domingo, 30 de janeiro de 2011

Machista Presidente


 

Minha primeira aquisição do ano: “Machista Presidente” de Leo Hofnug, meu amigo músico. De fato, faço esse post, não como um favor, mas como um meio de divulgar uma gravação interessante que permaneceria perdida no meio underground.
Machista Presidente é um trabalho difícil de rotular, podendo se observar diversos elementos eruditos, algo de pós-rock ou rock psicodélico, mas é de modo geral um disco de música ambient, como o próprio autor deixa transparecer.
O que obtemos são composições intrincadas que amplificam atmosferas diversas que vão desde a melancolia sinuosa de certos momentos, até a tensão agonizante propagada em outros. Aliás, conteúdo para abstração é o que não falta, à medida que os cenários se modificam é possível criar-se impressões ilimitadas.
Como ponto fortíssimo tem-se o trabalho rítmico, sempre muito elaborado, em movimentos perspicazes e dinâmicas interessantes, que vão desde ritmos latinos passando por quebras de tempo e contrapontos muito complexos. Prova disso está na terceira faixa “Il Coco Infeccioso d´Arezzo” onde a bateria parece sempre terminar o compasso um pouco antes do que deveria, produzindo um efeito impressionante.
Ainda sobre a seção rítmica, é possível ressaltar certas similaridades com Steve Reich, até pelo modo como diversos elementos se fundem para constituir o piso das composições de maneira criativa e nada ortodoxa. Por aí temos ruídos de estúdio, apitos esquizofrênicos e outros efeitos aleatórios implantados na mente do ouvinte.
As linhas de baixo, quando presentes, mostram-se bem articuladas, em seu ritmo condensado e imponente, às vezes de modo etéreo, desaparecendo e retornando sem aviso prévio.
Quanto à escolha dos timbres consigo notar certa aproximação ao Radiohead, assim como o clima meditativo e minimalista exalado por composições como “Gravesearching Family Field Trip”.
Ouvem-se uma série de colagens eletrônicas e efeitos fantasmagóricos impondo um clima “aquoso” as composições, desviando a atenção do ouvinte em relação a todo o movimento apresentado em certas faixas.
Entre os melhores momentos posso destacar “Gente Doente Não Dança”, onde o autor se apropria de uma temática densa e pesada, com reminiscências de Univérs Zero, para assolar o ouvinte num ambiente claustrofóbico em frases que sairiam de um excelente filme de terror.
As faixas mais longas “Insideness Ein” e “Insideness Zwei” trazem reações adversas. A primeira funciona como uma espécie de suíte, em seus parâmetros esquizóides, iniciando-se no minimalismo bem cadenciado pelas diversas vozes que se formam através de uma sequência lógica de ecos (muito de Reich por aqui), antes de cair num tema de baixo possante que faz a cama para o onipresente efeito eletrônico que conduz as alternâncias, enquanto num outro momento nota-se claramente uma aproximação ao pós-rock, onde temas liquefeitos se apresentam majestosamente antes da bordoada de peso emanado pela “cena final”.
Já “Insideness Zwei” guia o ouvinte por localidades abstratas, evocando bases de salsa, ritmos nordestinos e muito além, sobre o insuportável tema repetido exaustivamente, por onde a composição é montada. A segunda parte se mostra um dos momentos mais óbvios do disco, onde é erguido um impetuoso “hard rock”, recordando alguns dos temas da gravação. Os timbres por aqui são mais agressivos, abordando um fraseado caustico em contrapontos diversos. Os temas são legais, mas nada de extraordinário.


Para explicar, tudo isso melhor, uma entrevista com o compositor, o próprio Leo Hofnug:

Lucas Bento – Então, qual é o conceito por trás dessa obra? Como as faixas se conectam? Pois há uma ligação inteligível aos ouvintes mais atentos...

Leo Hofnug - Sabendo que se trata de uma obra de música ambiental, o conceito escolhido não foi apenas temático. Cada música do CD apresenta uma idéia diferente, seja esta harmônica, rítmica, melódica, conceitual ou física (até neuropsicológica em alguns casos) que vai além da estética formal da obra
Já a forma como as faixas foram organizadas, foi pensada do ponto de vista estético

Lucas Bento - Não se resumindo a um tema, qual a força motriz, a idéia por trás? Você mencionou uma relação física e até neuropsicológica...

Leo Hofnug – Pra explicar, tomo como exemplo o primeiro movimento de “Insideness  Zwei (Antikythera)”: a frase melódica que domina a faixa não denota, para quem ouve, qualquer relação lógica (rítmica e harmonicamente falando), soando “acidental”. O ouvinte então não consegue acompanhar o que acontece e acaba se concentrando em outro elemento, algo que consiga entender.
Ou seja, eu, o compositor, não dou a quem ouve a opção de escutar aquilo que ele quer, se não só aquilo que eu quero que ele ouça

Lucas Bento - Esse é um experimento muito interessante, mas não demonstra certa falta de respeito por quem ouve?

Leo Hofnug - De que forma o ouvinte ficaria ofendido? Como músico, meu propósito é a expressão, se estou buscando expressar algo objetivo e para isso utilizo um método que não dá a quem ouve margem para subjetividade, isso significa que minha idéia foi completa e que o ouvinte compreendeu exatamente aquilo que buscava dizer, não?

Lucas Bento - Ta certo, a expressão não deve ter limites. Algum outro experimento que gostaria de destacar?

Leo Hofnug - Há um exemplo similar em "Meriones Unguiculatus (Gerbil)" onde duas linhas melódicas de harmonia e intenção similar são apresentadas simultaneamente, sendo completamente distintas em sua métrica rítmica.
Com o surgimento da segunda voz, o foco para a primeira é desviado e isso faz com que a melodia inicial seja audível somente em momentos onde ambas as métricas confluem. Por mais que o ouvinte busque se concentrar na primeira, não conseguirá separá-la, pelo fato de ambas estarem harmonicamente relacionadas e apontarem a mesma "intenção"

Lucas Bento - Interessante. Alguma experiência tímbrica? Os registros obtidos em cada instrumento soam bem "únicos"...

Leo Hofnug - Todos os timbres apresentados foram modelados especialmente para a ocasião, sempre objetivando algum aspecto especial do ambiente em questão (baixos mais graves para maiores profundidades, agudos estridentes causando desconforto, delays rítmicos em estéreo para dar uma sensação de espaço, etc…)
Neste caso, o espectro trabalhou em função da composição, não o contrário.

Lucas Bento – E quanto às gravações: onde terminam os efeitos eletrônicos e se inicia a manipulação de instrumentos reais?

Leo Hofnug - Utilizei a eletrônica como um instrumento, ao invés de dividir "ruído" de "música", tratando de trabalhar de forma a integrar ambos como elementos fundamentais da composição, como uma orquestra eletroacústica. Por tanto, fica difícil traçar uma linha, considerando ainda mais que a maioria dos "ruídos" foram gerados e manipulados por instrumentos musicais processados com milhões de efeitos.

Lucas Bento - O que pode nos dizer sobre as influências nesse disco? Notei algo de Steve Reich, Univérs Zero e até Radiohead...

Leo Hofnug - Prefiro deixar para o ouvinte captar as influências do disco, relacionando com sua própria cultura.

Lucas Bento - Mas, e quanto a você, o que tem ouvido nos últimos tempos?

Leo Hofnug - Muita coisa… em música popular de Dave Holland a The Fall of Troy, passando por Magma, Il Balleto di Bronzo, Mouse On the Keys, John Zorn, Volapük, Dizzy Gillespie, Wynton Marsalis, Hermeto Pascoal, Mr. Bungle, Symphony of Science, Etron Fou Leloublan, The Mars Volta… e a lista continua
 Em música erudita estive com compositores contemporâneos principalmente  Ligeti, Xenakis, Thomas Ades e o próprio Reich, que citou. Além de outros mais tradicionais como Stravinsky, Ravel, Dvorák e Debussy que também entram na lista.

Lucas Bento - Uma lista bem eclética, contando com bandas contemporâneas, inclusive. O que acha do atual cenário musical?

Leo Hofnug - Acho que este não poderia ser melhor! A busca de estruturas e formas musicais cada vez mais próximas a grupos de câmara resulta na exposição de idéias e conceitos compositivos muito interessantes que jamais foram vistos.
Tudo feito desde uma liberdade sem precedentes. Com o advento da internet onde todos podem ter acesso a qualquer tipo de informação e da popularização de métodos mais simples de gravação, os grandes músicos que existem por aí que antes morriam no ostracismo, agora podem gravar seus CDs e transcender barreiras geográficas.
Além do mais, pela saturação de informação no homem comum, também há uma demanda pelo novo, pelo interessante, pelo inédito e os músicos estão se esforçando cada vez mais para oferecer ao público o que este busca. Algo que antes na história acontecia em círculos muito limitados, onde somente os grandes eruditos tinham a possibilidade de inovar, de fazer algo nunca antes visto, pois eram a única fonte acessível.

Lucas Bento - Para finalizar, o que se pode esperar de trabalhos posteriores?

Leo Hofnug - Uma ópera de câmara, duas obras de jazz, ambas eletroacústicas, post/art/avant/math-rock e mais música ambiente, tudo para esse ano.

Lucas Bento - Muito obrigado, espero vê-lo por aqui novamente.

Trabalho interessante para aqueles interessados em novas sonoridades, através de experimentos eletrônicos e timbricos, musique concréte, estruturas rítmicas complexas que partem desde síncopes jazzísticas até ritmos de world music, retoques de música erudita e aproximações ao pós-rock. Para agradar todos aqueles que apreciam a música que vai além de “melodias” e “harmonias” tradicionais.

Aqui o álbum na íntegra, postado pelo autor no "vocêtubo":

Track List:

2 comentários:

  1. Lucas,
    Pode me passar seu e mail? Tenho alguns comentários sobre Maudlin, e são grandes demais para postar aqui. Cara, ótima surpresa!
    Pode enviar um e-mail para lucasr.f.nascimento@hotmail.com
    Abraço

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  2. Sim,sim.Não costumo usar muito meu hotmail - portanto o messenger - então pode me contatar através de lbentopugliesi@gmail.com

    Abraço

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