sa caminhava por mares similares ao Yugen. Só que dessa vez a base é o fusion de Jean-Luc Ponty, margeado por inserções de bossa nova e influências do Magma em sua fase menos caótica, novamente um disco razoável, mas, que pouco agrega em quesitos de experimentos sonoros.
Omar Rodríguez-López nos entregou 5 discos esse ano e infelizmente, nenhum deles me surpreendeu. Aparentemente ele não leva tão a sério sua carreira solo quanto os trabalhos com o Mars Volta, preocupando-se apenas em disponibilizar um pouco de seu ecletismo, o que já é bem legal. Em 2010 pudemos nos deparar com as baladas inconsistentes de “Ciencia de Los Inutiles”; a psicodelia eletrônica de “Tychozorente”, que tem uma capa bem legal, mas um conteúdo que se aproxima do trip hop de “Massive Attack” (também de disco novo); certa dose de experimentalismo sobre uma base pop e melodiosa, com ares latinos em “Un Escorpión Perfumado” (como sugere o título e a capa, esse disco é uma putaria só); e dois CDs um pouco mais interessantes: “Cizaña de Los Amores”, com algumas aproximações ao post-rock e o eventual rock psicodélico cheio de improvisos, menos caóticos por aqui e “Sepulcrus de Miel” com excelentes trabalhos de guitarra (John Frusciante participa do disco, se não estou enganado) por cima de uma base de fortes traços de space rock.

Tivemos também “Faust Is Last”, de Hans-Joachim Irmler, um dos discos mais pesados do Faust em seus senis experimentos eletrônicos quase insuportáveis, margeando também a música psicodélica e delirante de ambientes espectrais com aproximações aos antigos do Tangerine Dream.

O Univérs Zero (como já resenhado) por sua vez, lançou um bom disco, partindo de um foco de inspiração diferente com mais de Albert Huybrechts em suas composições, unidos a algo de John Zorn judeu (Masada) principalmente nas excelentes contribuições de Michel Berckmans.

E é nesse sujeito que queria chegar. John Zorn lançou esse ano, nada mais, nada menos do que 12 discos! 12, isso mesmo! Obviamente, não ouvi todos, mas até que tentei. De tudo que escutei, separei dois álbuns, um solo e outro com o Masada, para tornarem-se alvo de minhas resenhas, “Interzone” e “Ipos: The Book of Angels Volume 14”.


Para começar falemos do “Ipos...”, esse é um disco empolgante para dizer o mínimo. Primeiro trata da versão elétrica do Masada, armado de teclados vintage, vibrafone, linhas de baixo coesas e o claro o maior destaque, a guitarra extremamente voltada ao fusion, em temas e variações açucaradas, solos viajantes em direção a ambientes paradisíacos (as bases jazzísticas são espetaculares como sempre). Então esse é sim, um disco de guitarras!
É isso aí, meus caros, Zorn brinda a nós amantes do instrumento com arranjos incomuns por onde a imaginativa guitarra de Marc Ribot trafega livremente. Mas é muito mais do que isso, podemos sentir o aproveitamento atraente da fusão jazz e klezmer, através de um delicado setor rítmico, com as boas inserções do vibrafone e linhas de baixo introspectivas e bem cadenciadas, cortesia de nosso caro Trevor Dunn ex-Bungle, que vem acompanhando Zorn há algum tempo.
E para falar desse estranho “fusion”, não consigo apontar outra similaridade senão o próprio Carlos Santana, que emerge imponente por essa gravação. Sim, é um disco de guitarras influenciado por nosso querido (eu realmente gosto de seu trabalho) “velho chapado”. Será que ainda estamos falando de Zorn?
Um disco cativante, em suas atmosferas serenas e as aproximações dos instrumentos solo por cima das sutilezas dos teclados e do setor rítmico que quase não se fazem notar.
Não farei uma análise faixa-a-faixa, pois prefiro que deixem transcorrer através de seus ouvidos o sentimento por aqui impresso nesse “Livro dos Anjos”. Grande trabalho, em especial para os fãs de jazz-fusion em suas belas nuances que pairam no ar, através de ambientes melancólicos de raríssima beleza. Gravação singular que merece ser ouvida e sentida.

E para fechar, gostaria de dizer que “Interzone” foi o melhor CD de avant-rock que ouvi esse ano, é simplesmente uma obra visceral que deixará qualquer fã da música experimental de joelhos.
Interzone foi o tributo de Zorn a Willian Burroughs (escritor da geração “Beat” que originaria o movimento “hippie”) que como o próprio afirma, muito influenciou sua musicalidade.
Agora sobre o CD. Não sei por onde começar. Caindo no lugar comum, esse é um disco inteligente. Mas, muito inteligente e completo. Formado por três longas faixas que abrangem a World Music, punk-jazz, sandices hardcore, experimentos eletrônicos, noise, um pouco dos clássicos contemporâneos, algumas doses de free jazz, assim como suas variantes mais tradicionais. Transcorre por tais variados gêneros sendo extremamente agressivo em momentos e em outros agradável e plausível, alternando experimentalismo e melodias mais acessíveis, sempre numa dinâmica impecável e madura que facilmente supera qualquer ato relacionado.


A primeira faixa inicia-se num ambiente desconfortável por onde são escalados os tilintares da percussão em suas multifaces, por cima de gemidos abafados antes de cairmos no caos de uma feira (?) no Oriente Médio provavelmente, seguida de pesados experimentos nos timbres de guitarra e baixo, por onde a bateria avança avassaladora em suas viradas cortantes. A seguir uma atmosfera espectral e pacifica é desenvolvida, com seus ares de mistério entoados pelos devaneios do estranho sopro ao fundo (comparação descabida, mas me lembra à segunda parte de “Moonchild” do King Crimson).
Provavelmente nesses pontos Zorn tenta reproduzir a atmosfera lisérgica empregada por Burroughs em seus contos. Em suas variantes profundas, o disco fluí de modo ímpar, sem tornar-se deveras carregado, levando o ouvinte por diferentes cenários que tangem instrumentações variadas e muito bem aproveitadas, como nas notas esquizofrênicas do piano acompanha de leves zumbidos paranóicos que invadem sem concessão a mente do ouvinte.
Logo mais a frente improvisos de free jazz, guiados pelo trio de bateria, baixo e sax. Sim, o caótico sax de Zorn, que tange de Ornette Coleman a Etron Fou Leloublan para atingir seu incrível grau de criatividade e originalidade. Depois o sax é substituído por teclas, não menos destrutivas, que repetem esse sentimento de paranóia e perseguição que assola a gravação.
A segunda faixa, “Interzone 2” é ainda melhor, através de novos ambientes, cortes ainda mais agressivos, retornando a alguns conceitos da primeira parte e adentrando-se a cenários que lembrariam ficção - cientifica (é também um disco muito visual, que causa diversas  impressões em que ouve com atenção).
Por aqui podemos nos deparar com ambientes de cortantes experimentos eletrônicos, inclusive na escolha dos timbres e boas inserções de jazz-fusion, em texturas interessantes que margeiam solos ilimitados e imaginativos (em trechos podemos observar uma Jam Session realmente) antes nos depararmos com cenas de agonia claustrofóbica.
E apesar de tudo isso, ainda consegue ser um disco relativamente acessível. Meu deus, o que esse cara está falando? Experimentos eletrônicos, free jazz, punk, sandices experimentais e ainda quer dizer que é um disco acessível? Sim, para quem já passou por Frank Zappa, King Crimson, RIO, pela Cena de Canterbury e outros movimentos de caráter experimental, Zorn faz um álbum polido (claro, com alguns momentos bem crus para balancear a mistura) dentro das fronteiras do febril.
Extremamente recomendado, um presente desse fantástico compositor a quem se atreve a navegar pelos mares densos de sua sonoridade.
Após algumas reflexões, concluo que esse foi o melhor disco de 2010, dentro de meus parâmetros tortos, uma gravação que muito me agradou.

2 comentários:

  1. Ótimo post! Tenho pesquisado bastante sobre Avant-Prog, e este post vai me ajudar muito!

    Obrigado.

    Vale tanto pelas referencias quanto pelo interessante comentário.

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  2. Obrigado pelas palavras, fico realmente agradecido.

    No mais, seu blog é bem legal, comentários muito coerentes (estava muito certo em seu post sobre o Grobschnitt).

    Fico feliz que consegui ajudar,

    Desejo um ano novo "progressivo" por aí

    Até mais

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