terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Stick Men

“Stick Men” é o mais recente projeto dos “filhos” de Robert Fripp, tendo em sua formação Tony Levin, Pat Mastelotto e Michael Bernier (Chapman Stick, bateria e vocais). Na abstinência do Crimson, vemos surgir alguns trabalhos interessantes e esse não decepciona.
O que temos aqui é o aproveitamento total do stick, através das hábeis mãos de Levin e Bernier, criando composições extremamente técnicas com aquele sabor Crimsoniano pós-Thrak, através de melodias incomuns com alguns toques mais “funky” (cortesia de Levin).
O resultado é um excelente disco (meu preferido do ano), recheado de boas composições, mas sem a dose de experimentalismo radical a qual nos acostumamos, seguindo uma fórmula que vem sendo explorada há algum tempo e consequentemente, desenvolvida a perfeição nesse espaço. Ainda é simplesmente fantástico ouvir todos os variados sons extraídos dos sticks, através das diferentes técnicas empregadas pelos instrumentistas.
Não é uma sonoridade tão desafiadora quanto os extremos atingidos por projetos anteriores, até alguns recentes, como o KTU (principalmente em 8 Armed Monkey), mas ainda sim pode agradar facilmente os fãs das revoluções sonoras propostas pelo Crimson ao longo dos anos, numa atual fase polida e bem estruturada. Talvez o pior momento do disco se encontre justamente quanto tentam ultrapassar seus limites, em sua versão da “Firebird Suíte” de Igor Stravinsky.
Apesar disso, é uma gravação que transcorre bem aos ouvidos, disco sólido que alterna boas passagens instrumentais que ainda têm seu charme.


O disco se abre com a febril “Soup”, em vocais a lá “Discipline” sobre uma pesada estrutura que muito tem do King Crimson. Mas, o destaque de modo geral vai para as esquisitices da faixa que rondam uma versão torta de “rap”, enquanto em outro momento a composição é transbordada por efeitos eletrônicos desproporcionais e bons solos cáusticos como não poderiam faltar.
A seguir vem a suíte “Hands”, num dos melhores momentos do CD. O que dizer dessa música?
A avalanche de técnica que transborda as melodias intrincadas e esquizóides, que variam em velocidade absurda, através de mudanças de compasso bruscas que constantemente retiram o ouvinte de sua zona de conforto, em razão de suas imprevisíveis metamorfoses. Uma completa viagem sonora por entre os mares das distorcidas composições do trio, despejando temas potentes, aliados a interlúdios senis e solos lacerantes, tornando-se impossível indicar qual das três partes é a melhor.
Inside the Red Pyramid” nos traz espectrais efeitos atmosféricos ao fundo, com certo sabor oriental, por onde trafega a condensada linha de baixo, antes do surgimento do arrasador riff executado por Bernier (que faz, como se pode supor, as partes de guitarra no Stick). Uma das minhas favoritas.
Em “Fugue” nos encontramos mais uma vez com a técnica avassaladora dos músicos, numa estrutura bem definida por onde trafega o excelente fraseado da guitarra em contraste constante com a fantástica linha tracejada por Levin. Ao seu final um interlúdio mais suave, com alguns toques jazzy, curioso.
Sasquatch” é uma das faixas mais “progressivas” do disco, repleta de detalhes sutis, fortíssimo trabalho das partes de guitarra, em seus riffs limpos e abertos e excelente presença do setor rítmico, criando ambientes instigantes, mas ainda sim extremamente agradáveis, enquanto o interlúdio nos carrega a esquizofrenia tradicional. Uma das melhores da gravação.
Conseguimos sentir outro estranho momento em “Scarlet Wheel” que surpreende por seu arranjo cristalino que impõe grande clima de paz (uma real sensação “New Age”), com leves ecos por onde surge a paixão vocal que lembra um pouco John Wetton, aderindo ainda um toque da música oriental mais acentuado, propagando a vastidão da faixa. Mais a frente ainda há espaço para a aproximação funky do stick. Muito diferente do que se poderia esperar, mas ainda sim um bom momento, contribuindo para o ecletismo do disco que sem dúvida não fica preso a um único ponto de inspiração.
Então nos surge o momento problemático. Se por um lado o trio foi muito corajoso, apenas em pensar na possibilidade de regravar um estandarte de Stravinsky, por outro pecaram pelos excessos. Em sua versão de “Firebird Suíte”, através da ótica paranóica de arranjos atípicos, acaba “desvirtuando” uma das maiores composições da história recente. É claro que tem lá seus bons momentos, alguns até bem interessantes, pelo modo como certos recursos são explorados para criar uma releitura extremamente sombria e distorcida. Alguns fãs podem gostar, mas...

Para fechar “Relentless” uma verdadeira pedrada, através de temas ágeis e agressivos, percorrendo a excelente performance de Mastelotto, que mostra-se um dos maiores destaques da gravação, em um de seus melhores momentos. Após os 2:30, um delicado interlúdio enquanto o Chapman é tocado com o arco para criar o clima introspectivo ao redor, antes de retornarmos a energia dos improvisos ácidos sobre o tema principal. Muito peso e sandices, antes de terminar o disco em grande estilo.

Como disse, gostei do CD, que no geral possui apenas bons momentos, apesar da Firebird Suíte, talvez um pouco de purismo da minha parte? Não sei, mas essa versão não me pareceu condizente a grandiosidade da composição.
Esquecendo esse detalhe de quase quinze minutos, “Soup” é um disco muito interessante que vale pelo conteúdo de suas composições que não se atém apenas a temática do King Crimson e pelo abuso técnico imposto para criar camadas instrumentais impressionantes. Vale conferir esse e ficar no aguardo de futuros lançamentos.

3 comentários:

  1. Lucas:

    No lugar de Michael Bernier (que gravou o disco) virá o stick guitarrist alemão Markus Reuter.

    O mais "estranho" é que no site de dois deles há divergência de datas e locais:

    www.patmastelotto.com/tour-dates
    www.markusreuter.com/



    Só no site oficial do Tony Levin é que aparecem as datas e locais corretos.

    Só falta eles se desencontrarem.

    hahahahaha

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  2. O site oficial do Tony Levin é este:

    www.papabear.com/

    Bom... De qualquer forma, eu já garanti o meu ingresso.

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  3. Somos dois então! Não sabia que Michael Bernier não viria, e esse nome "Markus Reuter" não me é estranho, é capaz de já tê-lo ouvido. Conhece algum trabalho pra indicar enquanto esperamos o fim de semana?

    Ah e peço desculpas pelo atraso na resposta, só tive tempo pra acessar hoje.

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