sábado, 11 de dezembro de 2010

Le Bois Travaille, Même Le Dimanche (2010) - Ange


Após ouvir “Le Bois Travaille, Même Le Dimanche” uma única pergunta vinha a minha cabeça: mas o que aconteceu com o Ange?
Ange é uma banda de história, que encantou ouvintes com sua sonoridade imponente dos anos 70. Desse período podemos nos recordar das atmosferas escuras, o órgão distorcido, as esplêndidas performances vocais, em sua magia teatral unidas a algumas boas doses de folk para formar um som denso que facilmente envolvia o ouvinte.
Então surgiram os cruéis anos 80 com suas baladas pop e fui obrigado a deixar de ouvir Ange (resisti bravamente até “La Gare de Troyes”, mesmo com o doloroso “Moteur!”, um dos piores discos de todos os tempos).
Desde então tinha ouvido algumas peças aleatórias no youtube, e recentemente decidi procurar esse novo CD, lançado neste ano.
Após algumas audições, percebo que o disco poderá soar muito decepcionante a ouvintes nostálgicos, pois o que verão aqui é um Ange completamente reformulado, deixando para trás o progressivo sinfônico e pomposo de outrora.
Por outro lado, o disco pode agradar muito ouvintes que estão dispostos a manter a mente aberta a novas sonoridades. O que temos aqui é um heavy-space-prog contemporâneo, que mantém alguns dos ambientes escuros de antigamente, agora ainda mais densos, recheados em boas camadas instrumentais.
O grande problema por aqui é o desnível do trabalho, se podemos encontrar algumas faixas arrasadoras como o space rock obscuro de “A L´Ombre Des Pictogrammes”, deparamo-nos também com algumas passagens bem fraquinhas, principalmente quando a banda tenta induzir suas baladas como em “Voyage en Auterchie”, talvez o pior momento da gravação, em seu trafego arrastado e meloso, de dar sono (apesar da aproximação com o metal progressivo em momentos, que também é detestável). Isso talvez se reflita devido à extensão do cd, que em determinado momento pode soar um pouco cansativo.
A instrumentação é peculiar, a bateria eletrônica transborda por quase todo o disco e pouco restou também dos teclados orgânicos, criando por aqui sinuosas e profundas atmosferas de peso (alguns momentos até um pouco claustrofóbicos).
Os vocais ainda apontam ao brilho da interpretação teatral da fase áurea, o que pode agradar os fãs que se sujeitarem a nova sonoridade.
Como conclusão, posso dizer que a banda sofreu um amadurecimento nesses anos e adaptou-se as novas tendências musicais, “Le Bois Travaille, Même Le Dimanche” é talvez o melhor disco desde “Guet-Apens” e uma das gravações mais interessantes do ano.

Des papillons, des cerfs volants” é uma boa viagem progressiva, com alguns contrastes interessantes entre o soar intenso dos teclados e o atarefado setor rítmico, com algumas reminiscências de King Crimson.
Já “Hors-La-Loi” é um poderoso hard prog numa massa sonora compacta alternando alguns interlúdios espectrais (Tristan Decamps faz um grande trabalho de teclados), no final um bom solo de guitarra com algo de Steve Hillage.
Então nos surge a faixa título “Le bois travaille, même le dimanche”, uma jornada espetacular para ser recordada. Inicia-se como uma balada esquizofrênica (realmente muito perturbadora no momento dos vocais femininos), que rasteja agonizantemente através de excelentes performances vocais até uma pesada e sólida estruturação, de harmonia arrasadora, por onde são travados poderosos riffs de guitarra, ladeados pelos teclados sintéticos, que disponibilizam alguns efeitos paranóicos, para intensificar a atmosfera de tensão. Após a pedrada, a música confluí num ambiente aterrorizante e meditativo que encaminha ao final. Simplesmente épico, o ponto mais alto do disco.
As faixas seguintes são apenas regulares, enquanto “Sous le nez de Pionocchio” mantém a energia propagada na faixa anterior, sem ilustrar a mesma tensão e poder, “Voyage en Auterchie” evoca uma balada cansativa com alguns elementos dessa nova sonoridade. “Jamais Seul” é uma bela canção, partindo para a faceta mais folk, sem deixar de lado o clima assombrado que assola o disco, nada de mais até aqui.
L´oeil et L´ouie” mostra mais um bom momento, os elementos sonoros escolhidos perturbam a sanidade de quem ouve (o disco ao todo me lembra um pouco o Goblin), com uma poderosa harmonia ao piano carregada de sentimentos confusos, até cairmos numa passagem mais pesada, quase metal. Após a metade bons entalhes de instrumentos de corda engrandecem a experiência sonora, navegando ao lado de mais um excelente solo de guitarra introspectivo e expressivo.
Mais uma vez, alguns momentos instáveis, “Clown Blanc” nos apresenta a um riff insano que mantém o clima fantasmagórico que circunda o disco, já “Dames et Dominos” é uma pesada balada com alguns bons efeitos, mas nada além, “Les Colliness Roses” segue o mesmo caminho, mas com um melhor trabalho de guitarra e performance vocal impecável.
O destaque final é “A l'ombre des pictogrammes” como já mencionado, entoa um arrasador space rock, grande momento da percussão, sob as pesadas nuvens que envolvem a faixa. Podemos encontrar alguns momentos de dissonância ao lado de efeitos abstratos que trafegam sobre o trabalho etéreo dos teclados. A segunda parte contém um imponente violoncelo, que cresce juntamente com a entrada do restante da instrumentação (momento bem sinfônico) condizente com o progressivo atual, uma maravilha realmente, intimidando a nova geração de bandas como “Amplifier”, “Oceansize” e “Hypnos 69”.

Não é o mesmo Ange que foi consagrado com uma das melhores bandas de rock progressivo, talvez não seja tão consistente e agradável aos ouvidos como outrora, mas consegue produzir uma sonoridade desafiadora, atual, criando nuances sombrias e poderosas, que vão do space rock até o metal progressivo, um disco bem eclético, porém desigual, como explanado ao longo da resenha.
Vale a pena se ouvir, após mais de 40 anos de carreira, o Ange ainda nos brinda com um bom trabalho como esse, sem um pingo de recesso, sua sonoridade evoluiu e se reciclou, nos deixando no aguardo de melhores trabalhos ainda por vir.

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