sábado, 29 de janeiro de 2011

Godspeed You! Black Emperor



Ando refletindo muito sobre os atuais rumos da música. Agora, em fevereiro, pretendo trazer mais posts com novidades relacionadas, principalmente, ao “rock” de hoje, em especial ao que se conecta ao termo “progressivo”.

Mas, afinal o que é “rock progressivo”?

Costumo ouvir comentários do tipo “o rock morreu” ou “não se faz mais música hoje, como antigamente”... e realmente não se faz! Mas, nem faria sentido compor utilizando os mesmos padrões de 30-40 anos atrás. É claro, algumas bandas refletem o saudosismo em suas composições, como é o caso dessa segunda onda de “neo-progressivo” de Flower Kings, Spock´s Beard ou mesmo o Kaipa, além das bandas antigas que continuam tentando reavivar a glória de seu passado, como é o caso de Yes, Focus, Nektar e por aí vamos.
Ok, tudo isso é muito legal e gostoso de ouvir, mas e o valor artístico? E a experimentação? E as inovações e quebras de paradigmas?
Particularmente, sinto a necessidade de perceber tais avanços na música e para tanto, trarei aquelas bandas que correspondem ao rótulo de “rock progressivo dos anos 2000”.

Então, trago-lhes hoje, “Godspeed You! Black Emperor”, talvez o principal acontecimento progressivo dos anos 2000.
Sempre ouvi falar muito bem dessa banda, mas só recentemente coloquei os ouvidos em seus trabalhos.
É realmente complicado fazer uma resenha sobre o que ouvi, o “GY!BE” promove uma sonoridade compacta e meditativa, elaborando densas massas angulares, que envolvem diferentes estilos.
Para se entender um pouco, é preciso noticiar que o grupo representa uma das tendências mais interessantes da música popular de hoje: bandas de rock comportando-se como orquestras.
Essa já é uma estética razoavelmente antiga, desde o RIO, com Henry Cow e Univérs Zero, o rock vem estreitando sua relação com o erudito, mas isso nunca aconteceu em tamanho volume. Desde os anos 90, vejo o surgimento de bandas ultra-sinfônicas como o After Crying e alguns dos expoentes do rock nórdico.
Godspeed You! Black Emperor promove esse amalgama de maneira sensorial, apropriando-se de um intenso uso das cordas em arranjos suntuosos, que evocam um space rock luxuoso, aproximando-se ainda de uma melancolia etérea em determinados momentos.
A seção rítmica é bem estruturada, nada que lembre as metamorfoses convulsas do math rock, mas funcionam perfeitamente dentro da proposta do grupo. As melodias pairam sobre os ares, preenchendo o ambiente, ás vezes de modo onírico e surreal e em outros momentos de maneira fantasmagórica e tenebrosa. O efeito sonoro criado é muito interessante, atirando-nos pitorescos mantras instrumentais, ruídos chorosos e vozes profundas, que soam homogêneas, relembrando alguns dos experimentos que mais tarde originariam o espectralismo no início do século XX, com Debussy e Ravel.
A intensa viagem instrumental proposta pelo Godspeed You! Black Emperor, traz algumas reminiscências do krautrock, em especial de Tangerine Dream e de Popul Vuh, bandas também relacionadas à música ambient e ao new age, respectivamente.
Para completar a base de influências, surge nos ritmos diferenciados de várias partes do planeta, aproximando-se a world music, em especial as bases do leste europeu.
Nos contrastes de suas passagens mais pesadas e sombrias ainda é possível, notar algo de Xenakis, devido a sua atmosfera carregada e tempestuosa.
Para resumir, GY!BE traz uma sonoridade única, utilizando-se de timbres orgânicos (em sua maioria, instrumentos de corda) para gerar movimentos musicais atmosféricos que causam diversas impressões em quem ouve, reunindo em suas composições experimentos com música ambient, a partir do trabalho de Robert Fripp e Brian Eno.
Não posso produzir uma resenha direcionada a seus discos estúdios, por ter ouvido somente registros de apresentações ao vivo, que podem ser encontradas de forma legal, por aqui.

O som, trazido pela banda é majestoso, bem cadenciado, aproveitando-se de padrões retilíneos de beleza inegável e nuances interessantes de música erudita, para gerar atmosferas que transbordam um lirismo introspectivo e profundo, para encantar os que se atrevem a sua sonoridade.
Audição essencial para aqueles que se interessam pelo pós-rock, aqui, num de seus mais fantásticos expoentes.

8 comentários:

  1. Ótima escolha usar o Godspeed You! Black Emperor como exemplo do que acontece de melhor no rock de hoje. É preciso ter essa ideia apresentada por você no texto muito viva e concreta! Já Walter Benjamin nos chamava atenção para a negatividade em preservar formas artísticas cujo momento histórico que o possibilitava já passou. No caso dele, o discurso tinha uma abrangencia maior, ele se referia a toda a arte, e as transformações que estavam determinando uma nova era que se constrastava com a arte clássica. Mas o mesmo se aplica ao domínio mais restrito que você aponta, o Rock! Não se pode, nem se deve fazer rock como antigamente. E Godspeed You! Black Emperor é realmente um ótimo exemplo disso!

    Discordo um pouco das caracteristicas que você apoutou para compreendermos o Godspeed You! Black Emperor como distinto do rock clássico. A sua proximidade com a música erudita não é uma novidade, acho que isso já ocorria desde os anos 70 de forma até mais intensa. O que marca o Post-Rock é, penso, seu ritmo, seu desenvolvimento lento e gradual. Que acha?

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  2. Tenho 16.
    Acho que o Godspeed usa a música erudita de modo diferenciado ao que outras bandas faziam (Yes, Genesis, ELP, apropriavam-se dos clássicos apenas). Quanto a ritmica, harmonias e melodia não há muitas novidades, o que o torna diferente é modo como se aproveita desses itens, aproximando-se da música ambiente, onde o efeito sonoro sobressai todo o resto.
    Não podemos apontar apenas a forma do pós-rock, como desculpa para sua existência, ou muito em breve o movimento saturará

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  3. Uma das bandas que mais tenho escutado ultimamente.
    Quanto a discussao sobre a necessidade de ruptura, ela é um tanto comum entre os fãs de rock progressivo, mas, como apontado pelo primeiro Lucas (afinal, somos tres aqui)já é uma questao antiga na filosofia.
    Nao vou propor alguma resposta ou definição, mas creio que pensar na arte como um retrato do seu momento histórico (uma tendencia entre autores ligados ao marxismo)é limitar o potencial representativo de qualquer criação, para não falar do problema gnoseológico que surge ao considerarmos o sujeito que determina se a obra faz jus ao seu momento histótico ou não, partindo da ideia que este faz a leitura da obra de arte com base em suas proprias limitações históricas.

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  4. ah, esperando ansioso pela resenha de algum álbum do GYBE.
    Abraço!

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  5. "O que marca o Post-Rock é, penso, seu ritmo, seu desenvolvimento lento e gradual. Que acha?"
    Concordo totalmente, se estivermos falando exclusivamente de GYBE ou Mogwai.
    Este ritmo é apropriado de diversas formas pelas bandas de post-rock, sendo dificil comparar God is an astronaut ou Maybeshewill com GYBE.
    Estive pensando nisso recentemente (estou escutando muito post0rock recentemente) e não consegui encontrar alguma característica essencial que defina este movimento. Alguma idéia?

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  6. Característica que defina o movimento? É complicado. Principalmente pelas fusões que vem ocorrendo, entre o chamado "post-rock" e o "math rock" (esse é mais fácil de definir), e outros movimentos progressivos de hoje.

    Realmente, limitar a arte a ilustração de seu momento temporal me soa muito vazio. Claro, alguns autores conseguem com perfeição representar sua realidade e ainda sim, transcendê-la completamente. Vide Tolstói em Guerra e Paz, eliminando quaisquer possíveis comentários.

    Essa necessidade de transgressão não é tão comum, aliás a tendência de hoje entre fãs de "rock progressivo" é apontar ao saudosismo, o que é uma pena, realmente.

    No mais, "post-rock" é um caminho em direção a erudição, sem volta, e talvez esse seja o entalhe mais interessante.

    Vou comprar os discos do GY!BE e faço uma resenha, veremos quando.

    Lucas do Nascimento você conhece "Maudlin of the Well"? Eu resenhei aqui no blog, acho que é a banda mais espetacular que ouvi em muito tempo, te recomendo fortemente

    Abração

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  7. Ah! E dê uma ouvida no disco do meu colega, logo no post acima, conhecendo um pouquinho de seu gosto musical, acho que poderá gostar, hehe, depois me diz o que acha

    Até mais

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