Nesse último dia de 2010, venho desejar-lhes uma festiva virada e que esse que se aproxima seja um excelente ano.
Trago também, um pouco de jazz. Sim, admito que foi pouco o material que ouvi, lançado esse ano. Entretanto, venho destacar dois lançamentos do hábil Dave Holland, um dos músicos que venho acompanhando na atual fase do jazz.
Para quem não é familiarizado com estilo, Holland foi apresentado ao mundo no período de transição de Miles Davis, entre os primeiros passos do jazz-fusion, participando como baixista das gravações de “Filles De Kilimanjaro”, “In a Silent Way” e do lendário “Bitches´Brew”.
Além de importante componente no desenvolvimento do fusion, Holland também se envolveu com o avant-jazz (que até hoje deixou sequelas em suas composições), desse período restam os trabalhos do “Circle”, com Chick Corea, Barry Altschul e Anthony Braxton.
Ainda gravaria com alguns saxofonistas famosos como Stan Getz (e seu jazz de elevador...) e Joe Henderson (desse sou fã).
Mas suas contribuições ao jazz não se resumem a trabalhos como “sideman”, apesar de ser um competente baixista, Holland é um excepcional compositor, cultivando uma respeitável carreira solo, que atravessa os anos sem soar cansada, muito pelo contrário, em cada nova gravação o músico nos surpreende mais.
Esse ano nos entregou o excelente “Pathways”, com seu octeto e “Hands”, em parceria com o guitarrista de flamenco Pepe Habichuela.
Primeiramente sobre “Pathways”. A impressão que se gera após a primeira audição é de que Holland nunca se atreveu ao groove com tanto vigor, aderindo ao disco uma roupagem hard bop, com nuances de contemporaneidade que não poderiam faltar.
Seu octeto é aqui composto pelos parceiros de longa data Chris Potter nos sax tenor e soprano, Nate Smith na bateria, Robin Eubanks no trombone e Steve Nelson no vibrafone e marimba, além de Antonio Hart no sax alto, Alex Sipiagin no trompete e flugelhorn e Gary Smulyan no sax barítono.
Como o line-up sugere, é uma gravação repleta de cores, por onde os sopros transbordam com total liberdade pelo setor rítmico preciso e imaginativo de Smith e Holland, que ainda toma a linha de frente para impor seu fraseado diferenciado em grandes improvisos, como se pode esperar. Adicione então o toque especial de Nelson, com sua percussão melódica original e moderna e terás a formula do sucesso.
O disco contém versões de composições conhecidas, incluindo o jazz modal de “Shadow Dance”, que recebe uma roupagem mais pesada, adentrando-se ao espírito groove já mencionado, principalmente pela levada ágil de Smith. O grande momento da gravação é o fantástico solo de Hart no sax alto que incendeia a faixa de modo inédito.
Outras regravações são de “Ebb and Flow” (reforçada pelos ataques do sopro, em especial do trombone e do sax tenor, sobre uma nova base de ares latinos), “How´s Never”, “Blue Jean” (em versão estendida, num contexto mais amplo, contendo magníficas manifestações de virtuosismo de Sipiagin, que infesta a faixa com paixão em suas linhas sinuosas e de Smulyan em seu melhor momento da gravação) e “Wind Dance”, contribuição do trompetista com enérgicos solos, assim como sua versão original.
Restando duas novas composições: “Pathways” e “Sea of Marmara”. A primeira é mais uma aproximação ao jazz afro-cubano, através de temas sólidos e trocas de solo muito bem planejadas, incluindo nuances de avant-jazz, um imponente solo de baixo e espaço para que Smulyan e em especial Sipiagin brilhem. Grande momento sem dúvidas, só essa já libera grande parte do encanto do CD. Já “Sea of Marmara” nos traz um clima mais etéreo, guiado através dos tilintares misteriosos de Nelson, por onde trafegam os sopros de modo delicado e sutil.
Uma excelente gravação, que premia os fãs da discografia sólida de Holland, um dos gigantes do jazz atual.
Já em “Hands”, Dave vem anexar um interessante tempero ao já agradável flamenco de Pepe Habichuela (que também não é estranho ao jazz, tendo colaborado com Jaco Pastorious e Don Cherry).
O resultado dessa união é uma gravação deliciosa, amalgamando, como se imagina, a melancolia do fraseado de Habichuela a veia jazzística e imaginativa de Holland.
Ao longo da gravação podemos sentir influências latinas em viradas agitadas, repletas de swing, mudanças abruptas de compasso em um trabalho de baixo multiforme e cortante, algo da pompa do tango e passagens mais movimentadas com aproximações mais cruas de rumba. O disco ainda transborda os sentimentos dessas nuances tão ricas, tendo como resultado composições palatáveis que facilmente capturam o ouvinte.
“Hands” é um trabalho minucioso e envolvente, repleto de emoções diversas, unindo diferentes ritmos através de passagens imponentes que sobrepõem certo clima de introspecção e mistério. Belíssimo disco, para ser curtido do inicio ao fim.
Dois bons trabalhos, ainda bem acessíveis, em especial “Hands” que pode agradar mesmo aqueles que não estão acostumados ao jazz, até por seu maior ecletismo e o sentimentalismo cativante exacerbado, enquanto “Pathways” nos mostra mais uma grande contribuição ao jazz, através da experiência desse grande compositor e arranjador.
Mais uma vez, deixo minhas fortes recomendações e um alerta aos fãs de jazz desatentos (como eu) que andam perdendo muito do que vem sendo produzido com qualidade por aí.
No mais é isso, um excelente ano para todos e aguardem as novidades no blog para janeiro.



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