Nesse último dia de 2010, venho desejar-lhes uma festiva virada e que esse que se aproxima seja um excelente ano.
Trago também, um pouco de jazz. Sim, admito que foi pouco o material que ouvi, lançado esse ano. Entretanto, venho destacar dois lançamentos do hábil Dave Holland, um dos músicos que venho acompanhando na atual fase do jazz.
Para quem não é familiarizado com estilo, Holland foi apresentado ao mundo no período de transição de Miles Davis, entre os primeiros passos do jazz-fusion, participando como baixista das gravações de “Filles De Kilimanjaro”, “In a Silent Way” e do lendário “Bitches´Brew”.
Além de importante componente no desenvolvimento do fusion, Holland também se envolveu com o avant-jazz (que até hoje deixou sequelas em suas composições), desse período restam os trabalhos do “Circle”, com Chick Corea, Barry Altschul e Anthony Braxton.
Ainda gravaria com alguns saxofonistas famosos como Stan Getz (e seu jazz de elevador...) e Joe Henderson (desse sou fã).
Mas suas contribuições ao jazz não se resumem a trabalhos como “sideman”, apesar de ser um competente baixista, Holland é um excepcional compositor, cultivando uma respeitável carreira solo, que atravessa os anos sem soar cansada, muito pelo contrário, em cada nova gravação o músico nos surpreende mais.
Esse ano nos entregou o excelente “Pathways”, com seu octeto e “Hands”, em parceria com o guitarrista de flamenco Pepe Habichuela.
Primeiramente sobre “Pathways”. A impressão que se gera após a primeira audição é de que Holland nunca se atreveu ao groove com tanto vigor, aderindo ao disco uma roupagem hard bop, com nuances de contemporaneidade que não poderiam faltar.
Seu octeto é aqui composto pelos parceiros de longa data Chris Potter nos sax tenor e soprano, Nate Smith na bateria, Robin Eubanks no trombone e Steve Nelson no vibrafone e marimba, além de Antonio Hart no sax alto, Alex Sipiagin no trompete e flugelhorn e Gary Smulyan no sax barítono.
Como o line-up sugere, é uma gravação repleta de cores, por onde os sopros transbordam com total liberdade pelo setor rítmico preciso e imaginativo de Smith e Holland, que ainda toma a linha de frente para impor seu fraseado diferenciado em grandes improvisos, como se pode esperar. Adicione então o toque especial de Nelson, com sua percussão melódica original e moderna e terás a formula do sucesso.
O disco contém versões de composições conhecidas, incluindo o jazz modal de “Shadow Dance”, que recebe uma roupagem mais pesada, adentrando-se ao espírito groove já mencionado, principalmente pela levada ágil de Smith. O grande momento da gravação é o fantástico solo de Hart no sax alto que incendeia a faixa de modo inédito.
Outras regravações são de “Ebb and Flow” (reforçada pelos ataques do sopro, em especial do trombone e do sax tenor, sobre uma nova base de ares latinos), “How´s Never”, “Blue Jean” (em versão estendida, num contexto mais amplo, contendo magníficas manifestações de virtuosismo de Sipiagin, que infesta a faixa com paixão em suas linhas sinuosas e de Smulyan em seu melhor momento da gravação) e “Wind Dance”, contribuição do trompetista com enérgicos solos, assim como sua versão original.
Restando duas novas composições: “Pathways” e “Sea of Marmara”. A primeira é mais uma aproximação ao jazz afro-cubano, através de temas sólidos e trocas de solo muito bem planejadas, incluindo nuances de avant-jazz, um imponente solo de baixo e espaço para que Smulyan e em especial Sipiagin brilhem. Grande momento sem dúvidas, só essa já libera grande parte do encanto do CD. Já “Sea of Marmara” nos traz um clima mais etéreo, guiado através dos tilintares misteriosos de Nelson, por onde trafegam os sopros de modo delicado e sutil.
Uma excelente gravação, que premia os fãs da discografia sólida de Holland, um dos gigantes do jazz atual.
Já em “Hands”, Dave vem anexar um interessante tempero ao já agradável flamenco de Pepe Habichuela (que também não é estranho ao jazz, tendo colaborado com Jaco Pastorious e Don Cherry).
O resultado dessa união é uma gravação deliciosa, amalgamando, como se imagina, a melancolia do fraseado de Habichuela a veia jazzística e imaginativa de Holland.
Ao longo da gravação podemos sentir influências latinas em viradas agitadas, repletas de swing, mudanças abruptas de compasso em um trabalho de baixo multiforme e cortante, algo da pompa do tango e passagens mais movimentadas com aproximações mais cruas de rumba. O disco ainda transborda os sentimentos dessas nuances tão ricas, tendo como resultado composições palatáveis que facilmente capturam o ouvinte.
“Hands” é um trabalho minucioso e envolvente, repleto de emoções diversas, unindo diferentes ritmos através de passagens imponentes que sobrepõem certo clima de introspecção e mistério. Belíssimo disco, para ser curtido do inicio ao fim.
Dois bons trabalhos, ainda bem acessíveis, em especial “Hands” que pode agradar mesmo aqueles que não estão acostumados ao jazz, até por seu maior ecletismo e o sentimentalismo cativante exacerbado, enquanto “Pathways” nos mostra mais uma grande contribuição ao jazz, através da experiência desse grande compositor e arranjador.
Mais uma vez, deixo minhas fortes recomendações e um alerta aos fãs de jazz desatentos (como eu) que andam perdendo muito do que vem sendo produzido com qualidade por aí.
No mais é isso, um excelente ano para todos e aguardem as novidades no blog para janeiro.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Destaques do Avant-rock em 2010
Esse ano ouvi algumas coisas novas, principalmente em relação ao “avant-prog”, entre elas um supergrupo interessante com a participação de ex-membros de vários atos de RIO, incluindo Univérs Zero e Stormy Six, o “Yugen”, em seu mais novo álbum “Iridule”.
A primeira vista parecia ser um grande trabalho, candidato a melhor do ano, mas quando executei a audição completa percebi que não passava de um divertido amalgama de várias boas influências. Só para citar algumas temos Gentle Giant, Frank Zappa, King Crimson, Mr. Bungle, Maudlin of the Well, Etron Fou Leloublan e o próprio Univérs Zero. No mais não é um disco que muito agrega a discografia, por apenas abordar conceitos previamente desenvolvidos, mas pode agradar pela excelente base para sua fusão.
Outro que muito me recomendaram, foi “Création de I´univers” do mais novo projeto do zeuhl, “Xing Sa”. Realmente a primeira audição me surpreendeu, mas após escutar de maneira mais cuidadosa percebi que o Xing Sa caminhava por mares similares ao Yugen. Só que dessa vez a base é o fusion de Jean-Luc Ponty, margeado por inserções de bossa nova e influências do Magma em sua fase menos caótica, novamente um disco razoável, mas, que pouco agrega em quesitos de experimentos sonoros.
Omar Rodríguez-López nos entregou 5 discos esse ano e infelizmente, nenhum deles me surpreendeu. Aparentemente ele não leva tão a sério sua carreira solo quanto os trabalhos com o Mars Volta, preocupando-se apenas em disponibilizar um pouco de seu ecletismo, o que já é bem legal. Em 2010 pudemos nos deparar com as baladas inconsistentes de “Ciencia de Los Inutiles”; a psicodelia eletrônica de “Tychozorente”, que tem uma capa bem legal, mas um conteúdo que se aproxima do trip hop de “Massive Attack” (também de disco novo); certa dose de experimentalismo sobre uma base pop e melodiosa, com ares latinos em “Un Escorpión Perfumado” (como sugere o título e a capa, esse disco é uma putaria só); e dois CDs um pouco mais interessantes: “Cizaña de Los Amores”, com algumas aproximações ao post-rock e o eventual rock psicodélico cheio de improvisos, menos caóticos por aqui e “Sepulcrus de Miel” com excelentes trabalhos de guitarra (John Frusciante participa do disco, se não estou enganado) por cima de uma base de fortes traços de space rock.
Tivemos também “Faust Is Last”, de Hans-Joachim Irmler, um dos discos mais pesados do Faust em seus senis experimentos eletrônicos quase insuportáveis, margeando também a música psicodélica e delirante de ambientes espectrais com aproximações aos antigos do Tangerine Dream.
O Univérs Zero (como já resenhado) por sua vez, lançou um bom disco, partindo de um foco de inspiração diferente com mais de Albert Huybrechts em suas composições, unidos a algo de John Zorn judeu (Masada) principalmente nas excelentes contribuições de Michel Berckmans.
E é nesse sujeito que queria chegar. John Zorn lançou esse ano, nada mais, nada menos do que 12 discos! 12, isso mesmo! Obviamente, não ouvi todos, mas até que tentei. De tudo que escutei, separei dois álbuns, um solo e outro com o Masada, para tornarem-se alvo de minhas resenhas, “Interzone” e “Ipos: The Book of Angels Volume 14”.
Para começar falemos do “Ipos...”, esse é um disco empolgante para dizer o mínimo. Primeiro trata da versão elétrica do Masada, armado de teclados vintage, vibrafone, linhas de baixo coesas e o claro o maior destaque, a guitarra extremamente voltada ao fusion, em temas e variações açucaradas, solos viajantes em direção a ambientes paradisíacos (as bases jazzísticas são espetaculares como sempre). Então esse é sim, um disco de guitarras!
É isso aí, meus caros, Zorn brinda a nós amantes do instrumento com arranjos incomuns por onde a imaginativa guitarra de Marc Ribot trafega livremente. Mas é muito mais do que isso, podemos sentir o aproveitamento atraente da fusão jazz e klezmer, através de um delicado setor rítmico, com as boas inserções do vibrafone e linhas de baixo introspectivas e bem cadenciadas, cortesia de nosso caro Trevor Dunn ex-Bungle, que vem acompanhando Zorn há algum tempo.
E para falar desse estranho “fusion”, não consigo apontar outra similaridade senão o próprio Carlos Santana, que emerge imponente por essa gravação. Sim, é um disco de guitarras influenciado por nosso querido (eu realmente gosto de seu trabalho) “velho chapado”. Será que ainda estamos falando de Zorn?
Um disco cativante, em suas atmosferas serenas e as aproximações dos instrumentos solo por cima das sutilezas dos teclados e do setor rítmico que quase não se fazem notar.
Não farei uma análise faixa-a-faixa, pois prefiro que deixem transcorrer através de seus ouvidos o sentimento por aqui impresso nesse “Livro dos Anjos”. Grande trabalho, em especial para os fãs de jazz-fusion em suas belas nuances que pairam no ar, através de ambientes melancólicos de raríssima beleza. Gravação singular que merece ser ouvida e sentida.
E para fechar, gostaria de dizer que “Interzone” foi o melhor CD de avant-rock que ouvi esse ano, é simplesmente uma obra visceral que deixará qualquer fã da música experimental de joelhos.
Interzone foi o tributo de Zorn a Willian Burroughs (escritor da geração “Beat” que originaria o movimento “hippie”) que como o próprio afirma, muito influenciou sua musicalidade.
Agora sobre o CD. Não sei por onde começar. Caindo no lugar comum, esse é um disco inteligente. Mas, muito inteligente e completo. Formado por três longas faixas que abrangem a World Music, punk-jazz, sandices hardcore, experimentos eletrônicos, noise, um pouco dos clássicos contemporâneos, algumas doses de free jazz, assim como suas variantes mais tradicionais. Transcorre por tais variados gêneros sendo extremamente agressivo em momentos e em outros agradável e plausível, alternando experimentalismo e melodias mais acessíveis, sempre numa dinâmica impecável e madura que facilmente supera qualquer ato relacionado.
A primeira faixa inicia-se num ambiente desconfortável por onde são escalados os tilintares da percussão em suas multifaces, por cima de gemidos abafados antes de cairmos no caos de uma feira (?) no Oriente Médio provavelmente, seguida de pesados experimentos nos timbres de guitarra e baixo, por onde a bateria avança avassaladora em suas viradas cortantes. A seguir uma atmosfera espectral e pacifica é desenvolvida, com seus ares de mistério entoados pelos devaneios do estranho sopro ao fundo (comparação descabida, mas me lembra à segunda parte de “Moonchild” do King Crimson).
Provavelmente nesses pontos Zorn tenta reproduzir a atmosfera lisérgica empregada por Burroughs em seus contos. Em suas variantes profundas, o disco fluí de modo ímpar, sem tornar-se deveras carregado, levando o ouvinte por diferentes cenários que tangem instrumentações variadas e muito bem aproveitadas, como nas notas esquizofrênicas do piano acompanha de leves zumbidos paranóicos que invadem sem concessão a mente do ouvinte.
Logo mais a frente improvisos de free jazz, guiados pelo trio de bateria, baixo e sax. Sim, o caótico sax de Zorn, que tange de Ornette Coleman a Etron Fou Leloublan para atingir seu incrível grau de criatividade e originalidade. Depois o sax é substituído por teclas, não menos destrutivas, que repetem esse sentimento de paranóia e perseguição que assola a gravação.
A segunda faixa, “Interzone 2” é ainda melhor, através de novos ambientes, cortes ainda mais agressivos, retornando a alguns conceitos da primeira parte e adentrando-se a cenários que lembrariam ficção - cientifica (é também um disco muito visual, que causa diversas impressões em que ouve com atenção).
Por aqui podemos nos deparar com ambientes de cortantes experimentos eletrônicos, inclusive na escolha dos timbres e boas inserções de jazz-fusion, em texturas interessantes que margeiam solos ilimitados e imaginativos (em trechos podemos observar uma Jam Session realmente) antes nos depararmos com cenas de agonia claustrofóbica.
E apesar de tudo isso, ainda consegue ser um disco relativamente acessível. Meu deus, o que esse cara está falando? Experimentos eletrônicos, free jazz, punk, sandices experimentais e ainda quer dizer que é um disco acessível? Sim, para quem já passou por Frank Zappa, King Crimson, RIO, pela Cena de Canterbury e outros movimentos de caráter experimental, Zorn faz um álbum polido (claro, com alguns momentos bem crus para balancear a mistura) dentro das fronteiras do febril.
Extremamente recomendado, um presente desse fantástico compositor a quem se atreve a navegar pelos mares densos de sua sonoridade.
Após algumas reflexões, concluo que esse foi o melhor disco de 2010, dentro de meus parâmetros tortos, uma gravação que muito me agradou.
A primeira vista parecia ser um grande trabalho, candidato a melhor do ano, mas quando executei a audição completa percebi que não passava de um divertido amalgama de várias boas influências. Só para citar algumas temos Gentle Giant, Frank Zappa, King Crimson, Mr. Bungle, Maudlin of the Well, Etron Fou Leloublan e o próprio Univérs Zero. No mais não é um disco que muito agrega a discografia, por apenas abordar conceitos previamente desenvolvidos, mas pode agradar pela excelente base para sua fusão.
Outro que muito me recomendaram, foi “Création de I´univers” do mais novo projeto do zeuhl, “Xing Sa”. Realmente a primeira audição me surpreendeu, mas após escutar de maneira mais cuidadosa percebi que o Xing Sa caminhava por mares similares ao Yugen. Só que dessa vez a base é o fusion de Jean-Luc Ponty, margeado por inserções de bossa nova e influências do Magma em sua fase menos caótica, novamente um disco razoável, mas, que pouco agrega em quesitos de experimentos sonoros.
Omar Rodríguez-López nos entregou 5 discos esse ano e infelizmente, nenhum deles me surpreendeu. Aparentemente ele não leva tão a sério sua carreira solo quanto os trabalhos com o Mars Volta, preocupando-se apenas em disponibilizar um pouco de seu ecletismo, o que já é bem legal. Em 2010 pudemos nos deparar com as baladas inconsistentes de “Ciencia de Los Inutiles”; a psicodelia eletrônica de “Tychozorente”, que tem uma capa bem legal, mas um conteúdo que se aproxima do trip hop de “Massive Attack” (também de disco novo); certa dose de experimentalismo sobre uma base pop e melodiosa, com ares latinos em “Un Escorpión Perfumado” (como sugere o título e a capa, esse disco é uma putaria só); e dois CDs um pouco mais interessantes: “Cizaña de Los Amores”, com algumas aproximações ao post-rock e o eventual rock psicodélico cheio de improvisos, menos caóticos por aqui e “Sepulcrus de Miel” com excelentes trabalhos de guitarra (John Frusciante participa do disco, se não estou enganado) por cima de uma base de fortes traços de space rock.Tivemos também “Faust Is Last”, de Hans-Joachim Irmler, um dos discos mais pesados do Faust em seus senis experimentos eletrônicos quase insuportáveis, margeando também a música psicodélica e delirante de ambientes espectrais com aproximações aos antigos do Tangerine Dream.
O Univérs Zero (como já resenhado) por sua vez, lançou um bom disco, partindo de um foco de inspiração diferente com mais de Albert Huybrechts em suas composições, unidos a algo de John Zorn judeu (Masada) principalmente nas excelentes contribuições de Michel Berckmans.
E é nesse sujeito que queria chegar. John Zorn lançou esse ano, nada mais, nada menos do que 12 discos! 12, isso mesmo! Obviamente, não ouvi todos, mas até que tentei. De tudo que escutei, separei dois álbuns, um solo e outro com o Masada, para tornarem-se alvo de minhas resenhas, “Interzone” e “Ipos: The Book of Angels Volume 14”.
Para começar falemos do “Ipos...”, esse é um disco empolgante para dizer o mínimo. Primeiro trata da versão elétrica do Masada, armado de teclados vintage, vibrafone, linhas de baixo coesas e o claro o maior destaque, a guitarra extremamente voltada ao fusion, em temas e variações açucaradas, solos viajantes em direção a ambientes paradisíacos (as bases jazzísticas são espetaculares como sempre). Então esse é sim, um disco de guitarras!É isso aí, meus caros, Zorn brinda a nós amantes do instrumento com arranjos incomuns por onde a imaginativa guitarra de Marc Ribot trafega livremente. Mas é muito mais do que isso, podemos sentir o aproveitamento atraente da fusão jazz e klezmer, através de um delicado setor rítmico, com as boas inserções do vibrafone e linhas de baixo introspectivas e bem cadenciadas, cortesia de nosso caro Trevor Dunn ex-Bungle, que vem acompanhando Zorn há algum tempo.
E para falar desse estranho “fusion”, não consigo apontar outra similaridade senão o próprio Carlos Santana, que emerge imponente por essa gravação. Sim, é um disco de guitarras influenciado por nosso querido (eu realmente gosto de seu trabalho) “velho chapado”. Será que ainda estamos falando de Zorn?
Um disco cativante, em suas atmosferas serenas e as aproximações dos instrumentos solo por cima das sutilezas dos teclados e do setor rítmico que quase não se fazem notar.
Não farei uma análise faixa-a-faixa, pois prefiro que deixem transcorrer através de seus ouvidos o sentimento por aqui impresso nesse “Livro dos Anjos”. Grande trabalho, em especial para os fãs de jazz-fusion em suas belas nuances que pairam no ar, através de ambientes melancólicos de raríssima beleza. Gravação singular que merece ser ouvida e sentida.
E para fechar, gostaria de dizer que “Interzone” foi o melhor CD de avant-rock que ouvi esse ano, é simplesmente uma obra visceral que deixará qualquer fã da música experimental de joelhos.
Interzone foi o tributo de Zorn a Willian Burroughs (escritor da geração “Beat” que originaria o movimento “hippie”) que como o próprio afirma, muito influenciou sua musicalidade.
Agora sobre o CD. Não sei por onde começar. Caindo no lugar comum, esse é um disco inteligente. Mas, muito inteligente e completo. Formado por três longas faixas que abrangem a World Music, punk-jazz, sandices hardcore, experimentos eletrônicos, noise, um pouco dos clássicos contemporâneos, algumas doses de free jazz, assim como suas variantes mais tradicionais. Transcorre por tais variados gêneros sendo extremamente agressivo em momentos e em outros agradável e plausível, alternando experimentalismo e melodias mais acessíveis, sempre numa dinâmica impecável e madura que facilmente supera qualquer ato relacionado.
A primeira faixa inicia-se num ambiente desconfortável por onde são escalados os tilintares da percussão em suas multifaces, por cima de gemidos abafados antes de cairmos no caos de uma feira (?) no Oriente Médio provavelmente, seguida de pesados experimentos nos timbres de guitarra e baixo, por onde a bateria avança avassaladora em suas viradas cortantes. A seguir uma atmosfera espectral e pacifica é desenvolvida, com seus ares de mistério entoados pelos devaneios do estranho sopro ao fundo (comparação descabida, mas me lembra à segunda parte de “Moonchild” do King Crimson).
Provavelmente nesses pontos Zorn tenta reproduzir a atmosfera lisérgica empregada por Burroughs em seus contos. Em suas variantes profundas, o disco fluí de modo ímpar, sem tornar-se deveras carregado, levando o ouvinte por diferentes cenários que tangem instrumentações variadas e muito bem aproveitadas, como nas notas esquizofrênicas do piano acompanha de leves zumbidos paranóicos que invadem sem concessão a mente do ouvinte.
Logo mais a frente improvisos de free jazz, guiados pelo trio de bateria, baixo e sax. Sim, o caótico sax de Zorn, que tange de Ornette Coleman a Etron Fou Leloublan para atingir seu incrível grau de criatividade e originalidade. Depois o sax é substituído por teclas, não menos destrutivas, que repetem esse sentimento de paranóia e perseguição que assola a gravação.

A segunda faixa, “Interzone 2” é ainda melhor, através de novos ambientes, cortes ainda mais agressivos, retornando a alguns conceitos da primeira parte e adentrando-se a cenários que lembrariam ficção - cientifica (é também um disco muito visual, que causa diversas impressões em que ouve com atenção).
Por aqui podemos nos deparar com ambientes de cortantes experimentos eletrônicos, inclusive na escolha dos timbres e boas inserções de jazz-fusion, em texturas interessantes que margeiam solos ilimitados e imaginativos (em trechos podemos observar uma Jam Session realmente) antes nos depararmos com cenas de agonia claustrofóbica.
E apesar de tudo isso, ainda consegue ser um disco relativamente acessível. Meu deus, o que esse cara está falando? Experimentos eletrônicos, free jazz, punk, sandices experimentais e ainda quer dizer que é um disco acessível? Sim, para quem já passou por Frank Zappa, King Crimson, RIO, pela Cena de Canterbury e outros movimentos de caráter experimental, Zorn faz um álbum polido (claro, com alguns momentos bem crus para balancear a mistura) dentro das fronteiras do febril.
Extremamente recomendado, um presente desse fantástico compositor a quem se atreve a navegar pelos mares densos de sua sonoridade.
Após algumas reflexões, concluo que esse foi o melhor disco de 2010, dentro de meus parâmetros tortos, uma gravação que muito me agradou.
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Feliz Natal
Esse blog deseja a todos um feliz natal!
Tirarei uns diazinhos de folga das postagens, volto na terça,
Até lá
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Stick Men
“Stick Men” é o mais recente projeto dos “filhos” de Robert Fripp, tendo em sua formação Tony Levin, Pat Mastelotto e Michael Bernier (Chapman Stick, bateria e vocais). Na abstinência do Crimson, vemos surgir alguns trabalhos interessantes e esse não decepciona.
O que temos aqui é o aproveitamento total do stick, através das hábeis mãos de Levin e Bernier, criando composições extremamente técnicas com aquele sabor Crimsoniano pós-Thrak, através de melodias incomuns com alguns toques mais “funky” (cortesia de Levin).
O resultado é um excelente disco (meu preferido do ano), recheado de boas composições, mas sem a dose de experimentalismo radical a qual nos acostumamos, seguindo uma fórmula que vem sendo explorada há algum tempo e consequentemente, desenvolvida a perfeição nesse espaço. Ainda é simplesmente fantástico ouvir todos os variados sons extraídos dos sticks, através das diferentes técnicas empregadas pelos instrumentistas.
Não é uma sonoridade tão desafiadora quanto os extremos atingidos por projetos anteriores, até alguns recentes, como o KTU (principalmente em 8 Armed Monkey), mas ainda sim pode agradar facilmente os fãs das revoluções sonoras propostas pelo Crimson ao longo dos anos, numa atual fase polida e bem estruturada. Talvez o pior momento do disco se encontre justamente quanto tentam ultrapassar seus limites, em sua versão da “Firebird Suíte” de Igor Stravinsky.
Apesar disso, é uma gravação que transcorre bem aos ouvidos, disco sólido que alterna boas passagens instrumentais que ainda têm seu charme.
O disco se abre com a febril “Soup”, em vocais a lá “Discipline” sobre uma pesada estrutura que muito tem do King Crimson. Mas, o destaque de modo geral vai para as esquisitices da faixa que rondam uma versão torta de “rap”, enquanto em outro momento a composição é transbordada por efeitos eletrônicos desproporcionais e bons solos cáusticos como não poderiam faltar.
A seguir vem a suíte “Hands”, num dos melhores momentos do CD. O que dizer dessa música?
A avalanche de técnica que transborda as melodias intrincadas e esquizóides, que variam em velocidade absurda, através de mudanças de compasso bruscas que constantemente retiram o ouvinte de sua zona de conforto, em razão de suas imprevisíveis metamorfoses. Uma completa viagem sonora por entre os mares das distorcidas composições do trio, despejando temas potentes, aliados a interlúdios senis e solos lacerantes, tornando-se impossível indicar qual das três partes é a melhor.
“Inside the Red Pyramid” nos traz espectrais efeitos atmosféricos ao fundo, com certo sabor oriental, por onde trafega a condensada linha de baixo, antes do surgimento do arrasador riff executado por Bernier (que faz, como se pode supor, as partes de guitarra no Stick). Uma das minhas favoritas.
Em “Fugue” nos encontramos mais uma vez com a técnica avassaladora dos músicos, numa estrutura bem definida por onde trafega o excelente fraseado da guitarra em contraste constante com a fantástica linha tracejada por Levin. Ao seu final um interlúdio mais suave, com alguns toques jazzy, curioso.
“Sasquatch” é uma das faixas mais “progressivas” do disco, repleta de detalhes sutis, fortíssimo trabalho das partes de guitarra, em seus riffs limpos e abertos e excelente presença do setor rítmico, criando ambientes instigantes, mas ainda sim extremamente agradáveis, enquanto o interlúdio nos carrega a esquizofrenia tradicional. Uma das melhores da gravação.
Conseguimos sentir outro estranho momento em “Scarlet Wheel” que surpreende por seu arranjo cristalino que impõe grande clima de paz (uma real sensação “New Age”), com leves ecos por onde surge a paixão vocal que lembra um pouco John Wetton, aderindo ainda um toque da música oriental mais acentuado, propagando a vastidão da faixa. Mais a frente ainda há espaço para a aproximação funky do stick. Muito diferente do que se poderia esperar, mas ainda sim um bom momento, contribuindo para o ecletismo do disco que sem dúvida não fica preso a um único ponto de inspiração.
Então nos surge o momento problemático. Se por um lado o trio foi muito corajoso, apenas em pensar na possibilidade de regravar um estandarte de Stravinsky, por outro pecaram pelos excessos. Em sua versão de “Firebird Suíte”, através da ótica paranóica de arranjos atípicos, acaba “desvirtuando” uma das maiores composições da história recente. É claro que tem lá seus bons momentos, alguns até bem interessantes, pelo modo como certos recursos são explorados para criar uma releitura extremamente sombria e distorcida. Alguns fãs podem gostar, mas...
Para fechar “Relentless” uma verdadeira pedrada, através de temas ágeis e agressivos, percorrendo a excelente performance de Mastelotto, que mostra-se um dos maiores destaques da gravação, em um de seus melhores momentos. Após os 2:30, um delicado interlúdio enquanto o Chapman é tocado com o arco para criar o clima introspectivo ao redor, antes de retornarmos a energia dos improvisos ácidos sobre o tema principal. Muito peso e sandices, antes de terminar o disco em grande estilo.
Como disse, gostei do CD, que no geral possui apenas bons momentos, apesar da Firebird Suíte, talvez um pouco de purismo da minha parte? Não sei, mas essa versão não me pareceu condizente a grandiosidade da composição.
Esquecendo esse detalhe de quase quinze minutos, “Soup” é um disco muito interessante que vale pelo conteúdo de suas composições que não se atém apenas a temática do King Crimson e pelo abuso técnico imposto para criar camadas instrumentais impressionantes. Vale conferir esse e ficar no aguardo de futuros lançamentos.
O que temos aqui é o aproveitamento total do stick, através das hábeis mãos de Levin e Bernier, criando composições extremamente técnicas com aquele sabor Crimsoniano pós-Thrak, através de melodias incomuns com alguns toques mais “funky” (cortesia de Levin).
O resultado é um excelente disco (meu preferido do ano), recheado de boas composições, mas sem a dose de experimentalismo radical a qual nos acostumamos, seguindo uma fórmula que vem sendo explorada há algum tempo e consequentemente, desenvolvida a perfeição nesse espaço. Ainda é simplesmente fantástico ouvir todos os variados sons extraídos dos sticks, através das diferentes técnicas empregadas pelos instrumentistas.
Não é uma sonoridade tão desafiadora quanto os extremos atingidos por projetos anteriores, até alguns recentes, como o KTU (principalmente em 8 Armed Monkey), mas ainda sim pode agradar facilmente os fãs das revoluções sonoras propostas pelo Crimson ao longo dos anos, numa atual fase polida e bem estruturada. Talvez o pior momento do disco se encontre justamente quanto tentam ultrapassar seus limites, em sua versão da “Firebird Suíte” de Igor Stravinsky.
Apesar disso, é uma gravação que transcorre bem aos ouvidos, disco sólido que alterna boas passagens instrumentais que ainda têm seu charme.
O disco se abre com a febril “Soup”, em vocais a lá “Discipline” sobre uma pesada estrutura que muito tem do King Crimson. Mas, o destaque de modo geral vai para as esquisitices da faixa que rondam uma versão torta de “rap”, enquanto em outro momento a composição é transbordada por efeitos eletrônicos desproporcionais e bons solos cáusticos como não poderiam faltar.
A seguir vem a suíte “Hands”, num dos melhores momentos do CD. O que dizer dessa música?
A avalanche de técnica que transborda as melodias intrincadas e esquizóides, que variam em velocidade absurda, através de mudanças de compasso bruscas que constantemente retiram o ouvinte de sua zona de conforto, em razão de suas imprevisíveis metamorfoses. Uma completa viagem sonora por entre os mares das distorcidas composições do trio, despejando temas potentes, aliados a interlúdios senis e solos lacerantes, tornando-se impossível indicar qual das três partes é a melhor.
“Inside the Red Pyramid” nos traz espectrais efeitos atmosféricos ao fundo, com certo sabor oriental, por onde trafega a condensada linha de baixo, antes do surgimento do arrasador riff executado por Bernier (que faz, como se pode supor, as partes de guitarra no Stick). Uma das minhas favoritas.
Em “Fugue” nos encontramos mais uma vez com a técnica avassaladora dos músicos, numa estrutura bem definida por onde trafega o excelente fraseado da guitarra em contraste constante com a fantástica linha tracejada por Levin. Ao seu final um interlúdio mais suave, com alguns toques jazzy, curioso.
“Sasquatch” é uma das faixas mais “progressivas” do disco, repleta de detalhes sutis, fortíssimo trabalho das partes de guitarra, em seus riffs limpos e abertos e excelente presença do setor rítmico, criando ambientes instigantes, mas ainda sim extremamente agradáveis, enquanto o interlúdio nos carrega a esquizofrenia tradicional. Uma das melhores da gravação.
Conseguimos sentir outro estranho momento em “Scarlet Wheel” que surpreende por seu arranjo cristalino que impõe grande clima de paz (uma real sensação “New Age”), com leves ecos por onde surge a paixão vocal que lembra um pouco John Wetton, aderindo ainda um toque da música oriental mais acentuado, propagando a vastidão da faixa. Mais a frente ainda há espaço para a aproximação funky do stick. Muito diferente do que se poderia esperar, mas ainda sim um bom momento, contribuindo para o ecletismo do disco que sem dúvida não fica preso a um único ponto de inspiração.
Então nos surge o momento problemático. Se por um lado o trio foi muito corajoso, apenas em pensar na possibilidade de regravar um estandarte de Stravinsky, por outro pecaram pelos excessos. Em sua versão de “Firebird Suíte”, através da ótica paranóica de arranjos atípicos, acaba “desvirtuando” uma das maiores composições da história recente. É claro que tem lá seus bons momentos, alguns até bem interessantes, pelo modo como certos recursos são explorados para criar uma releitura extremamente sombria e distorcida. Alguns fãs podem gostar, mas...
Para fechar “Relentless” uma verdadeira pedrada, através de temas ágeis e agressivos, percorrendo a excelente performance de Mastelotto, que mostra-se um dos maiores destaques da gravação, em um de seus melhores momentos. Após os 2:30, um delicado interlúdio enquanto o Chapman é tocado com o arco para criar o clima introspectivo ao redor, antes de retornarmos a energia dos improvisos ácidos sobre o tema principal. Muito peso e sandices, antes de terminar o disco em grande estilo.
Como disse, gostei do CD, que no geral possui apenas bons momentos, apesar da Firebird Suíte, talvez um pouco de purismo da minha parte? Não sei, mas essa versão não me pareceu condizente a grandiosidade da composição.
Esquecendo esse detalhe de quase quinze minutos, “Soup” é um disco muito interessante que vale pelo conteúdo de suas composições que não se atém apenas a temática do King Crimson e pelo abuso técnico imposto para criar camadas instrumentais impressionantes. Vale conferir esse e ficar no aguardo de futuros lançamentos.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Captain Beefheart
Este blog não poderia ficar calado diante do ocorrido da última sexta-feira, dia 17, quando o controverso Don Van Vliet, o Captain Beefheart, morreu em decorrência da esclerose múltipla com qual convivia desde os anos 90.Para homenagear esse grande ícone subversor, preparei esse post especial com um pouco de sua história e carreira, atravessando as resenhas costumeiras.
Captain Beefheart tornou-se conhecido por sua sonoridade intrincada e delirante, de letras surreais e insólitas, arranjos esquizofrênicos e por suas participações espectrais em trabalhos de seu parceiro e amigo Frank Zappa.
Mais tarde, abandonaria os palcos e as experimentações sonoras que moldaram mentes de gerações de músicos, para desenvolver sua pintura não menos desafiadora e expressiva.
Mas, antes do ícone, sempre há um homem e esse deu os primeiros passos de sua vida no deserto de Mojave, nos Estados Unidos. Ainda muito jovem, foi considerado um menino prodígio por suas habilidades com a escultura, o que poderia indicar a um mais novo Mozart... E até poderia ser, se não tivesse encontrado o rapaz asmático e frágil, um tal de Frank Zappa.
Praticamente juntos, descobriram o interesse pela música, mas enquanto Zappa enveredava-se para compositores eruditos como Webern, Varèse e Stravinsky, Don descobria o blues de Muddy Waters, Howlin´Wolf (que muito lhe influenciaria na parte vocal) e pelo jazz de Thelonious Monk e Ornette Coleman.
Mais ou menos nesse período, em parceria com Zappa, escreveu o roteiro de um filme “Captain Beefheart VS the Grunt People”, de onde partiria seu nome artístico, pelo qual seria conhecido pelo resto da vida.
Já em Rancho Cucamonga (também na Califórnia), reencontrou-se com o Frank que o incentivou a entrar para o ramo da música, para o bem de todos nós. Nesse período provou seu incrível alcance vocal emulando Howlin´Wolf.
Algum tempo depois, se uniu a primeira encarnação de sua “Magic Band”, que só conseguiria um contrato com a Buddah Records, após a rejeição da A&M.
O primeiro disco foi lançado em 1967, após muito trabalho duro, enquanto o Capitão já dava sinais de sua personalidade difícil.
“Safe as Milk” já se mostrava um disco extremamente tentador. Se por um lado podemos sentir muito das
influências do blues, por outro vemos que Don conseguiu conciliar um encontro interessante com o acid rock, folk, doo wop, através de seus vocais únicos e incisivos que se fazem presentes por todo o disco. O resultado é uma audição divertida, que sobressai a “quadradice” do blues tradicional, através de mudanças rítmicas cortantes, passagens insanas e até um pouco perturbadoras como na espetacular “Dropout Boogie”, em seu timbre sujo de guitarra e o vocal quase gutural de Don que se alterna a pontes cínicas e descontraídas. Há ainda a distorção árida de “Electricity” que parece desfazer-se ante os ouvidos com seus efeitos diabólicos de theremin.
No ano seguinte viria “Strictly Personal” que pode ser visto como um álbum de transição de suas fortes raízes no blues para o experimentalismo sobre free jazz que viria a seguir. Por aqui podemos encontrar alguns bons trabalhos de guitarra e gaita (em alguns dos melhores momentos do Capitão), letras ácidas com algumas interpretações terríveis, incluindo “Beatle Bones 'N' Smokin' Stones” uma provocação aos principais representantes do rock no período. Interessante é notar que John Lennon e Paul McCartney declararam gostar do primeiro trabalho de Captain que sempre foi muito crítico a banda. Talvez seja esse um de seus melhores momentos, mas ressaltaria ainda “Trust Us”, imersa numa atmosfera agonizante, recheada de temas esquizóides, sandices vocais, temas de guitarra pontilhados e fantásticas linhas de baixo em contraste.Mas, foi em 69 que surgiu sua “magnun-opus”, “Trout Mask Replica”. Para produzir essa maravilha da música mundial, Capitão impôs uma rotina de lavagem cerebral e situações que margeavam a tortura, trancafiando seus músicos numa casa durante quase um mês de subsistência. Essa exploração levou os músicos a seus limites físicos e mentais. Apesar de seus métodos extremamente questionáveis, Don atingiu o ápice do experimentalismo e de sua musicalidade extremamente complexa.
O blues foi esquecido. Logo na primeira faixa “Frownland” sentimos a intensidade do que está por vir, quando todos os instrumentos traçam suas linhas em tempos diferentes, causando um efeito inigualável, mas extremamente bem executado, sendo perceptível o esmero em cada uma das linhas, ressaltando o fantástico trabalho de bateria.
De modo geral, o disco está cheio de experimentalismos sonoros, aproximações com o free jazz principalmente nas performances barulhentas e condensadas do sax e do clarinete-baixo, contribuindo para pandemônios muito bem estruturados. O uso heterodoxo e muito bem elaborado de todos os instrumentos, seja nos timbres mutilados da guitarra, a bateria polirrítmica que lidera as mais obtusas mudanças de compasso, o baixo ávido e consistente até os mais incongruentes ruídos, monta uma sonoridade instigante que captura o ouvinte em suas viagens transcendentais que só se equiparam ao alcance vocal de Beefheart que evoca desde nodosos balbuciares guturais até o mais perturbador falsete.
Algo que precisa ser ouvido, em minha torta concepção, um dos dez melhores discos de todos os tempos.
O que viria a seguir “Lick My Decals Off, Baby” visa manter o mesmo nível de experimentalismo, mas numa gravação mais equilibrada, povoado por menos excessos compositivos. Talvez por isso não supere, “Trout Mask Replica”, pois o conteúdo de suas composições é quase tão forte quanto.
Em 71, foi lançado “Mirror Man” que reúne gravações realizadas entre 67-68, em outro disco fenomenal. Completamente “free”, Mirror Man nos mostra Capitão e sua banda dando significados profundos ao conceito de “Jam”, através de meditações instrumentais ilimitadas que fluem com perspicácia, sob o comando desse maestro do absurdo.
Os álbuns que viriam a seguir “The Spotlight Kid” e “Clear Spot”, ambos de 72, mostram uma sonoridade mais refinada, coerente e plausível. Apesar disso mantém a qualidade esperada, unindo um pouco do que havia sido feito anteriormente a novos recursos, um pouco menos “radicais”. Talvez não sejam tão influentes quanto seus antecessores, mas facilmente servem de porta de entrada a sua sonoridade.
Os problemas viriam a seguir, Capitão resolveu reformular sua banda, contratando novos músicos não-familiarizados com sua sonoridade. Como resultado, obtivemos dois discos fracos se comparados a imponente discografia que se apresentou até aqui. “Bluejean & Moonbeams” e “Unconditionally Guaranteed” foram considerados pelo próprio Don como discos “horríveis e vulgares”, instigando aos fãs a pedirem o reembolso. Não é para tanto, mas muito ficam a dever a seus antecessores.
No ano seguinte, gravaria um disco em parceria com Zappa, “Bongo Fury”, de onde sairia “Muffin Man”, unindo influências do blues anterior do Capitão ao rock contrastante de Frank, o resultado é um bom disco que faz jus a ambas as discografias.
Don voltaria a gravar em 78, com “Shiny Beast (Bat Chain Puller)”. Voltaria aos seus experimentalismos sonoros em doses relevantes, através de uma sonoridade mais polida (até um pouco progressiva) que em momentos apontaria a fase de “Clear Spot”, ainda sim, o disco possui seu charme em suas insanidades disfarçadas.Ainda lançaria mais dois álbuns seguindo linha similar “Doc at Radar Station” e “Ice Cream for Crow” antes de resolver debandar-se para a pintura. São bons discos sem dúvida, mantendo o nível de sua respeitosa discografia.
Construiu então uma respeitada carreira como pintor durante os anos 80, ganhando até um bom dinheiro com suas pinturas (por sorte não inventaram um equivalente a “MTV” para as artes visuais, hehe). Fazendo uma rápida leitura de suas obras (afinal, meu gosto pela arte não se resume a música), conseguimos visualizar uma tendência ao neo-primitivo (resgatando a pintura rupestre), com inserções expressionistas em cenários pesados, abusando de cores agressivas em contornos febris apenas sugestivos. Como uma possível interpretação poderíamos falar sobre essa animalização do ser humano, em contraste com seu ego, evidenciando através da perspectiva expressionista algumas de suas piores facetas, uma combinação interessantíssima.
É claro, que não sou crítico de arte (nem de música e muito menos de pintura), então a porcentagem de estar falando abobrinha é bem grande, assim como todo o conteúdo do blog.
Nos anos 90, foi obrigado a reduzir gradativamente suas atividades devido à esclerose múltipla, cujas complicações que viria a lhe tirar a vida, como já mencionado no início da postagem.
Captain Beefheart foi uma personalidade controversa, exibindo alguns dos piores lados do ser humano, através de suas letras cáusticas e de seus métodos muito questionáveis, atirando-nos todo um experimentalismo que subverteu as estruturas sonoras do período vigente, ainda de Beatles e Rolling Stones. Mesclando blues, um free jazz bélico, música concreta, influências de Steve Reich, Karlheinz Stockenhausen e Edgar Varèse, Don Van Vliet tornou-se um ícone da música popular avant-garde, influenciando uma lista infindável de músicos que atravessa cenas de Krautrock, Rock In Opposition, até bandas mais recentes de Nirvana e Radiohead passando por Franz Ferdinand, John Zorn, John Frusciante, The Mars Volta (vale ver alguns trabalhos solo de Omar Rodriguez López), Mike Patton e a lista cresce, sem esquecer-se de alguns ícones dos anos 80 como Pixies e Talking Heads, notando-se um pouco de sua postura no punk e New Wave do período.
Don foi um dos caras mais “hardcore” da história, deixando sua marca tanto na música quanto na pintura, sendo um dos artistas mais importantes da segunda metade do século passado.
Para finalizar esse post, lhes deixo algumas de suas pinturas a quem interessar.
Boat and Blue Bodagress
Curve in the Dirt
Tiger Boat
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
In The Wake Of Evolution (2010) - Kaipa
Após um breve hiato, em razão de um Cruzeiro Marítimo, volto a postar sobre os bons álbuns que nos foram entregues neste ano.
“In the Wake of Evolution” foi um dos discos mais comentados dentro da esfera do rock progressivo e isso é facilmente justificável por seu conteúdo rico de deixar qualquer fã do estilo babando.
Mas, antes de falar desse grande lançamento, viajemos até os primeiros anos da existência da banda que nos presenteou com três bons discos, também muito bem recebidos: “Kaipa”, “Inget Nytt Under Solen” e “Solo”. Todos datados da segunda metade dos anos 70, por onde choviam as mais variadas influências, que podem ser facilmente sentidas na divertida massa sonora desses trabalhos. Por ali podíamos encontrar desde Focus, principalmente no trabalho da guitarra, a Uriah Heep muito presente nos vocais e no órgão, além de muito do Yes, em especial pelo proeminente baixo.
Nos anos 80, dois álbuns fracos, com algo de Abba, enfim nada que vale a pena comentar.
Em 1990, o Kaipa retornou brevemente com o line-up original, lançando um disco interessante “Stockholm Symphonie”, resgatando a sonoridade dos anos 70, com doses maciças de Focus.
E então vieram os anos 2000, quando todo o rock progressivo passou por reformulações, voltando a ser uma força considerável dentro da música do mundo. Dentro desse contexto, a cena nórdica foi uma das que mais se sobressaiu, a partir dos anos 90 com bandas como “Hoyre Kone”, “Anglagard” e em seguida com grupos como “Beardfish”, “Anekdoten”, “White Willow”, “The Flower Kings” e por aí vai (aliás, esse é um tema que devo falar em um momento futuro).
Aproveitando o clima favorável, o Kaipa ressurgiu com dois de seus membros originais, Hans Lundin (teclados) e Roine Solt (guitarras), gravando o disco “Notes From The Past”. Esse nos traz muito dos primeiros trabalhos do “Flower Kings”, também integrada por Solt.
Admito que saltei os discos seguintes, ouvindo somente o atual “In the Wake of Evolution”, alvo dessa resenha.
Agora sim, falando sobre o disco. Primeiramente, Roine Solt não contribuiu com o disco, portanto o foco compositivo recaiu quase completamente sobre Lundin, que nos traz um pouco se sua sensibilidade musical e a destreza de seus arranjos que resumem o que é o progressivo sinfônico de hoje.
O que vemos por aqui é a impecável performance instrumental, que se encaixa de modo curioso aos vocais alternados de Patrik Lundström e Aleena Gibson, que moldam contrastes bem originais.
Podemos sentir certa base no folk sueco, até pelo modo como suas alegóricas composições são estruturadas, algo que aparentemente se intensificou após a saída de Solt.
Os diálogos entre guitarra e teclado são afiadíssimos, enquanto Per Nilsson consegue suprir bem o vácuo deixado por Roine. Grande destaque também merece o baixo, muito bem trabalhado, sem grandes excessos.
A bateria também não faz feio, e transborda em alguns momentos do cd em viradas poderosas, guiando as frequentes mudanças de compasso, que podem ser vistas como tendência do prog sinfônico de hoje (vide Spock´s Beard e o próprio Flower Kings).
Ainda se pode sentir influências de Yes nas inserções do órgão e no setor rítmico e do Genesis nas guitarras principalmente, assim como nas “baladas progressivas”.
Tudo isso já pode ser visto na faixa título “In The Wake of Evolution”, que inicia-se numa potente seção instrumental em suas variações ágeis e exuberantes, numa dinâmica cativante, antes de cair em passagem mais suave, por onde percorrem os vocais femininos. Particularmente gosto da combinação vocal, no entanto esse pode ser visto como o ponto mais problemático dessa gravação, pois ainda sim soa inconsistentes se comparados a suntuosa atuação instrumental. Os solos são fenomenais, aderindo-se sem exageros aos temas variados e bem distribuídos.
Após a epopéia multicolorida de “In the Wake of Evolution”, nos deparamos com um momento menos impactante com “In the Heart of Her Own Magic Field”, recheado do sentimentalismo de Lundin, com um uso delicado das flautas (que me incomoda um pouco) e belos temas da guitarra (com reminiscências de Jan Akkerman), conseguindo transcender o aspecto de apenas uma simples balada progressiva, razoável.
“Electric Power Water Notes” ilustra o sentimento ao redor do disco, excelentes passagens instrumentais, mas em determinado momento sentimos um ar um tanto enfadonho nas presenças vocais. Os solos são excelentes, principalmente nas trocas entre órgão e a guitarra, que incendeiam a faixa, mas ainda sim no mais não há o mesmo reflexo enérgico da primeira canção.
Pra varia o contexto, “Folkia´s First Decision” nos aproxima ao folk melancólico e delicado, sem grandes surpresas. A faixa seguinte “The Words are Like Leaves”, é mais condensada com bons ambientes travados nos teclados, fluidas linhas de baixo e o característico peso da guitarra ao promover as harmonias antes de entrar em seu fraseado suntuoso que se abre de modo claro e preciso, bom momento.
“Arcs of Sounds” pode soar um pouco cansativa, principalmente após passar da metade, devido à atuação vocal sem grande brilho e a pobreza dos temas (se comparados ao restante do disco). “Smoke From A Secret Source” é bem mais completa e eclética, transcorrendo desde o folk até uma roupagem jazzística, em temas alegóricos e bem cadenciados, atingindo interessantes nuances hard prog, enquanto a guitarra desenha o progresso sob o fraseado moderno e sintético dos teclados.
“The Seven Oceans of Our Mind” inicia-se num clima melancólico e vai crescendo até adquirir ares épicos dignos de um grande prog sinfônico, antes de cair em mais uma passagem leve com reminiscências de Genesis, que retorna a um imponente tema instrumental guiado pelas guitarras que domina o restante da faixa.
Um bom disco de progressivo sinfônico, talvez nem tão mítico como alguns ouvintes mais empolgados podem ter apontado. Excepcional trabalho de guitarras e teclados, sobre um setor rítmico muito competente, que ocupa e preencha grande parte das composições que de modo geral voltam-se a essa nova sonoridade do prog moderno, com ecos relevantes de bandas dos áureos anos 70, com todos os méritos, afinal estavam por lá.
Num ano que teve novos lançamentos de bandas grandes como Spock´s Beard e Glass Hammer, “In the Wake of Evolution” roubou a cena, com sua sonoridade carregada que ainda carece de melhores definições (principalmente na parte vocal), mas que sem dúvida encanta pelo maravilhoso aproveitamento instrumental em seus arranjos majestosos que contrastam a honestidade e beleza das passagens mais voltadas ao folk. Provavelmente não é o melhor disco do ano, como vem sendo enunciado, mas vale se conferir, principalmente para aqueles atentos aos novos rumos que o progressivo vem tomando. Um dos melhores (se não o melhor) discos da banda.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Le Bois Travaille, Même Le Dimanche (2010) - Ange
Após ouvir “Le Bois Travaille, Même Le Dimanche” uma única pergunta vinha a minha cabeça: mas o que aconteceu com o Ange?
Ange é uma banda de história, que encantou ouvintes com sua sonoridade imponente dos anos 70. Desse período podemos nos recordar das atmosferas escuras, o órgão distorcido, as esplêndidas performances vocais, em sua magia teatral unidas a algumas boas doses de folk para formar um som denso que facilmente envolvia o ouvinte.
Então surgiram os cruéis anos 80 com suas baladas pop e fui obrigado a deixar de ouvir Ange (resisti bravamente até “La Gare de Troyes”, mesmo com o doloroso “Moteur!”, um dos piores discos de todos os tempos).
Desde então tinha ouvido algumas peças aleatórias no youtube, e recentemente decidi procurar esse novo CD, lançado neste ano.
Após algumas audições, percebo que o disco poderá soar muito decepcionante a ouvintes nostálgicos, pois o que verão aqui é um Ange completamente reformulado, deixando para trás o progressivo sinfônico e pomposo de outrora.
Por outro lado, o disco pode agradar muito ouvintes que estão dispostos a manter a mente aberta a novas sonoridades. O que temos aqui é um heavy-space-prog contemporâneo, que mantém alguns dos ambientes escuros de antigamente, agora ainda mais densos, recheados em boas camadas instrumentais.
O grande problema por aqui é o desnível do trabalho, se podemos encontrar algumas faixas arrasadoras como o space rock obscuro de “A L´Ombre Des Pictogrammes”, deparamo-nos também com algumas passagens bem fraquinhas, principalmente quando a banda tenta induzir suas baladas como em “Voyage en Auterchie”, talvez o pior momento da gravação, em seu trafego arrastado e meloso, de dar sono (apesar da aproximação com o metal progressivo em momentos, que também é detestável). Isso talvez se reflita devido à extensão do cd, que em determinado momento pode soar um pouco cansativo.
A instrumentação é peculiar, a bateria eletrônica transborda por quase todo o disco e pouco restou também dos teclados orgânicos, criando por aqui sinuosas e profundas atmosferas de peso (alguns momentos até um pouco claustrofóbicos).
Os vocais ainda apontam ao brilho da interpretação teatral da fase áurea, o que pode agradar os fãs que se sujeitarem a nova sonoridade.
Como conclusão, posso dizer que a banda sofreu um amadurecimento nesses anos e adaptou-se as novas tendências musicais, “Le Bois Travaille, Même Le Dimanche” é talvez o melhor disco desde “Guet-Apens” e uma das gravações mais interessantes do ano.
“Des papillons, des cerfs volants” é uma boa viagem progressiva, com alguns contrastes interessantes entre o soar intenso dos teclados e o atarefado setor rítmico, com algumas reminiscências de King Crimson.
Já “Hors-La-Loi” é um poderoso hard prog numa massa sonora compacta alternando alguns interlúdios espectrais (Tristan Decamps faz um grande trabalho de teclados), no final um bom solo de guitarra com algo de Steve Hillage.
Então nos surge a faixa título “Le bois travaille, même le dimanche”, uma jornada espetacular para ser recordada. Inicia-se como uma balada esquizofrênica (realmente muito perturbadora no momento dos vocais femininos), que rasteja agonizantemente através de excelentes performances vocais até uma pesada e sólida estruturação, de harmonia arrasadora, por onde são travados poderosos riffs de guitarra, ladeados pelos teclados sintéticos, que disponibilizam alguns efeitos paranóicos, para intensificar a atmosfera de tensão. Após a pedrada, a música confluí num ambiente aterrorizante e meditativo que encaminha ao final. Simplesmente épico, o ponto mais alto do disco.
As faixas seguintes são apenas regulares, enquanto “Sous le nez de Pionocchio” mantém a energia propagada na faixa anterior, sem ilustrar a mesma tensão e poder, “Voyage en Auterchie” evoca uma balada cansativa com alguns elementos dessa nova sonoridade. “Jamais Seul” é uma bela canção, partindo para a faceta mais folk, sem deixar de lado o clima assombrado que assola o disco, nada de mais até aqui.
“L´oeil et L´ouie” mostra mais um bom momento, os elementos sonoros escolhidos perturbam a sanidade de quem ouve (o disco ao todo me lembra um pouco o Goblin), com uma poderosa harmonia ao piano carregada de sentimentos confusos, até cairmos numa passagem mais pesada, quase metal. Após a metade bons entalhes de instrumentos de corda engrandecem a experiência sonora, navegando ao lado de mais um excelente solo de guitarra introspectivo e expressivo.
Mais uma vez, alguns momentos instáveis, “Clown Blanc” nos apresenta a um riff insano que mantém o clima fantasmagórico que circunda o disco, já “Dames et Dominos” é uma pesada balada com alguns bons efeitos, mas nada além, “Les Colliness Roses” segue o mesmo caminho, mas com um melhor trabalho de guitarra e performance vocal impecável.
O destaque final é “A l'ombre des pictogrammes” como já mencionado, entoa um arrasador space rock, grande momento da percussão, sob as pesadas nuvens que envolvem a faixa. Podemos encontrar alguns momentos de dissonância ao lado de efeitos abstratos que trafegam sobre o trabalho etéreo dos teclados. A segunda parte contém um imponente violoncelo, que cresce juntamente com a entrada do restante da instrumentação (momento bem sinfônico) condizente com o progressivo atual, uma maravilha realmente, intimidando a nova geração de bandas como “Amplifier”, “Oceansize” e “Hypnos 69”.
Não é o mesmo Ange que foi consagrado com uma das melhores bandas de rock progressivo, talvez não seja tão consistente e agradável aos ouvidos como outrora, mas consegue produzir uma sonoridade desafiadora, atual, criando nuances sombrias e poderosas, que vão do space rock até o metal progressivo, um disco bem eclético, porém desigual, como explanado ao longo da resenha.
Vale a pena se ouvir, após mais de 40 anos de carreira, o Ange ainda nos brinda com um bom trabalho como esse, sem um pingo de recesso, sua sonoridade evoluiu e se reciclou, nos deixando no aguardo de melhores trabalhos ainda por vir.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Clivages (2010) - Univérs Zero
No final dos anos 70, o público que se aventurou a ouvir Univérs Zero encontrava-se perplexo com aquela sonoridade nunca vista antes. Passados mais de trinta anos, ao ouvir “Clivages” me encontro em similar estado de espanto.
O cd saiu em janeiro, mas somente há pouco consegui ouvir o mais novo trabalho do grupo liderado por Daniel Denis. Após a primeira audição estava completamente surpreso, não por me deparar com mais uma odisséia experimental que subvertia qualquer traço da palavra “rock”, mas por ver mais uma vez uma banda capaz de reciclar sua própria sonoridade, de modo até ousado em alguns momentos.
O disco dividiu as opiniões dos fãs mais tradicionais, se por um lado não há críticas a se fazer, sendo um disco que faz jus a respeitadíssima discografia do grupo, “Clivages” surge como um de seus trabalhos mais ecléticos e talvez acessíveis, se comparados as jornadas obscuras de “Heresie” ou “Ceux Du Dehors”.
Mas, não há motivo para preocupação, esse novo CD (facilmente um dos melhores lançamentos do ano) nos traz a, já característica, intrincada música de câmara, em performances instrumentais estonteantes, recobrando o clima acústico dos primeiros trabalhos (aliás, meus favoritos).
Outro detalhe interessante é o uso dos sopros, que transborda por todo o disco, sejam pelos elementos clássicos dos diálogos entre oboé e fagote, às novas inserções de sax e clarinete (clarinete-baixo inclusive), unindo-se ao fabuloso trabalho de bateria, linhas de baixo perspicazes, temas febris de violino, pesados ambientes travados ao teclado e alguns toques substanciais de guitarra, cortesia de Andy Kirk que contribuiu com duas faixas (Warrior e Sobressauts).
O resultado é a nossa velha conhecida e desafiadora música, que até hoje convida os ouvintes a saírem de sua zona de conforto, para compreenderem o valor artístico de suas complexas composições, que vão muito além dos padrões tradicionais da música popular.
Confirmando o poder subversivo, o disco se abre com “Les Kobolds” uma delicada faixa que assustaria qualquer ouvinte mais assíduo da banda. De uma clareza incomum, a música transcorre sobre um uso aberto dos sopros intercalados ao violino, que discorrem através de leves interlúdios de piano, que vem adquirir uma dose de peso característico somente a partir dos 1:30, em seu tema sisudo, alternando esses dois momentos. Os diálogos afiados dos instrumentos contribuem para criar uma melodia divertida e palatável, destoando do padrão de suas músicas, sem perder em qualidade.
Mas, sem dúvida o ponto mais alto do disco se encontra na faixa seguinte, a gigante “Warrior”. Se “Les Kobolds” serviria para ilustrar a versatilidade do grupo, Warrior mostra o amadurecimento compositivo de sua arquitetura sonora peculiar, calcada em sombras atmosféricas profundas (nada melhor que “Dense” para exemplificar). Inicia-se num ambiente claustrofóbico enquanto o violino cresce, até a entrada da poderosa bateria, em viradas precisas e enérgicas que avançam e preenchem a composição. Surge então os temas avassaladores da guitarra, agregando ainda mais peso, em seu timbre assustador. Tudo confluí numa melodia seca quando fagote e clarinete assumem a linha de frente, em cenários tenebrosos, agravados pelos efeitos senis que desenham o clímax da composição (e do disco). Um presente a todos os fãs da intrincada sonoridade do grupo, elevada por aqui a seus limites, através de seus doze esquizofrênicos minutos.
Após a pedrada de “Warrior”, nos surge uma dose do Univérs de outrora, primeiramente pela estruturação bem típica de música de câmara (com alguns retoques do UZ) em “Vacillements” e em seguida com mais uma “bordoada” de peso com “Earth Scream”, sobre um ambiente de tensão, que prende o ouvinte em agonia durante três minutos.
“Sobressauts” é outro dos melhores momentos do disco, numa melodia cativante que dança sinuosamente sobre a pesada linha do setor rítmico, antes de cair em mais uma impressionante série contrapontística onde as vozes confluem em temas fluídos de múltiplas camadas, trafegando com leveza, em uma belíssima e sutil composição (com algumas doses de sarcasmo), capaz de encantar quem ouve. Uma das minhas favoritas: nuances realmente fantásticas, inenarrável, principalmente pelo modo como a composição foi construída e articulada em sua instrumentação.
Em “Apasentaur” mais uma curiosa melodia, nos staccatos do violino e a fluidez do sax que vem encontrar os diferentes elementos compositivos para formar algo em torno de influências jazzísticas, dentro da capacidade criativa da banda, um momento singular em sua carreira.
“Three Days” é mais uma agradável passagem sonora entre o diálogo dos sopros e das cordas de modo afiado e sensível, com alguns toques do delicado sabor de clássicos russos como Rachmaninoff e Stravinsky (como não poderia faltar).
“Straight Edge” é a faixa mais longa do cd e também a mais eclética, por aqui podemos recapitular as doses jazzísticas de “Apasentaur”, aderindo a guitarras de um fraseado sujo em efeitos sintéticos equilibrando-se sobre tensos cenários que se alternam a momentos de mais “cor”. Esse equilíbrio entre as duas facetas da banda chega perfeitamente nesse ponto do disco, em outra música de grande carga emocional. Em alguns momentos podemos nos deparar com temas de grande liberdade e sensatez e em outros nos vemos imersos num mar de escuridão e sombras, a ser ouvido e sentido. Uma jornada sonora memorável, em suas nuances febris e multicoloridas oferecendo ao ouvinte uma experiência completa.
Em “Retouir de Foire” podemos respirar um ar menos carregado, apesar da densidade das texturas por aqui impressas, sobre as sutilezas do tema principal. Grande trabalho percussivo e nem preciso exaltar a complexidade melódica abstrata que captura o ouvinte em sua atmosfera cinzenta.
Para fechar “Les Cercles D´Hours”, baseado no imponente pulso de bateria minimalista, por onde as vozes trafegam deixando suas impressões.
Um grande disco, sem falhas ou buracos, nenhum momento que possa ser apontado como sendo fraco ou por estar apenas “cumprindo tabela”, aliás muito pela contrário, é possível sentir a entrega e dedicação dos músicos a cada faixas. Obviamente algumas superam o nível compositivo esperado, como “Warrior” ou “Sobressauts”, mas é um disco bem equilibrado com algumas passagens excelentes. Equilíbrio esse que podemos encontrar também entre as partes mais escuras e sombrias às mais amplas e multicoloridas (apesar do “cinza” ser predominante), sendo talvez o disco mais “claro” da banda, graças a momentos como “Les Kobolds” ou “Three Days”, sem deixar de lado a imensa qualidade compositiva. Tudo isso pode ser visualizado em “Straight Edge” um resumo do que é feito ao longo do CD.
Grande lançamento, pelo menos no Top 5 desse ano, não decepcionará os fãs mais antigos, uma incrível contribuição à intrincada música de câmara vintage característica do Univérs Zero.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Toe.
Mais uma banda contemporânea, hoje (como disse, durante esse mês traria bastante coisa nova). Provinda diretamente do Japão, nos surge “Toe.” Navegando pelos mares do post-rock, que provavelmente é o estilo que melhor ilustra o atual momento do rock, podemos encontrar alguns expoentes bem sucedidos do novo ritmo desenhado por bandas como Mogwai e Tortoise, compartilhando entre si o gosto pela introspecção musicada, afastando-se cada vez mais do formato “canção” ao qual nos habituamos.
O Toe. contribui para isso com uma delicada mescla de todas as emoções carregadas por seu post-rock a uma dinâmica estrutural típica do math rock, presente principalmente no espetacular trabalho da bateria, sempre salientado nas composições em suas variantes complexas e muito acuradas.
Mas, ao contrário de outras bandas que buscaram promover essa mesma mistura, o Toe. soa bem natural e fluído, aparentando ter encontrado sua sonoridade, numa existência tão curta, em menos de 10 anos.
Até agora lançaram apenas dois discos de estúdio e alguns EPs, o primeiro foi “The Book About My Idle Plot on a Vague Anxiety” (de 2005) que ainda não ouvi na integra, apenas alguns pedaços soltos pelo youtube, e segundo o que pude notar, mostra um Toe. ainda cru, que no entanto já demonstra os elementos chaves de sua sonoridade: um trabalho muito técnico de bateria circundado pelo fraseado limpo e flutuante das guitarras.
Foi com “For Long Tomorrow” (2009) que a banda chamou minha atenção, principalmente pela magia contida em sua intensa lírica instrumental. Por aqui o grupo também acrescenta harmonias características do Piano Rhodes, linhas de baixo bem trabalhadas e cativantes, riffs de vibraphone, vocais atmosféricos, além de um aproveitamento muito maior do violão, que em momentos realmente rouba a cena.
O resultado é uma construção musical singular, onde os diversos recursos confluem numa massa homogênea, porém profunda, em diversas camadas, onde todos os instrumentos brilham igualmente.
Prova dessa estruturação incomum podemos encontrar na genial “Goodbye”, que surge através de um suave balbuciar da guitarra, por onde são inseridos lentamente os novos adereços da composição, antes de desenvolver diante de nossos olhos uma intrincada melodia, que une a introspecção e todo o sentimento propagado pelos diálogos entre violão e guitarra, baseados sobre uma potente base rítmica, em ataques matadores de baixo e bateria.
Justamente, essa faixa demonstra o ápice dessa junção perfeita entre os dois estilos, de modo a constituir um som integro e fluído, inclassificável.
Ainda podemos sentir por todo disco o apaixonante trabalho das guitarras cristalinas, que por seu fraseado apontam em momentos ao Radiohead (sem a mesma distorção ou a dose carregada de efeitos). Enquanto o setor rítmico aponta alguns momentos bem jazzísticos, quando a bateria não está sendo aterrorizada por viradas absurdas e poderosas.
O trabalho contrastante das cordas me conectaria a alguma coisa do fusion, talvez Béla Fleck pela sobreposição da melodia honesta aos efeitos atmosféricos incidentais.
O álbum é bem nivelado e apesar da minha preferência por “Goodbye”, nenhuma das faixas fica abaixo do padrão de qualidade imposto, talvez “Our Next Movement” surpreenda um pouco por seu toque de world music (note os tipos de percussão empregados) e as camadas de jazz atribuídas ao longo da faixa principalmente pelos instrumentos de sopro, mesmo assim mantendo a base de sua sonoridade.
Esse aglomerado soa ao todo muito orgânico e leve para os ouvidos, sem apelar para a complexidade de difícil digestão, aliás o ouvinte pode ser facilmente capturado pelo clima imposto pelas músicas, carregadas de sentimento de uma timidez até poética (é preciso se ouvir).
Extremamente recomendado, foi algo que gostei de escutar e me causou uma boa impressão, para aqueles que tem a mente aberta as novas sonoridades, que promovem o desenvolvimento gradual da música, Toe. possui uma boa proposta que facilmente agradará.
Realmente difícil é não gostar.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Marek Grechuta
Marek Grechuta foi um dos pioneiros do rock polonês e um de seus mais importantes representantes. Apesar do meu ciclo de postagens sobre o progressivo do leste europeu ter sido interrompido, isso não me impede de falar de alguns de seus grandes artistas. Marek foi inicialmente um cara corajoso e até subversor, iniciando o movimento de rock na Polônia ainda no início dos anos 70, juntamente com bandas como o SBB, que tornou-se um pouco mais popular, principalmente fora do país.Novamente, para entender suas músicas é preciso mergulhar no contexto da Guerra Fria, e do comunismo que regia a maior parte desses países. A Polônia talvez tenha sido um dos países que mais sofreu com a repressão no período, principalmente nos anos anteriores a 1970. Com a entrada Edward Gierek no governo, o regime “relaxou” um pouco, essa era a deixa para que tais bandas propagassem seu som.
Nesse mesmo ano, Grechuta lançou seu primeiro disco, “Marek Grechuta e Anawa” muito prestigiado pelos fãs principalmente (de acordo pude notar com algumas pesquisas). Mas, o grande clássico viria a seguir “Korowód”, um dos poucos discos que ouvi inteiro, como me foi recomendado.
Os arranjos a primeira vista podem parecer singelos, principalmente em sua faixa mais famosa “Dni, których nie znamy” (é... o polonês é uma língua complicada) que evoca doses maciças de folk (até com algumas possíveis pitadas de Bob Dylan, como discuti com um amigo recentemente), numa bela e cativante harmonia, guiada pelos vocais repletos de paixão de Marek. Num outro momento já podemos notar faixas mais complexas até com certo conteúdo experimental como a instrumental “Wiedziec Wiecej” baseada nos improvisos dos violões cheios de delays, que crescem e preenchem todo o conteúdo da música, numa espécie de interlúdio meditativo (na parte dos Drones feito nas notas graves, a composição soa como um mantra).
Em “Kantata” é resgatado o folclore do leste europeu, o “folk dos romani”, como meu amigo Tiago explanou em sua série de posts sobre o tema (você pode ler mais clicando “aqui”), sobre uma imponente base jazzística, com mais improvisos “free”, antes de cair em passagens mais claras e positivas.
Interessante é notar como as estruturas compositivas são armadas, apesar dessa base folk, não nos deparamos com músicas simplórias e arcaicas, muito pelo contrário, Merek nos apresenta a uma espécie de progressivo, eclético, que reúne algumas boas influências partindo desde a nostalgia e o clima pastoral imposto pelos trabalhos das cordas e das flautas, até a liberdade jazzística inserida pelo baixo em algumas faixas, em melodias bem executadas que contam com bons contra-pontos, principalmente entre os violões, criando belos padrões límpidos e cativantes.
Outro detalhe é a interpretação memorável do compositor de suas próprias letras, aliás outro ponto fortíssimo, poderão encontrar alguns rótulos para sua música como “poesia cantada”, o que de fato ocorre, o que consegui encontrar e traduzir para o inglês (de modo bem precário às vezes) já me soou profundo e reflexivo, numa espécie de resgate dos detalhes importantes do comportamento, como ocorre em “Dni, których nie znamy” que aponta a busca pelo conhecimento (pelas respostas) como o único modo de alcançar a satisfação plena, com alguns bons versos por trás que cabem a interpretação de cada um (para encontrar algumas letras, ainda que em polonês clique “aqui”).
O grande destaque do disco vai para a faixa título, composição mais progressiva do álbum, carregada de energia, emanada pelo potente e vibrante setor rítmico (o uso do baixo me lembra um pouco Chris Squire, talvez um pouco mais “jazzy”), contando também com o excelente uso do coro como pano de fundo e um belo solo de flauta (provavelmente algum tipo regional, seu timbre é mais “aerado” que o da flauta transversal).
Dos outros discos ouvi pouco, até pela dificuldade em encontrá-los, mesmo com a extensa discografia do músico, que conta com treze álbuns de estúdio (como me consta), sendo o último datado de 2003.
Marek faleceu em 2006, aos 60 anos, deixando seu importante legado para o rock polonês.
Recomendado por seu folk-rock fora dos padrões habituais, de grande aproveitamento instrumental, ou mesmo por seu progressivo cru e incomum.
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sábado, 4 de dezembro de 2010
Maudlin of the Well
Maudlin of the Well é uma das minhas mais recentes descobertas no meio musical e também uma das maiores surpresas. Há menos de uma semana, baixei do próprio site da banda, seu último disco, datado do ano passado, “Part the Second”, após ler alguns comentários interessantes e receber recomendações diretas.
Os primeiros discos são vendidos usualmente como “prog-metal” ou ainda “avant-garde metal” e ambas as classificações condizem muito bem com a sonoridade pesada a qual me deparei (muitas vezes beirando o próprio Death Metal), no entanto o grupo em toda sua sensibilidade consegue aderir delicadas particularidades, através do bom uso dos instrumentos de corda, a adição de flautas, clarinete e trompete, tornando o som singular e instigante a qualquer aventureiro sonoro.
De fato, não ouvi todo o conteúdo desses discos, apenas alguns trechos através do vocêtubo, mas somente após me maravilhar com o presente “Part the Second”.
O que escutei nesse fantástico cd, que já entrou no meu balaio de audições diárias, é um impressionante amalgama de detalhes e sutilezas que confluem em algo que se aproximaria a neo-música de câmara, proposta pelo Univérs Zero, mas mantendo tonalidades individuais que tornam o disco único.
É bem verdade, que se pode sentir certa influência de King Crimson, no uso das cordas, principalmente nas guitarras e também do Pink Floyd pelo modo como são exploradas as atmosferas criadas, mas não de modo muito carregado que remeteria ao “copia e cola”.
O som é uma das respostas mais convincentes ao surrealismo, dentro da música popular, banhado em óleos oníricos, aproximando-se da “distorção” de um quadro de Dalí.
O que vemos (é realmente algo bem visual) é uma sonoridade de intensa meditação introspectiva, com amplo aproveitamento das cordas de modo suave e majestoso, agregados a fraseados de guitarra vertiginosos (quando presentes), vocais liquefeitos que derramam sua lírica não menos sonhadora a passagens cheias de groove em arranjos instrumentais estonteantes, destacando também o excelente trabalho percussivo.
Justamente nessa instrumentação perfeita, o modo como são inseridas as vozes, o uso do Cello, do Violino, do Baixo e dos teclados, reside toda a beleza e o impacto dessa gravação de Maudlin of The Well, que parece ter alterado sua sonoridade drasticamente, em prol de sua própria versão do “Pós-rock”. Agrupa, então, uma série de ritmos que vão desde e o jazz descarado de alguns momentos da percussão, a fluidez de algo como a bossa nova (observem a primeira faixa) e a música erudita, exalada por todos os poros do cd, até pelo modo como é montada a orquestração impetuosa.
Em “Part the Second”, Maudlin of the Well reúne a matéria-prima de sonhos multicoloridos, numa intrincada massa sonora de diversas texturas sobrepostas misticamente, traduzindo as mais diversas emoções, tornando-o indescritível com meras palavras. Uma real obra-prima da atualidade.
Esse disco foi um dos marcos da minha “vida musical”, pois me provou definitivamente que o “rock” (ainda que em suas diversas variações) continua em movimento, progredindo em direção a algo superior. Talvez seja difícil classificar o que a banda fez nesse disco como “rock progressivo” (apesar de amar o termo), até pela carga simbólica que carrega, apontando usualmente a sonoridade desenvolvida pelas nossas amadas bandas setentistas. Rock progressivo também faz bandas “revival”, como o próprio “La Torre Dell´Alchimista”, alvo da última postagem, que ainda nos atraem, mas aparentam ficar no “mais do mesmo” e sinceramente não reclamo disso, até gosto bastante.
Mas, “Part the Second” marca um novo estilo que iniciou-se juntamente com o Univérs Zero e continua evoluindo, tomando forma e agregando novos adeptos, talvez o “pós-progressivo”, enquanto não encontramos um termo melhor.
Termino essa postagem, até um pouco reflexiva, com o link do site oficial da banda, onde poderão baixar o disco na integra, inclusive na versão .wav e .flac, afastando-nos um poucos de alguns impraticáveis arquivos em .mp3.
http://www.maudlinofthewell.net/
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
La Torre dell´Alchimista
La Torre dell´Alchimista é um novo grupo de prog italiano, que descobri apenas recentemente. Por hora lançaram apenas dois discos, que se fazem dignos dos grandes atos progressivos de seu país nos anos 70.
De fato pode-se notar a grande influência do Banco Del Mutuo Soccorso, principalmente em seu primeiro disco, o homônimo de 2001.
A sonoridade é dirigida através dos eficientes teclados, principalmente nos trabalhos de órgão, que apontam a sonoridade setentista e dos sintetizadores, esses já abusando de modernismos, em efeitos unicamente eletrônicos, com algo de Solaris. Ajunte a esses elementos um belo trabalho de flauta, em seu soar bucólico e introspectivo, inclinando-se sobre o toque mediterrâneo de algo como PFM; vocais sinuosos que me lembram principalmente Alphatauros; linhas de baixo a lá Patrick Djivas e por fim inteligentes violões que suprem a necessidade da guitarra elétrica, em vários bons momentos.
Tudo isso se reflete muito fortemente no disco de estréia, que aparece como um grande tributo a todo o prog italiano, sem parecer enfadonho, aliás, é um trabalho sólido que facilmente cativa o ouvinte, principalmente nas linhas dos sempre atarefados teclados, mais uma vez destaque para o órgão, no entanto, particularmente, não consigo gostar do uso de mellotron que me parece um tanto forçado ou artificial, mas nada que prejudique o disco em si.
O cd possui algumas grandes passagens e apesar de claramente ter surgido de um único foco de inspiração, o excelente trabalho de teclado transborda ao longo da audição, ocupando toda a possível zona de vácuo, com muita qualidade.
Todas as canções foram minuciosamente organizadas e facilmente estão acima da média, como destaques posso citar a faixa homônima, em suas variações de temas e tempos, de modo cativante e muito criativo, uma real jornada progressiva, como não poderia faltar; a fantástica “Il Volo”, em toda a beleza de seu clima pastoral, guiado pelos vocais apaixonantes, a delicada linha de violão e o excelente trabalho dos sopros (flauta e clarinete), resgatando facilmente todo o charme das baladas setentistas; e por fim “Lo Gnomo” outra surreal viagem progressiva, calcada no fraseado onírico dos teclados e da flauta, em melodias esguias, que facilmente carregam o ouvinte através do ambiente alegórico e imaginativo.
O segundo disco viria só em 2007, com “Neo”, com uma roupagem bastante diferenciada do que foi feito primariamente. Um detalhe relevante talvez tenha sido a saída do flautista Ceraolo Silva e por conseguinte, a sonoridade transformou-se, se em “La Torre Dell´Alchimista” a banda resgatava os imponentes trabalhos de prog italiano dos anos 70, com alguns flertes com o ELP, em “Neo” surgem novas influências que aproximam o álbum de um clima mais jazzístico que o primeiro e um amadurecimento na forma compositiva, tangendo até King Crimson, no seu agora bom mellotron, mais refinado.
Essa mudança já é notada visivelmente logo na primeira faixa “Dissimmetrie”, que segue os parâmetros de algo do “Tarkus”, alternando-se com passagens mais suaves, destaque também para o trabalho de baixo, mais encorpado e bem resolvido.
“Medusa” segue os moldes de Emerson, Lake and Palmer, em uma melodia complexa, com algumas boas passagens iniciais no mellotron, entre os poderosos ataques do órgão. Esse é um dos melhores momentos do álbum, a faixa transcorre recheada de variações e bons padrões instrumentais, alternando momentos de grande energia e dramaticidade e leves passagens guiadas pelos vocais, também cheios de expressividade. Destaque para o interlúdio de violino, a presença dos músicos convidados que providenciam flautas, guitarras, violino e sax, enriquece o conteúdo do disco, aderindo novas texturas que caem muito bem ao redor do já sólido trabalho.
As letras de modo geral, me parecem bem interessantes, à medida que pude compreender, mas vou tentar encontrar as traduções e então posto uma resenha mais detalhada.
Em “Risveglio Procreazione e Dubbio Part 1” surge uma estrutura mais uma vez, muito influenciada pelo ELP (que inunda todo o disco), intercalando algumas passagens quase claustrofóbicas de timbragem escura, interlúdios de ares bem jazzy e novamente o ar de uma boa balada italiana, acompanhada de piano e do suave mellotron. Outro bom momento do disco, superando “Medusa”, por seu maior aproveitamento da melodia, que facilmente adentra novos ramos e não se prende apenas nos teclados a lá Keith Emerson, que podem chatear um pouco o ouvinte. Música bem concebida e talvez o ponto mais alto do disco.
“Cerbero” é mais uma boa peça, que descreve outra uma vez a complexidade que presenciamos ao longo do disco, que aborda temas novamente mais sombrios, destacando também as boas passagens de piano.
Apesar de “Neo” promover um amadurecimento compositivo, particularmente prefiro a energia e disposição exalada pelo primeiro disco, mas ambos os trabalhos deixam-me com a sensação de que a banda precisa ousar mais, encontrar uma sonoridade particular que não soe apenas como um revival, que acontece em “Neo” com o ELP. A liberdade do órgão e dos sintetizadores em “La Torre...” me soa mais agradável que os parâmetros muito sisudos de Emerson, em “Neo”, mas esse também possui seus pontos positivos, principalmente por sua estrutura mais bem definida, em passagens intrincadas de amplo valor instrumental.
Esperamos o que esse grupo italiano possa nos dispor em uma gravação futura, a tendência é que melhore ainda mais.
Recomendado por seu prog-vintage, com excelente trabalho dos teclados, que mescla o ar nostálgico dos anos 70 a algumas tendências progressivas mais atuais, destacando o principalmente o primeiro disco.
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