Muito bem, meus caros leitores, por aqui encerro minhas inserções a música daqueles que considero “os 40 melhores guitarristas da história”, pós-década de 50. Obviamente, cometi injustiças, deixando de fora alguns gigantes do instrumento (famosos ou não) e provavelmente gerei algumas polêmicas, excluindo alguns nomes costumeiros e ícones pintados de ouro que a meu ver, soam muito superestimados.
Sinceramente, espero que tenha me aproximado do real objetivo dessa “presepada”, que como afirmei no inicio do mês, se trata de divulgar o trabalho de grandes instrumentistas, através de uma lista honesta que não se prende a paradigmas imbecis. Não afirmo verdade absoluta em nenhum momento, pois se trata de uma publicação calcada em parcialidade, através de parâmetros pré-estabelecidos. Ou seja, esse artigo se refere apenas a minha visão: tanto de conhecimento musical e de como articulá-lo. Espero também ter despertado o interesse dos leitores, em buscar certos discos perdidos pelo tempo, como já anuncia a premissa do blog.
Sem mais enrolações, dedico esse último post aos grandes guitarristas do blues-rock (e um pouco além): Stevie Ray Vaughan, Rory Gallagher, Gary Moore, Roy Buchanan e Billy Gibbons.
Stevie Ray Vaughan
Não sou fã de Stevie, mas há um consenso sobre sua destreza no instrumento. Durante os anos 80, Stevie foi o grande responsável por trazer de volta o blues típico de seu país, numa roupagem bem tradicionalista, recebendo influências também da música country.
Stevie teve uma carreira curta, tendo surgido para o mundo em meados da década de 80, foi sucesso relâmpago por sua técnica refinada, seu estilo exibicionista em apresentações ao vivo e o imenso feeling bluesístico exalado em suas apresentações.
Logo viriam as comparações com Jimmy Hendrix, que parece ter muito influenciado seu estilo de tocar, tendo gravado inclusive alguns covers do músico em seus discos. Vaughan estava próximo ao topo, mas, do mesmo modo que Hendrix, o abuso de drogas e álcool levou sua carreira ao declínio.
No final da década de 80, Vaughan havia se recuperado e preparava-se para retomar sua vida do ponto onde a havia interrompido. Infelizmente, não teria chance: em agosto de 1990, sofreu um terrível acidente de helicóptero que tirou-lhe a vida.
Sua música ficou marcada por seu estilo diferenciado fazendo uso de cordas grossas, afinadas num tom mais baixo para gerar um ataque poderoso e encorpado, apropriando-se de um intenso vibrato (herança de Freddie King) mesclado a partes soladas elétricas e pulsantes que facilmente preenchiam o ambiente, com reminiscências de grandes ícones do blues.
1983 – Texas Flood: Disco muito famoso, um daqueles que se precisa ouvir. “Texas Flood” está imerso numa atmosfera vintage, recordando o grande feeling do blues americano através de belas canções que trazem o melhor do estilo, aliados a eletricidade da guitarra expansiva de Vaughan, em composições simples, recheadas de muito virtuosismo. Interessante o modo como os temas são explorados: Vaughan não esconde suas influências, exaltando-as através de grandes releituras, das quais destaco “Tell Me” de Howlin´Wolf. Entre outros grandes momentos posso citar “I´m Crying” em seus intensos ares introspectivos e a levemente jazzística “Lenny”.
1984 - Couldn't Stand the Weather: Acredito que esse disco seja até superior a seu antecessor, no entanto, por aqui Vaughan não inova, desenvolvendo a mesma fórmula de sucesso (cuja proposta já não transpira criatividade, afinal vemos uma significante e imponente restauração do blues). Os melhores momentos estão nas composições instrumentais de Stevie, que demonstra mais uma vez certa inclinação ao jazz-rock. O cover de “Voodoo Chile” soa muito próximo ao original, não negando um dos principais focos de influência do músico.
Rory Gallagher
Gallagher é um daqueles músicos injustiçados: esquecidos pela crítica, amado pelos fãs. Rory foi um gigante do blues, tendo um estilo particular e inimitável, amplificado por uma singularidade: Rory era irlandês.
E o irlandês típico se atreveu as raízes do blues americano, eletrizado em passagens cruas de alta voltagem. Gallagher não abusava de efeitos e distorções: ligando sua guitarra diretamente no amplificador, Rory arrancava timbres honestos e marcantes, através de frases ágeis de imensa carga emocional, riffs rasgados, solos viajantes e memoráveis.
Rory se lançou através do Power trio “Taste”, de sucesso razoável durante a década de 60, através de seu blues pesado e agressivo, com certas aproximações ao rock que se moldava.
Na década de 70 partiria em carreira solo, lançando ao longo de sua vida mais de 15 discos até 1995, quando morreu em decorrência de uma infecção hospitalar.
Alcançou todas as glórias, tendo inclusive recebido o prêmio de melhor guitarrista em 1972. Rory se mostrava um inovador, transformando-se em um dos grandes precursores do heavy metal (notem as destruições guitarrísticas de seus momentos mais insanos), influenciando vários músicos do estilo.
Gallagher tornou-se famoso por suas incríveis performances ao vivo, que refletem em gravações como “Live in Europe” e “Irish Tour”, provavelmente seus melhores trabalhos.
Meu guitarrista favorito de blues-rock por sua musicalidade explosiva e delirante, em eterno contraste a seus momentos mais introspectivos e densos.
1972 – Live in Europe: O primeiro disco a capturar a atmosfera inexplicável imposta pela personalidade musical de Gallagher. Aqui seu blues-rock tange diversas facetas, através da agressividade explosiva de “Laundromat”, a introspecção bem articulada do blues quadradão de “I Could've Had Religion”, além do clímax máximo propiciado pelo cataclismo de “Bullfrog Blues” em uma de suas melhores versões.
1974 – Irish Tour: Está na minha lista dos 10 melhores discos ao vivo de todos os tempos. Um álbum duplo com versões impressionantes de alguns de seus grandes sucessos. Aqui podemos sentir a energia que circunda seus improvisos, em espetaculares desconstruções guitarrísticas. Podemos encontrar uma série de grandes momentos, mas minha favorita é “A Million Miles Away”, sem palavras para descrevê-la, em seus soar flutuante e virtuoso, belíssima.
Foi feito um filme a partir dessa gravação, mas confesso não ter assistido.
1976 – Calling Card: O melhor registro de estúdio de Gallagher, tendo sido produzido por Roger Glover, o baixista do Deep Purple. Um disco bem eclético, tangendo diversas influências inteligíveis que vão desde o hard rock saliente trazido por Glover a aproximações ao folk irlandês, passando por jazz e algumas de suas melhores baladas. Disco refinado, com composições bem trabalhadas que se afastam um pouco da roupagem mais crua proposta pelos trabalhos anteriores. Um disco para agradar diferentes públicos, mostrando a faceta mais versátil e nem por isso, menos intensa desse fantástico músico.
Gary Moore
Gary é um respeitadíssimo guitarrista de blues e hard rock que adquiriu fama por suas contribuições com uma série de grandes músicos, ressaltando Phil Lynott, George Harrison, B.B. King, Jack Bruce, Ginger Baker, Ozzy Osbourne e Andrew Lloyd Weber.
Moore montou uma carreira sólida ao longo dos anos, passeando pelo blues, rock, jazz, country, hard rock e até heavy metal em alguns trabalhos dos anos 80.
Seu estilo de tocar carregado em frases musculosas, riffs introspectivos e densos e solos lacerantes em poderosos debulhos guitarrísticos (aproximando-se do shred em momentos) influenciou toda uma geração de músicos, em especial os que se envolver com o heavy metal, destacando alguns ícones como Randy Rhoads, Jake E. Lee, Joe Bonamassa e até Kirk Hammet.
Sua carreira é extensa, cruzando quatro décadas, tentarei ressaltar alguns de seus trabalhos mais interessantes (apesar de não conhecer a fundo).
1982 – Corridors of Power: Esse é um de seus discos mais pesados, em fraseados agonizantes e eletrificados que evocariam o heavy metal, em seus timbres ríspidos e secos. Inicia-se na pedrada “Don´t Make Me for a Looser”, mas ainda poderia citar como destaque a rápida e pesadíssima “Rockin´Every Night”, em seu timbre agressivo e avassalador. O grande momento vem mesmo no solo de “End of the World”, um dos mais espetaculares da história do músico.
1983 – Live at Marquee: O disco em si não é tão bom, mas isso é ofuscado pelo line-up galáctico que conta com Don Airey (Deep Purple, Black Sabbath...), Andy Pyle (Kinks) e Tommy Aldridge (Black Oak Arkansas). Nenhum performance está acima do esperado até “Parisienne Walkways”. O QUE É AQUILO!? Numa versão instrumental de quase 8 minutos, Gary nos traz o poderoso feeling da faixa original, aliado a inexplicável devastação guitarrística, em seu lirismo estratosférico.
1990 – Still Got the Blues: Um disco mais contido e acessível, voltado a um bluesão tradicional, contando com a presença do amigo de longa data Don Airey, além de outras participações significativas. Seu trabalho mais conhecido, aclamado como um dos melhores do blues moderno. Gravação interessante, envolta numa atmosfera intimista, esbanjando feeling sem negligenciar a técnica, aqui soando mais sofisticada através de frases açucaradas, licks flutuantes e outras belas proezas instrumentais. É “pop”, mas por direito adquirido.
Roy Buchanan
Um titã do blues, exalando um lirismo extra-terrestre, em sua beleza fluída e marcante. Suas frases surreais (sim, falo de blues) tornaram-no num dos guitarristas mais influentes da história, baseando suas músicas em timbres flutuantes e sensoriais que muito impactariam nas escolhas instrumentais do rock que se desenvolveria.
Tornou-se profissional ainda no início dos anos 60, mas só ganharia certa notoriedade na década seguinte. Lançou em vida cerca de 12 álbuns, enfrentando ao longo de sua carreira o cruel vício da bebida. Em 1988 foi preso após um episódio lamentável, enforcando-se com a própria blusa ainda em sua cela.
Seu estilo inovador, principalmente na escolha de seus timbres, influenciaria uma série de grandes guitarristas, destacando Gary Moore e o próprio Jeff Beck que pode ser visto como um sucessor de Buchanan.
Sua técnica é refinada, apropriando-se de frases de bom gosto, bem articuladas através de sua “chicken´picking” particular, tendo desenvolvido também a técnica de “pinch harmonics” que muito seria aproveitada por artistas que viriam.
1972 – Roy Buchanan: Seu fabuloso disco de estréia que apresentou o mundo ao estilo sutil e leve de Buchanan, incluindo sua belíssima versão de “Sweet Dreams” e alguns clássicos como “The Mesiah Will Come Again”. Buchanan molda fraseados imprevisíveis, escalando suas notas únicas ao ar, apropriando-se de temas detalhados e cativantes. Um discaço, realmente clássico de blues, exalando uma introspecção honesta e pulsante que elevaria o estilo a outro nível.
1978 – You´re Not Alone: Aqui estão registrados os timbres mais espetaculares, imprevisíveis e impressionantes de Buchanan. Esse disco foge um pouco da estrutura de blues padrão, aproximando-se de um rock sofisticado, com levadas jazzísticas... quase progressivo. Meu disco preferido em sua extensa discografia, até por sua singularidade. “You´re not Alone” é fantástica, mas o melhor momento é sem dúvidas “Fly... Night Bird”, inenarrável (colocarei no tocador do blog, esqueço da existência disso às vezes).
1985 – When a Guitar Plays Blues: O disco que marca o retorno parcial de Buchanan aos estúdios. Os arranjos por aqui são mais “pobres” do que se pode estar acostumado, mas o estilo cristalino, lotado de emoções abstratas de Buchanan consegue transformar uma gravação apenas razoável num dos melhores discos de blues dos anos 80 (relevando a existência de Stevie Ray Vaughan). Mais uma gravação apaixonante.
Recomendo também: tudo que Buchanan fez, quando falamos em guitarristas de blues, apenas B. B. King é capaz de superá-lo, sem embargo, a música instrumental de Roy explora todo o sofrimento de sua existência e de seu meio, traduzindo com perfeição o que esse fantástico estilo tem de melhor. Sua perda foi um grande pesar para os amantes de arte, sem a menor dúvida.
Billy Gibbons
Não encontrei em lista alguma, qualquer referência ao nome de Billy Gibbons. Mas, que grande heresia! Gibbons é o máximo! Apesar da fase duvidosa do ZZ Top nos anos 80 (que ainda possui alguns bons momentos), Billy sempre se mostrou um guitarrista perspicaz, disponibilizando riffs musculosos, em temas secos e sarcásticos, zombando do modo de vida de sua terra natal, o mitológico Texas.
Gibbons ainda foi um dos pioneiros do tapping. Me lembro de ter lido uma entrevista de Eddie Van Halen que ao ser questionado sobre sua “nova” técnica, afirmou que a havia roubado do cara que a roubou de Billy Gibbons.
Na década de 70, o ZZ top ficou famoso por seu blues-rock bem quadrado, em levadas possantes que marcam todo o clássico “Tres Hombres”.
Durante os anos 80, moldou-se toda aquela imagem das longas barbas, os clipes senis e os riffs memoráveis (em minha opinião o tema de “Sharp Dressed Man” é um dos melhores do rock) que trariam imensa popularidade a banda, até pela intensidade de sua veia cômica.
Sou fã da banda, mas garanto-lhes que o ZZ Top é muito mais original que várias das bandas populares de blues-rock que costumam figurar em “listas sérias”. Gibbons mostra um grande conhecimento de campo harmônico, aproveitando-se muito bem de sua base no blues, além de solos divertidos, repleto de pinch harmonics.
Quem viu o ZZ Top ano passado, entende todo meu fascínio pela banda, aliás, um dos melhores shows de 2010!
1973 – Tres Hombres: O clássico da banda, cuja resenha completa pode ser lida aqui. A base é o blues bem tradicional que se reflete em minhas faixas favoritas “Waitin´For The Bus”, “Jesus Left Chicago” e a bonita “Hot, Blues and Rightous”, podemos encontrar também o rock quadradão de “Beer Drinkers and Hell Raisers”, além do maior clássico da banda “La Grange”, em alguns dos melhores solos de Gibbons.
1979 – Degüello: Uma evolução da sonoridade de “Tres Hombres”, mais crua, mais agressiva, adentrando-se grooves ainda mais intensos. Álbum divertidíssimo, com letras lacerantes e instrumentação muito bem elaborada. Entre os grandes destaques a clássica “Cheap Sunglasses” e a distorção de “I´m Bad, I´m Nationwide”, as frases de guitarra são realmente muito legais.
1983 – Eliminator: O melhor disco do ZZ Top dos anos 80. A banda recebe influências do New Wave, usando sintetizadores em suas músicas. Isso é estranho, temos de admitir, mas esse álbum trouxe algumas excelentes faixas. Destaques: como já mencionado, o riff de “Sharp Dressed Man”, “Gimme All Your Lovin”, o groove de “Legs” e a excelente “Got Me Under Pressure”, num dos melhores momentos da guitarra de Gibbons.
É simples, mas é legal, que posso fazer?!





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