Marek Grechuta foi um dos pioneiros do rock polonês e um de seus mais importantes representantes. Apesar do meu ciclo de postagens sobre o progressivo do leste europeu ter sido interrompido, isso não me impede de falar de alguns de seus grandes artistas. Marek foi inicialmente um cara corajoso e até subversor, iniciando o movimento de rock na Polônia ainda no início dos anos 70, juntamente com bandas como o SBB, que tornou-se um pouco mais popular, principalmente fora do país.Novamente, para entender suas músicas é preciso mergulhar no contexto da Guerra Fria, e do comunismo que regia a maior parte desses países. A Polônia talvez tenha sido um dos países que mais sofreu com a repressão no período, principalmente nos anos anteriores a 1970. Com a entrada Edward Gierek no governo, o regime “relaxou” um pouco, essa era a deixa para que tais bandas propagassem seu som.
Nesse mesmo ano, Grechuta lançou seu primeiro disco, “Marek Grechuta e Anawa” muito prestigiado pelos fãs principalmente (de acordo pude notar com algumas pesquisas). Mas, o grande clássico viria a seguir “Korowód”, um dos poucos discos que ouvi inteiro, como me foi recomendado.
Os arranjos a primeira vista podem parecer singelos, principalmente em sua faixa mais famosa “Dni, których nie znamy” (é... o polonês é uma língua complicada) que evoca doses maciças de folk (até com algumas possíveis pitadas de Bob Dylan, como discuti com um amigo recentemente), numa bela e cativante harmonia, guiada pelos vocais repletos de paixão de Marek. Num outro momento já podemos notar faixas mais complexas até com certo conteúdo experimental como a instrumental “Wiedziec Wiecej” baseada nos improvisos dos violões cheios de delays, que crescem e preenchem todo o conteúdo da música, numa espécie de interlúdio meditativo (na parte dos Drones feito nas notas graves, a composição soa como um mantra).
Em “Kantata” é resgatado o folclore do leste europeu, o “folk dos romani”, como meu amigo Tiago explanou em sua série de posts sobre o tema (você pode ler mais clicando “aqui”), sobre uma imponente base jazzística, com mais improvisos “free”, antes de cair em passagens mais claras e positivas.
Interessante é notar como as estruturas compositivas são armadas, apesar dessa base folk, não nos deparamos com músicas simplórias e arcaicas, muito pelo contrário, Merek nos apresenta a uma espécie de progressivo, eclético, que reúne algumas boas influências partindo desde a nostalgia e o clima pastoral imposto pelos trabalhos das cordas e das flautas, até a liberdade jazzística inserida pelo baixo em algumas faixas, em melodias bem executadas que contam com bons contra-pontos, principalmente entre os violões, criando belos padrões límpidos e cativantes.
Outro detalhe é a interpretação memorável do compositor de suas próprias letras, aliás outro ponto fortíssimo, poderão encontrar alguns rótulos para sua música como “poesia cantada”, o que de fato ocorre, o que consegui encontrar e traduzir para o inglês (de modo bem precário às vezes) já me soou profundo e reflexivo, numa espécie de resgate dos detalhes importantes do comportamento, como ocorre em “Dni, których nie znamy” que aponta a busca pelo conhecimento (pelas respostas) como o único modo de alcançar a satisfação plena, com alguns bons versos por trás que cabem a interpretação de cada um (para encontrar algumas letras, ainda que em polonês clique “aqui”).
O grande destaque do disco vai para a faixa título, composição mais progressiva do álbum, carregada de energia, emanada pelo potente e vibrante setor rítmico (o uso do baixo me lembra um pouco Chris Squire, talvez um pouco mais “jazzy”), contando também com o excelente uso do coro como pano de fundo e um belo solo de flauta (provavelmente algum tipo regional, seu timbre é mais “aerado” que o da flauta transversal).
Dos outros discos ouvi pouco, até pela dificuldade em encontrá-los, mesmo com a extensa discografia do músico, que conta com treze álbuns de estúdio (como me consta), sendo o último datado de 2003.
Marek faleceu em 2006, aos 60 anos, deixando seu importante legado para o rock polonês.
Recomendado por seu folk-rock fora dos padrões habituais, de grande aproveitamento instrumental, ou mesmo por seu progressivo cru e incomum.

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