terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Toe.
Mais uma banda contemporânea, hoje (como disse, durante esse mês traria bastante coisa nova). Provinda diretamente do Japão, nos surge “Toe.” Navegando pelos mares do post-rock, que provavelmente é o estilo que melhor ilustra o atual momento do rock, podemos encontrar alguns expoentes bem sucedidos do novo ritmo desenhado por bandas como Mogwai e Tortoise, compartilhando entre si o gosto pela introspecção musicada, afastando-se cada vez mais do formato “canção” ao qual nos habituamos.
O Toe. contribui para isso com uma delicada mescla de todas as emoções carregadas por seu post-rock a uma dinâmica estrutural típica do math rock, presente principalmente no espetacular trabalho da bateria, sempre salientado nas composições em suas variantes complexas e muito acuradas.
Mas, ao contrário de outras bandas que buscaram promover essa mesma mistura, o Toe. soa bem natural e fluído, aparentando ter encontrado sua sonoridade, numa existência tão curta, em menos de 10 anos.
Até agora lançaram apenas dois discos de estúdio e alguns EPs, o primeiro foi “The Book About My Idle Plot on a Vague Anxiety” (de 2005) que ainda não ouvi na integra, apenas alguns pedaços soltos pelo youtube, e segundo o que pude notar, mostra um Toe. ainda cru, que no entanto já demonstra os elementos chaves de sua sonoridade: um trabalho muito técnico de bateria circundado pelo fraseado limpo e flutuante das guitarras.
Foi com “For Long Tomorrow” (2009) que a banda chamou minha atenção, principalmente pela magia contida em sua intensa lírica instrumental. Por aqui o grupo também acrescenta harmonias características do Piano Rhodes, linhas de baixo bem trabalhadas e cativantes, riffs de vibraphone, vocais atmosféricos, além de um aproveitamento muito maior do violão, que em momentos realmente rouba a cena.
O resultado é uma construção musical singular, onde os diversos recursos confluem numa massa homogênea, porém profunda, em diversas camadas, onde todos os instrumentos brilham igualmente.
Prova dessa estruturação incomum podemos encontrar na genial “Goodbye”, que surge através de um suave balbuciar da guitarra, por onde são inseridos lentamente os novos adereços da composição, antes de desenvolver diante de nossos olhos uma intrincada melodia, que une a introspecção e todo o sentimento propagado pelos diálogos entre violão e guitarra, baseados sobre uma potente base rítmica, em ataques matadores de baixo e bateria.
Justamente, essa faixa demonstra o ápice dessa junção perfeita entre os dois estilos, de modo a constituir um som integro e fluído, inclassificável.
Ainda podemos sentir por todo disco o apaixonante trabalho das guitarras cristalinas, que por seu fraseado apontam em momentos ao Radiohead (sem a mesma distorção ou a dose carregada de efeitos). Enquanto o setor rítmico aponta alguns momentos bem jazzísticos, quando a bateria não está sendo aterrorizada por viradas absurdas e poderosas.
O trabalho contrastante das cordas me conectaria a alguma coisa do fusion, talvez Béla Fleck pela sobreposição da melodia honesta aos efeitos atmosféricos incidentais.
O álbum é bem nivelado e apesar da minha preferência por “Goodbye”, nenhuma das faixas fica abaixo do padrão de qualidade imposto, talvez “Our Next Movement” surpreenda um pouco por seu toque de world music (note os tipos de percussão empregados) e as camadas de jazz atribuídas ao longo da faixa principalmente pelos instrumentos de sopro, mesmo assim mantendo a base de sua sonoridade.
Esse aglomerado soa ao todo muito orgânico e leve para os ouvidos, sem apelar para a complexidade de difícil digestão, aliás o ouvinte pode ser facilmente capturado pelo clima imposto pelas músicas, carregadas de sentimento de uma timidez até poética (é preciso se ouvir).
Extremamente recomendado, foi algo que gostei de escutar e me causou uma boa impressão, para aqueles que tem a mente aberta as novas sonoridades, que promovem o desenvolvimento gradual da música, Toe. possui uma boa proposta que facilmente agradará.
Realmente difícil é não gostar.
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