sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
In The Wake Of Evolution (2010) - Kaipa
Após um breve hiato, em razão de um Cruzeiro Marítimo, volto a postar sobre os bons álbuns que nos foram entregues neste ano.
“In the Wake of Evolution” foi um dos discos mais comentados dentro da esfera do rock progressivo e isso é facilmente justificável por seu conteúdo rico de deixar qualquer fã do estilo babando.
Mas, antes de falar desse grande lançamento, viajemos até os primeiros anos da existência da banda que nos presenteou com três bons discos, também muito bem recebidos: “Kaipa”, “Inget Nytt Under Solen” e “Solo”. Todos datados da segunda metade dos anos 70, por onde choviam as mais variadas influências, que podem ser facilmente sentidas na divertida massa sonora desses trabalhos. Por ali podíamos encontrar desde Focus, principalmente no trabalho da guitarra, a Uriah Heep muito presente nos vocais e no órgão, além de muito do Yes, em especial pelo proeminente baixo.
Nos anos 80, dois álbuns fracos, com algo de Abba, enfim nada que vale a pena comentar.
Em 1990, o Kaipa retornou brevemente com o line-up original, lançando um disco interessante “Stockholm Symphonie”, resgatando a sonoridade dos anos 70, com doses maciças de Focus.
E então vieram os anos 2000, quando todo o rock progressivo passou por reformulações, voltando a ser uma força considerável dentro da música do mundo. Dentro desse contexto, a cena nórdica foi uma das que mais se sobressaiu, a partir dos anos 90 com bandas como “Hoyre Kone”, “Anglagard” e em seguida com grupos como “Beardfish”, “Anekdoten”, “White Willow”, “The Flower Kings” e por aí vai (aliás, esse é um tema que devo falar em um momento futuro).
Aproveitando o clima favorável, o Kaipa ressurgiu com dois de seus membros originais, Hans Lundin (teclados) e Roine Solt (guitarras), gravando o disco “Notes From The Past”. Esse nos traz muito dos primeiros trabalhos do “Flower Kings”, também integrada por Solt.
Admito que saltei os discos seguintes, ouvindo somente o atual “In the Wake of Evolution”, alvo dessa resenha.
Agora sim, falando sobre o disco. Primeiramente, Roine Solt não contribuiu com o disco, portanto o foco compositivo recaiu quase completamente sobre Lundin, que nos traz um pouco se sua sensibilidade musical e a destreza de seus arranjos que resumem o que é o progressivo sinfônico de hoje.
O que vemos por aqui é a impecável performance instrumental, que se encaixa de modo curioso aos vocais alternados de Patrik Lundström e Aleena Gibson, que moldam contrastes bem originais.
Podemos sentir certa base no folk sueco, até pelo modo como suas alegóricas composições são estruturadas, algo que aparentemente se intensificou após a saída de Solt.
Os diálogos entre guitarra e teclado são afiadíssimos, enquanto Per Nilsson consegue suprir bem o vácuo deixado por Roine. Grande destaque também merece o baixo, muito bem trabalhado, sem grandes excessos.
A bateria também não faz feio, e transborda em alguns momentos do cd em viradas poderosas, guiando as frequentes mudanças de compasso, que podem ser vistas como tendência do prog sinfônico de hoje (vide Spock´s Beard e o próprio Flower Kings).
Ainda se pode sentir influências de Yes nas inserções do órgão e no setor rítmico e do Genesis nas guitarras principalmente, assim como nas “baladas progressivas”.
Tudo isso já pode ser visto na faixa título “In The Wake of Evolution”, que inicia-se numa potente seção instrumental em suas variações ágeis e exuberantes, numa dinâmica cativante, antes de cair em passagem mais suave, por onde percorrem os vocais femininos. Particularmente gosto da combinação vocal, no entanto esse pode ser visto como o ponto mais problemático dessa gravação, pois ainda sim soa inconsistentes se comparados a suntuosa atuação instrumental. Os solos são fenomenais, aderindo-se sem exageros aos temas variados e bem distribuídos.
Após a epopéia multicolorida de “In the Wake of Evolution”, nos deparamos com um momento menos impactante com “In the Heart of Her Own Magic Field”, recheado do sentimentalismo de Lundin, com um uso delicado das flautas (que me incomoda um pouco) e belos temas da guitarra (com reminiscências de Jan Akkerman), conseguindo transcender o aspecto de apenas uma simples balada progressiva, razoável.
“Electric Power Water Notes” ilustra o sentimento ao redor do disco, excelentes passagens instrumentais, mas em determinado momento sentimos um ar um tanto enfadonho nas presenças vocais. Os solos são excelentes, principalmente nas trocas entre órgão e a guitarra, que incendeiam a faixa, mas ainda sim no mais não há o mesmo reflexo enérgico da primeira canção.
Pra varia o contexto, “Folkia´s First Decision” nos aproxima ao folk melancólico e delicado, sem grandes surpresas. A faixa seguinte “The Words are Like Leaves”, é mais condensada com bons ambientes travados nos teclados, fluidas linhas de baixo e o característico peso da guitarra ao promover as harmonias antes de entrar em seu fraseado suntuoso que se abre de modo claro e preciso, bom momento.
“Arcs of Sounds” pode soar um pouco cansativa, principalmente após passar da metade, devido à atuação vocal sem grande brilho e a pobreza dos temas (se comparados ao restante do disco). “Smoke From A Secret Source” é bem mais completa e eclética, transcorrendo desde o folk até uma roupagem jazzística, em temas alegóricos e bem cadenciados, atingindo interessantes nuances hard prog, enquanto a guitarra desenha o progresso sob o fraseado moderno e sintético dos teclados.
“The Seven Oceans of Our Mind” inicia-se num clima melancólico e vai crescendo até adquirir ares épicos dignos de um grande prog sinfônico, antes de cair em mais uma passagem leve com reminiscências de Genesis, que retorna a um imponente tema instrumental guiado pelas guitarras que domina o restante da faixa.
Um bom disco de progressivo sinfônico, talvez nem tão mítico como alguns ouvintes mais empolgados podem ter apontado. Excepcional trabalho de guitarras e teclados, sobre um setor rítmico muito competente, que ocupa e preencha grande parte das composições que de modo geral voltam-se a essa nova sonoridade do prog moderno, com ecos relevantes de bandas dos áureos anos 70, com todos os méritos, afinal estavam por lá.
Num ano que teve novos lançamentos de bandas grandes como Spock´s Beard e Glass Hammer, “In the Wake of Evolution” roubou a cena, com sua sonoridade carregada que ainda carece de melhores definições (principalmente na parte vocal), mas que sem dúvida encanta pelo maravilhoso aproveitamento instrumental em seus arranjos majestosos que contrastam a honestidade e beleza das passagens mais voltadas ao folk. Provavelmente não é o melhor disco do ano, como vem sendo enunciado, mas vale se conferir, principalmente para aqueles atentos aos novos rumos que o progressivo vem tomando. Um dos melhores (se não o melhor) discos da banda.
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