terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Análise de Discos: Disco Volante (1995)



Mr. Bungle é um dos meus grupos favoritos e ainda sim, acredito que não consegui atribuir suficiente destaque a sua personalidade. O fato é que muita gente não está apta a ouvir e entender a sonoridade do grupo, pela demonstração livre de experimentos extremos e insanos, sendo de certo modo, também muito aprazíveis e divertidos. Mr. Bungle é uma banda que deve agradar – e muito – aos fãs de Frank Zappa, Captain Beefheart, The Residents (que em breve deve surgir pelo blog) e de outras sandices musicais.
Para quem desconhece, o grupo em questão surgiu dos delírios da mente de Mike Patton, mais conhecido por sua participação no Faith No More. De fato, o Faith No More, já é em si um projeto interessante, compreendendo um “pop” nada tradicional, com doses razoáveis de experimentalismo. Nada, se comparado aos três excepcionais discos lançados na década de 90, por Patton, Trevor Dunn (hoje com John Zorn), Trey Spruance e Clinton McKinnon.
Mr. Bungle é dono de uma sonoridade volátil, agressiva, que amalgama estilos de música variados numa massa amorfa de forma brutal, compreendendo das mais pesadas bases de death metal até traços diversos de World Music, tangendo ainda o jazz, ritmos latinos, blues, funk, ska, folk, pop dos anos 80... e por aí vamos. Mas não é só nesse aglomerado que se encontra a “diversão” do grupo, senão em suas letras cáusticas, as virtuosas performances instrumentais e a instabilidade de suas composições que, em certos momentos, soam até bastante aleatórias.
Dos três esforços, meu favorito é “Disco Volante”, uma notável epopéia musical que facilmente representa um dos melhores trabalhos daquela década.
Classificar tal disco é complicado, até por suas tendências extremamente experimentais e avant-garde, que incluem subversões em bases de música ambient, metal, jazz, techno e outros estilos incongruentes entre si.
De fato é uma gravação extremamente bem produzida, um marco na cultura mundial e na história do rock progressivo, claro se tomarmos o conceito de “progressivo” em seu sentido mais amplo e literal.
Disco Volante é um clássico para poucos paladares e talvez, justamente por essa faceta anti-comercial e completamente anárquica, retenha um charme impressionante que só realça a qualidade das intrincadas composições presentes por aqui, elevando a musicalidade avant-garde a níveis quase insuperáveis dentro da cultura popular.

1 – Everyone I Went To High School With Is Dead: Uma música extremamente pesada, sobre a base suja de death metal, que transcorre de maneira lenta, apontando ao stoner metal, sem esquecer-se do noise que se faz muito presente. O que mais impressiona por aqui são as constantes desconstruções rítmicas que atropelam o ouvinte em sua busca por qualquer forma de senso musical. A faixa progride de maneira agonizante, capturando quem ouve num ambiente claustrofóbico, de atmosfera improvisada saliente, através dos tropeços da bateria e todos os efeitos lacerantes que se projetam a partir do vácuo deixado pelos vocais flutuantes e brutais que só intensificam ainda mais a experiência. Não é fácil entender o que dizem as vozes conjuntas, mas a letra mostra o dia-a-dia abafado do eu lírico em seu ambiente escolar, finalizando com o cruel destino de seus companheiros ao encararem a vida real.

2 – Chemical Marriage: A música se inicia com os vocais espectrais de Patton que se estendem por uma curiosa base rítmica que aponta a salsa, em contraste a harmonia “circense” do teclado. A faixa modifica-se e adentramos um jazz atmosférico com aproveitamento de cromatismo no baixo, alternando sobressaltos interessantes que eventualmente retornam as bases musicais entre o jazz, salsa e algo de música ambient, que se faz presente em diversos momentos. Próximo aos 2 minutos, o órgão disponibiliza uma roupagem épica e delirante que ofusca tudo que havia ocorrido até o presente momento, antes de retornarmos a inconstância que formula a base da composição. No final a tensão é liberada, reunindo tudo que aconteceu ao longo da faixa.

3 – Carry Stress in the Jaw: Uma das melhores composições do Bungle! Carry Stress in the Jaw sintetiza tudo que o grupo tem de melhor, alternâncias bruscas e ininterruptas, que imprimem zonas caóticas de free jazz, nuances melódicas de fusion, retoques de folk ou até klezmer, colagens de musique concrète e vocalizações esdrúxulas que capturam desde grunhidos, chiados, sussurros, espirros a gritos guturais, frases operísticas, balbucios atmosféricos, entre tantas outras eventualidades. Nesse meio ainda são erguidos riffs lacerantes de trash metal com muito shred, entre aventuras rítmicas que desconstroem bases jazzísticas, relembrando os melhores momentos de Napalm Death, além de muito do punk-jazz. Aliás, é difícil saber onde a música se distancia do humor, seja por suas constantes referências musicais (Patton parece uma espécie de Tarantino da música), incluindo algo de King Crimson como o que é pregado próximo a 2:30. As seções se alternam entre o peso avassalador, sombras lunáticas e surrealistas e vários afluentes de jazz, uma intensa viagem.
A partir dos 4:45 se inicia uma nova faixa (a música secreta, na versão original), ou a segunda parte de uma suíte, como preferirem. Essa segunda metade ainda é mais absurda, com traços de surf-music, linhas melódicas cativantes que apontam ao rock tradicional dos anos 60, riffs de funk salientes e até certas referências as guitarras de Zappa. Os vocais surgem em cadência, assombrando a composição que em outro momento nos traz vocalizes grosseiras e estapafúrdias. É tudo muito divertido e impressionante, seja por certas progressões harmônicas pastosas, seja pelas incursões a passagens percussivas afrocubanas ou até o vômito ao final acompanhado de bongo, inexplicável. Ouça e perceba a liquefação de seu cérebro.

4 – Desert Search For Techno Allah: Uma das faixas mais divertidas do disco, com riffs sintéticos e repetições a lá punk “B” dos anos 80, passagens sombrias, escalas árabes (que intensificam e abstraem do tema da composição), motoriks de música eletrônica, ambientes escabrosos e oníricos, toques percussivos de world music e tudo que há de pior. Por aqui nos vemos numa busca completamente insólita pelo inimaginável, através da geografia local em todo um clima ambient-eletrônico que apontaria a Kraftwerk, Brian Eno e outras entidades que não poderiam faltar. A passagem final é épica e inenarrável, onde o deserto encontra a pompa sintetizada e todo seu noise.

5 – Violenza Domestica: Eu sinceramente não sei descrever essa faixa. Por aqui temos uma introdução sombria, que vai cair num tema trágico cantado em italiano, com passagens de piano e acordeão, refletindo a idéia do tango agrupado a sonoridade introspectiva do mediterrâneo, de certos ares românticos inesperados, com muito caos em seus sons randômicos que se projetam até o surgimento do tango propriamente dito. É o máximo!
Violenza Domestica retrata um experimento interessante interagindo frases incompreensíveis fora de contexto ao noise de diversos efeitos eletrônicos, de modo a fugir completamente do parâmetro de uma melodia tradicional. É possível se dizer que se comporta até como uma experimentação eletroacústica, mas do mesmo modo tudo pode muito bem ter sido incidental, de toda a maneira, o impacto adquirido é fantástico.
A guitarra dos últimos momentos contrasta com tudo que já foi feito, exaltando o peso das frases finais: “perche la tua lingua e' mia, mia, MIA!”.

6 – After School Special: Essa soa bem trivial em seu início, com passagens clichê de órgão que se desenrolam em momentos mais interessantes, de ares épicos, aludindo a frases de guitarra de progressivo, timbres escuros nas cordas e alguns elementos específicos que engrandecem sua natureza. A segunda parte é extremamente perturbadora e cruel.

7 – Sleep (Part III): Phlegmatics: Outro dos grandes momentos do CD. O inicio poderoso traz a destruição numa veia punk-metal, com grande destaque a bateria e guitarra. O cenário se modifica e o baixo enuncia acordes introspectivos em completo desacordo com a delirante e sombria frase de guitarra e os vocais com algo de... Frank Sinatra. A bateria torna tudo ainda mais incompreensível em sua base angular que desconstrói o senso musical. À frente surgem clarinetes empregando dissonância, sobre ruídos aterrorizantes e a percussão marcial, antes de mais berros estridentes que eclodem num cataclismo de noise. Insano e fantástico, algo de King Crimson por aqui, também.

8 - Ma Meeshka Mow Skowz: O inicio é bem sombrio, subvertendo o próprio clima circense emanado por algumas harmonias do Bungle. A percussão surge e com ela o tema de órgão que se estende em uma sequência de variações insanas, que aparentemente perseguem um mesmo intuito. Algumas síncopes jazzísticas, seções rítmicas metálicas e muito ruído acompanhando as inexplicáveis experimentações vocais de Patton, em um de seus momentos mais inspirados do disco. A faixa denota um clima meio funky, com atraentes esquizofrenias no sax. A parte final é a mais surpreendente, da primeira vez que ouvi quase caí da cadeira.

9 – The Bends: Essa é a faixa que define o disco e todo seu estilo experimental. Por aqui transcorrem 10 minutos de sandices sobre música ambiente, com algumas camadas instrumentais atiradas por cima, incluindo temas distorcidos de guitarra, alegorias de teclado, gemidos vocais que vão adulterando aos poucos os cenários concebidos. Ocorrem ainda algumas sincopes, com passagens jazzísticas e o tradicional “walking bass”, além de mais experimentos eletrônicos, certa aproximação a psicodelia de Pink Floyd em Meddle e um clima subaquático que me lembraria a “terror noise music” de Jean-François Pauvros (sim, é um guitarrista minimamente conhecido, mas ainda sim...). É caótico, aleatório, denso e sufocante, em seções espectrais que assombram a mente do ouvinte por longos momentos.
Um estandarte de música ambient que enunciaria um pouco do trabalho de Patton a ser realizado no Fantomas, muito conteúdo para abstração.

10 – BackStrokin: A melodia é cativante, com boas levadas de baixo acompanhadas dos ambientes propiciados pela voz e teclado que mantém algumas sequelas de “The Bends”, referindo-se ainda a vários estilos musicais, incluindo surf-music e um doo-woop obscuro, antes do retorno abrupto a ambient music.

11 - Platypus: Uma das composições mais complexas do disco. O começo retorna a um pesado e distorcido riff de guitarra que nos traz ao metal. Mas logo a estrutura se altera, montando intrincadas alternâncias rítmicas com algumas inserções melódicas incidentais. O baixo desenvolve então um tema bluesistico, que sofre diversas mutações conforme novos elementos são aderidos a sonoridade, com espetacular destaque ao uso dos sopros, quase sempre ásperos e agressivos, contrastando com a performance vocal condensada que por sua vez destoa da base semi-jazzística em momentos. Muita instabilidade com nuances de jazz e bossa nova que logo evoluem em estruturas rítmicas a lá Gentle Giant. O final é cheio de referências culturais, colagens acidentais caóticas e muita acidez que culmina no mesmo riff distorcido inicial.

12 – Merry Go Bye Bye: Abre-se com um pop ordinário setentista, daqueles que Zappa adorava subverter. E logo mais, é isso mesmo o que faz o Bungle. Caímos então num vórtex de grindcore, death metal,  com diversas inserções caóticas de música eletrônica, constituindo um avant-death-techno-metal”. A atmosfera de tensão é mantida, mas o cenário se dissolve gradulamente, gerando novos tipos de cenários, em improvisadas bases rítmicas, aliados a pausas que evocam cataclismos sonoros e muitos efeitos randômicos. Um caos total, pelo prazer de experimentar. O death metal retorna com suas esquisitices sintéticas até esvair-se numa atmosfera calma e prazerosa disponibilizada pelos vocais apaixonantes de Patton. Em “Merry Go Bye Bye” há outra “faixa” secreta, dessa vez uma série de experimentos sem pretexto, é barulho, mas não deixa de ser divertido.

O mais interessante de “Disco Volante” é que a gravação não propõe absolutamente nada! Deparamos-nos com mais de uma hora de experimentos completamente insanos, sem nenhum pretexto para existência. Obviamente é possível se extasiar com a maestria de certas construções, afinal ainda existem melodias caprichosas que podem encantar o ouvinte, mas a graça real está na sensação de surpresa ocasionada por cada faixa. Em seus momentos descabidos, aleatórios que trazem desde as mais complexas estruturas rítmicas, até a falta de sentido musical, onde elementos completamente opostos confluem sem nenhuma razão aparente.
A maestria de Disco Volante está no conjunto, o virtuosismo solo torna-se desimportante (consigo me lembrar somente de uma parte solada de baixo, que soa mais como uma piada com o “jazz de elevador”), enaltecendo-se então o efeito catastrófico gerado pelo conjunto.
Uma maravilha experimental que ainda muito demorará a ser digerida completamente, de longe o disco mais árido para o ouvinte que se vê desafiado a todo o momento, partindo por zonas conflitantes completamente inesperadas. Tudo isso ainda é engrandecido pelo senso cômico, nom-sense das letras, dos vocais e da própria forma de sua música.
Por fim, “Disco Volante” é arte, expressando o simples prazer de transcender toda e qualquer estrutura musical conhecida sem um objetivo superior, ou intenções megalomaníacas.
Extremamente recomendado para qualquer um que se atreva a navegar pelos mares mais extremos da música popular, podendo proporcionar uma experiência única sem comparativos.
No mais 5,0/5,0, obra-prima da música popular.

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