quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
La Torre dell´Alchimista
La Torre dell´Alchimista é um novo grupo de prog italiano, que descobri apenas recentemente. Por hora lançaram apenas dois discos, que se fazem dignos dos grandes atos progressivos de seu país nos anos 70.
De fato pode-se notar a grande influência do Banco Del Mutuo Soccorso, principalmente em seu primeiro disco, o homônimo de 2001.
A sonoridade é dirigida através dos eficientes teclados, principalmente nos trabalhos de órgão, que apontam a sonoridade setentista e dos sintetizadores, esses já abusando de modernismos, em efeitos unicamente eletrônicos, com algo de Solaris. Ajunte a esses elementos um belo trabalho de flauta, em seu soar bucólico e introspectivo, inclinando-se sobre o toque mediterrâneo de algo como PFM; vocais sinuosos que me lembram principalmente Alphatauros; linhas de baixo a lá Patrick Djivas e por fim inteligentes violões que suprem a necessidade da guitarra elétrica, em vários bons momentos.
Tudo isso se reflete muito fortemente no disco de estréia, que aparece como um grande tributo a todo o prog italiano, sem parecer enfadonho, aliás, é um trabalho sólido que facilmente cativa o ouvinte, principalmente nas linhas dos sempre atarefados teclados, mais uma vez destaque para o órgão, no entanto, particularmente, não consigo gostar do uso de mellotron que me parece um tanto forçado ou artificial, mas nada que prejudique o disco em si.
O cd possui algumas grandes passagens e apesar de claramente ter surgido de um único foco de inspiração, o excelente trabalho de teclado transborda ao longo da audição, ocupando toda a possível zona de vácuo, com muita qualidade.
Todas as canções foram minuciosamente organizadas e facilmente estão acima da média, como destaques posso citar a faixa homônima, em suas variações de temas e tempos, de modo cativante e muito criativo, uma real jornada progressiva, como não poderia faltar; a fantástica “Il Volo”, em toda a beleza de seu clima pastoral, guiado pelos vocais apaixonantes, a delicada linha de violão e o excelente trabalho dos sopros (flauta e clarinete), resgatando facilmente todo o charme das baladas setentistas; e por fim “Lo Gnomo” outra surreal viagem progressiva, calcada no fraseado onírico dos teclados e da flauta, em melodias esguias, que facilmente carregam o ouvinte através do ambiente alegórico e imaginativo.
O segundo disco viria só em 2007, com “Neo”, com uma roupagem bastante diferenciada do que foi feito primariamente. Um detalhe relevante talvez tenha sido a saída do flautista Ceraolo Silva e por conseguinte, a sonoridade transformou-se, se em “La Torre Dell´Alchimista” a banda resgatava os imponentes trabalhos de prog italiano dos anos 70, com alguns flertes com o ELP, em “Neo” surgem novas influências que aproximam o álbum de um clima mais jazzístico que o primeiro e um amadurecimento na forma compositiva, tangendo até King Crimson, no seu agora bom mellotron, mais refinado.
Essa mudança já é notada visivelmente logo na primeira faixa “Dissimmetrie”, que segue os parâmetros de algo do “Tarkus”, alternando-se com passagens mais suaves, destaque também para o trabalho de baixo, mais encorpado e bem resolvido.
“Medusa” segue os moldes de Emerson, Lake and Palmer, em uma melodia complexa, com algumas boas passagens iniciais no mellotron, entre os poderosos ataques do órgão. Esse é um dos melhores momentos do álbum, a faixa transcorre recheada de variações e bons padrões instrumentais, alternando momentos de grande energia e dramaticidade e leves passagens guiadas pelos vocais, também cheios de expressividade. Destaque para o interlúdio de violino, a presença dos músicos convidados que providenciam flautas, guitarras, violino e sax, enriquece o conteúdo do disco, aderindo novas texturas que caem muito bem ao redor do já sólido trabalho.
As letras de modo geral, me parecem bem interessantes, à medida que pude compreender, mas vou tentar encontrar as traduções e então posto uma resenha mais detalhada.
Em “Risveglio Procreazione e Dubbio Part 1” surge uma estrutura mais uma vez, muito influenciada pelo ELP (que inunda todo o disco), intercalando algumas passagens quase claustrofóbicas de timbragem escura, interlúdios de ares bem jazzy e novamente o ar de uma boa balada italiana, acompanhada de piano e do suave mellotron. Outro bom momento do disco, superando “Medusa”, por seu maior aproveitamento da melodia, que facilmente adentra novos ramos e não se prende apenas nos teclados a lá Keith Emerson, que podem chatear um pouco o ouvinte. Música bem concebida e talvez o ponto mais alto do disco.
“Cerbero” é mais uma boa peça, que descreve outra uma vez a complexidade que presenciamos ao longo do disco, que aborda temas novamente mais sombrios, destacando também as boas passagens de piano.
Apesar de “Neo” promover um amadurecimento compositivo, particularmente prefiro a energia e disposição exalada pelo primeiro disco, mas ambos os trabalhos deixam-me com a sensação de que a banda precisa ousar mais, encontrar uma sonoridade particular que não soe apenas como um revival, que acontece em “Neo” com o ELP. A liberdade do órgão e dos sintetizadores em “La Torre...” me soa mais agradável que os parâmetros muito sisudos de Emerson, em “Neo”, mas esse também possui seus pontos positivos, principalmente por sua estrutura mais bem definida, em passagens intrincadas de amplo valor instrumental.
Esperamos o que esse grupo italiano possa nos dispor em uma gravação futura, a tendência é que melhore ainda mais.
Recomendado por seu prog-vintage, com excelente trabalho dos teclados, que mescla o ar nostálgico dos anos 70 a algumas tendências progressivas mais atuais, destacando o principalmente o primeiro disco.
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