Para contrastar um pouco a todo o clima erudito imposto por certas bandas de pós-rock, que pretendo ainda explorar mais por aqui, trago-lhes hoje “Amplifier”, grupo de rock inclassificável da Inglaterra, que vem inovar as tendências musicais de seu país.
Desconheço gravações anteriores do moderno power trio de Manchester, que por proximidade, costuma ter sua sonoridade comparada com ao Oceansize. Não considero tal referência válida, pois apesar da aproximação ao space rock de ambos os grupos, Oceansize sempre me soou como uma “subdivisão” bem articulada do Radiohead.
No caso do Amplifier, as influências não são tão evidentes, gerando uma massa homogênea de pirar, como transparece pelos poros elásticos de seu recente e ambicioso projeto “The Octopus”, disco duplo de um hard rock vigoroso, alternando-se a passagens oníricas, em doses de surrealismo bem administrado, que tange do sonho multicolorido mais abstrato até os piores pesadelos em suas glaciações tenebrosas.
Como os próprios integrantes afirmam, “Amplifier é um grupo de rock interessante”, com óbvios elementos progressivos, até pela singularidade imposta em suas gravações, que apenas de longe conectariam-se ao som mais pesado e viajante do Porcupine Tree (por quem nunca morri de amores).
Em “The Octopus”, vemos muitas guitarras sobrepostas que aplacam um aspecto grandioso, principalmente pelo uso de extremo bom gosto do instrumento, destacando a escolha de efeitos que sobram pelas composições, pairando pela mente do ouvinte. Daí poderíamos retirar o clima intimista e simplório da guitarra Pink Floydiana, riffs musculosos que emergem de um volumoso stoner metal, apropriando-se de algo do Black Sabbath, em presenças menos densas, mas ainda mais sombrias.
E as alusões param por aí, Amplifier consegue produzir um disco singular, cheio de pluralidades que determinam o caráter único e autoral de suas composições, demonstrando prolongadas Jam sessions, temas meditativos na guitarra, linhas de baixo condensadas, algumas extravagâncias rítmicas em momento chave, nuances de um progressivo vintage sem apelar a nostalgia extrema, magníficos “crescendo” instrumentais, arranjos distorcidos e sujos que resgatam o turbulento cenário pós-punk e mais uma série de características que enriquecem uma musicalidade madura e bem construída.
Ao contrário da maioria dos discos duplos, “The Octopus” não caí na megalomania de bandas maiores, sem apelar a grandes excessos, atingindo poucas inconsistências musicais que eventualmente ocorrem.
Os principais problemas surgem em alguns momentos incidentais, quando a base ou o tema tornam-se deveras enjoado, aspecto esse intensificado por certas marcações marginais do baixo, cujo uso é um tanto instável: se por um lado seu legato é primoroso, moldando belos contrastes à guitarra, por outro algumas de suas linhas soam repetitivas e insossas. Os flertes mais descarados ao neo-prog também não me agradam, como ocorre numa das faixas mais enaltecida pelos fãs “Minion´s Song”, mas de modo geral, o que temos é uma gravação interessante que prende o ouvinte por duas horas de ecos fantasmagóricos, temas incongruentes, contrapontos angulosos, através de uma intensa viagem instrumental.
Admito que ainda não prestei atenção na lírica do disco, mas me justifico: há muito do instrumental para se analisar.
Os vocais são coesos, flutuando sobre as intensas e imaginativas linhas instrumentais, de modo a formar uma terceira voz que consegue seu brilho, mostrando um trabalho refinado de produção.
No mais, “The Octopus” é um discaço que muito pode agradar ouvintes de variados estilos, até pela mixagem de gêneros proposta em sua sonoridade, que tange aos espectros suspensos de um rock psicodélico moderno até linhas bem pesadas de um metal responsável e bem construído. Sonoridade acessível, com certas sandices instrumentais de menor que tem tudo para se desenvolver (afinal, esse é apenas o terceiro trabalho dessa promissora banda).
Um dos lançamentos de destaque no último ano, que acabei deixando passar. Fortes recomendações, estando inclusive no meu cyber-carrinho da “Amazon.com”. No geral álbum cheio de prós, muito cativante, apesar das pequenas falhas que pouco afetam a audição, salientando principalmente o primeiro CD, que se mostra mais consistente que a segunda parte, um ótimo exemplo pra ilustrar os rumos que o “bom” rock tem tomado.


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