“Se você só pudesse levar cinco discos para uma ilha deserta, quais seriam?” Em minha visão, “Lark´s Tongues in Aspic” seria um deles.
Esse é um dos álbuns mais impressionantes do século XX e também um dos mais importantes. Mas, antes que nos adentremos a sua sonoridade extremamente complexa e magnífica, é preciso considerar uma série de fatores importantes para o desenvolvimento do trabalho.
Após o grande clássico progressivo de “Islands”, Robert Fripp parecia insatisfeito, tendo tido uma relação conturbada com o letrista Peter Sinfield. Para a gravação do próximo disco um novo line-up seria convocado: o baixista John Wetton da banda progressiva “Family”, o violinista David Cross, o baterista Bill Bruford recém saídos das sessões de “Close to the Edge” e por fim o percussionista experimental Jamie Muir.
Nesse novo trabalho, a banda rompe completamente a estética padrão do rock progressivo mainstream propagado pelo próprio Crimson no final dos anos 60. Até então, a banda demonstrava certas doses de experimentalismo em suas composições, incluindo flertes ao free jazz, mas nada se compara ao que surgiria a seguir.
Em “Lark´s Tongue In Aspic”, Robert Fripp guia um ambicioso projeto que une diversos elementos da música de vanguarda que vão do jazz fusion, a música de câmara de compositores como Bela Bártok, apropriando-se do uso do noise para a fabricação de suas melodias, relembrando algo dos experimentos eletroacústicos de compositores como Ligeti (vide Artikulation).
Para gerar essa massa vanguardista, seria preciso se tomar algumas providências. Bill Bruford tinha em sua base toda a forma grandiosa do prog sinfônico do Yes, além da técnica perfeita pela qual se tornou conhecido. Eis que surge na cena Jamie Muir que veio mostrar a Bruford como experimentar com parâmetros jamais vistos, atirando o virtuosismo pela janela. O próprio Bill afirma que Muir influenciou muito seu estilo de tocar e sua visão de música, sendo consequentemente o elemento chave do álbum.
Desse caldo borbulhante de idéias surge “Lark´s Tongues In Aspic” que ainda contaria com o letrista Richard Palmer-James, sobre quem falarei mais ao longo da resenha.
Por fim, uma pequena curiosidade: o título do disco é uma referência culinária proferida por Jamie Muir. “Lark´s Tongues” é um prato refinado, normalmente consumido pelas camadas mais altas da sociedade inglesa, enquanto “Aspic” é uma espécie de geléia salgada muito popular no país. Muir provavelmente quis expor os contrastes do disco: entre o simplório e o majestoso ou entre a delicadeza e a densidade.
Aspecto esse, comprovado pela própria arte da capa, onde os mais antagônicos elementos de nossa cultura surgem entrelaçados.
Aspecto esse, comprovado pela própria arte da capa, onde os mais antagônicos elementos de nossa cultura surgem entrelaçados.
1- Lark´s Tongues in Aspic, part 1: Um dos melhores momentos do disco e de toda a carreira da banda! Inicia-se com o tamborilar sinuoso da marimba, em seu tema minimalista (é inevitável, até a escolha do instrumento aponta a Steve Reich), por onde surgem os sutis toques da percussão que aos poucos vão preenchendo o ambiente, de uma natureza modesta, de certos ares descontraídos, progredindo vagarosamente até engolir por completo o fraseado da marimba.
A partir daí a faixa toma outros rumos, o agonizante tema de violino é moldado, em seu uso escuro que abre espaço para a revoada da guitarra de Fripp que flutua incongruente, ao lado da percussão cada vez mais desenfreada, antes da explosão do tema que se desenvolve através de linhas de baixo possantes e distorcidos e gritos histéricos de guitarra, relembrando todo um ambiente de frenesi e tumulto.
Mais a frente um dueto atarefado entre guitarra e baixo, em suas frases esquizofrênicas divergentes, ladeados por tropeços percussivos de uma seção rítmica propositalmente desorganizada. O violino eletrificado faz sua entrada e logo o tema entra em metamorfose, enquanto o baixo surge como voz principal, através de seus efeitos musculosos que roubam a atenção do restante da faixa.
A confusão se dissipa, enquanto o violino se ergue imponente em suas frases melancólicas, acompanhada por tímidos tilintares percussivos acidentais, que logo apontariam a meditação oriental, de modo sutil, emanando certa nostalgia.
O tema agressivo retorna com certas variações, antes que a faixa se estabeleça nos contrastes etéreos do violino e mellotron, ladeados por delicados arpejos de guitarra que encaminham a composição a seu final, novamente em sensoriais pigmentos da percussão.
Uma jornada épica através de 13:35 de música da mais alta qualidade, relembrando temas pesados da música de câmara, principalmente nos timbres escuros escolhidos.
Conteúdo para abstração é o que não falta, mas acho que essa é uma faixa sobre contrastes, sobre momentos temporais e suas alternâncias. Dentro desse contexto, relacionamos nossa cultura que pode atribuir a composição proporções gigantescas, afinal de certo modo em “Lark´s Tongues In Aspic” sinto a “evolução” do modo de vida humano, desde o ar mais compacto e despreocupado do campo, até o peso, os tumultos e as extravagâncias do ambiente urbano pós-moderno, passando pelos grandes cataclismos que separam esses dois cenários.
Viagem? Talvez, criem suas impressões.
2 – Book of Saturday: Uma faixa muito bela, incluindo o tema inebriante da guitarra em seus celestiais harmônicos, ladeados pelo impressionante vocal de John Wetton que eventualmente abre espaços para contrapontos entre os instrumentos solo. “Book of Saturday” retoma uma aproximação ao rock progressivo tradicional, apesar dos experimentos na escolha de timbres e o charme cativante da progressão harmônica mágica de Robert Fripp.
Em minha visão, letra fala sobre a face mais crua dos relacionamentos, apontando a fraqueza do homem que acaba construindo uma série de mentiras que sustentam sua necessidade de contato.
3 – Exiles: Mais doses de experimentalismo, agora num momento atmosférico, meditativo, através de mantras instrumentais grandiosos que se formam através de efeitos eletrônicos e orgânicos que provavelmente influenciariam a estrutura do pós-rock de bandas como “GY!BE”. Os pilares de música ambient logo são substituídos pelo clima pastoral, emanado pelas frases limpas de guitarra e a melancolia do violino.
A imponência orquestrada retorna, alternando os dois momentos (mais contrastes), relembrando sempre o espetacular tema sinfônico. À frente, flautas passeiam sinuosas conforme a faixa progride, nos contando sobre as conclusões de um eu lírico que aparentemente resolveu se afastar da sociedade. Próximo ao final um solo intimista de guitarra.
4 – Easy Money: Inicialmente, um tema mais distorcido, sobre uma constante base rítmica, em intenso trabalho de baixo, margeado pela percussão aquosa e o timbre sujo da guitarra. Nessa faixa se pode perceber o uso intercalado de instrumentos reais e sons eletrônicos criados que confluem para gerar as melodias. Aqui se percebe algumas passagens pesadas, certas desconstruções rítmicas, retoques de jazz-fusion, sandices percussivas (cortesia de Jamie Muir) e entalhes de musique concrete. A progressão é bem legal e existem diversos elementos sonoros a serem observados, através de uma roupagem bem sarcástica (o tema fala de uma prostituta, ou algo equivalente).
5 – The Talking Drum: Outro dos melhores momentos do disco, até por seu teor experimental. Alguns efeitos abrem espaço para a percussão tangente a World Music, por onde as vozes se projetam, configurando elaborados contrapontos que geram diferentes impressões no ouvinte. Entre os ecos de mellotron e a linha melódica do violino, se instala o baixo em suas eventuais variações que desconstroem a rítmica da composição. A faixa vai crescendo aderindo novos timbres, sobre a mesma base, tornando-se cada vez mais pesada e claustrofóbica. O modo como o movimento evolui aponta a temática explorada por Ravel, que já havia dado as caras em composições anteriores do grupo. Em seu ápice, a aridez da guitarra, as sombras do violino, os efeitos eletrônicos, as colagens de musique concrete e a sessão rítmica confluem de modo a criar uma massa extremamente densa que explode num ruído lacerante e uniforme que nos guia a faixa seguinte.
6 – Lark´s Tongues In Aspic, part 2: Agora emerge a pesadíssima frase de guitarra que enunciaria os álbuns futuros do Crimson. Nesses primeiros momentos muito groove e vigor, emanado da gravação extremamente potente dos timbres que se mesclam de modo a se aproximarem do heavy metal (influenciando muito o metal progressivo, como sabemos). A percussão é histérica atacando impiedosamente a mente do ouvinte, ao lado dos trovejantes temas de guitarra. As passagens ainda se intercalam a frases esquizóides de violino, acompanhadas de muito caos sonoro, incluindo cáusticos momentos solados com requintes de um free jazz sádico, culminando num “terror noise metal”, indizível, inexplicável.
Após a devastadora bordoada de peso e imponência, se ergue uma explosão sonora em desordem consistindo ao clímax do disco. Os efeitos etéreos que restaram conduzem a gravação a seu final.
Não consigo afirmar com certeza que esse é o melhor disco da banda (afinal o Crimson ainda nos disponibilizou uma série de grandes trabalhos), mas está, sem dúvida nenhuma, entre um dos maiores. Em “Lark´s Tongues In Aspic” o grupo mostra uma sonoridade madura que atinge muito bem seu objetivo, experimentando desenfreadamente, sem medo de errar.
Os instrumentistas estão afiados e não há um só destaque no disco: John Wetton esmerilha seu baixo em temas bombástico e frases angulares, repleta de efeitos de bom gosto; Robert Fripp é Robert Fripp, distorções bem medidas, temas corrosivos, revoadas experimentais, frases abissais e certa dose de introspecção e beleza em momentos chave; Bill Bruford é impecável como sempre, possibilitando estruturas rítmicas estonteantes (aliás, o trabalho percussivo do disco está entre seus elementos mais fantásticos); David Cross, com seu estilo de tocar contemporâneo e diabólico, adere camadas instrumentais eficazes que enriquecem muito o conteúdo melódico do disco; enquanto Jamie Muir mostra-se a “cereja do bolo”, contribuindo para as construções (e aniquilações) rítmicas e com a maior parte das doses de experimentalismo.
Nesse álbum, o grupo passa por uma série de sonoridades confrontando em diversos momentos seus próprios limites, numa gravação que reúne heavy metal, jazz fusion, música erudita, rock progressivo, algo de world music e até o sentimento simplista da música folk.
Um grande clássico de muito impacto na cultura popular, tendo possivelmente influenciado gêneros importantes como o metal progressivo (e seus afluentes mais extremos), pós-rock, o movimento de RIO e mais uma série de tendências vanguardistas.
Em “Lark´s Tongues In Aspic”, o King Crimson ainda demonstra uma postura inovadora, comportando-se como uma real “orquestra de rock”, disponibilizando pelo menos cinco clássicos absolutos (Book of Saturday é uma grande faixa, mas no geral está mais próxima ao progressivo tradicional que pouco agrega a gravação, apesar de sua estrutura interessante, em excelentes contrapontos).
Um dos discos obrigatórios numa discografia de respeito, marco na cultura popular mundial.

Gostei muito da sua análise e da escolha, "Larks...", "In The Court..." e "Discipline" são grandes discos!
ResponderExcluirAbrax!
Agradeço as palavras amigo e desculpe a demora na resposta, em breve o blog voltará
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