sábado, 12 de fevereiro de 2011

Aranis - RoqueForte (2010)



Após algumas pesquisas me deparei com o projeto belga “Aranis” que segue as tendências do “chamber rock”, derivado de algo do Rock In Opposition.
A referência óbvia seria o Univérs Zero, que compartilha estilística e nacionalidade. De fato, alguns elementos de sua sonoridade podem ser encontrados por aqui, principalmente no que diz respeito à forma e instrumentação, no entanto, Aranis reproduz uma musicalidade mais fluída que se baseia na avolumada abrangência harmônica, gerando desse modo, telas vívidas de certos ares românticos que afastam as pesadas atmosferas propostas pelos melhores momentos de seus conterrâneos.
Segundo constatei, até o presente momento já foram disponibilizados cinco discos de estúdio. Desconheço seus trabalhos anteriores, mas tenho passado um bom tempo ouvindo seu último esforço em “RoqueForte”, do ano passado.


O clima do disco é predominantemente acústico, com algum uso de guitarras incidentais que pouco agrega as composições.
O foco criativo recaí sobre o baixista Joris Vanvinckenroy, que produz algumas dinâmicas interessantes, principalmente relacionadas a compassos como 5/4 e 5/8, refletindo a estruturação atípica que aponta diretamente as construções do folk do leste europeu.
Justamente, essas nuances da música folk surgem muito salientes em suas composições, seja em suas estruturas rítmicas, seja no uso de escalas e harmonias que progridem sobre a lógica típica da região oriental da Europa, relembrando ainda um toque do klezmer que apontaria ao rock de câmara do próprio John Zorn.
Sobre essa base folk é projetada a roupagem de música de câmara, que recebe influências de diversos nomes, ressaltando Dvorak, na associação óbvia da premissa de unir a simplicidade folclórica à complexidade da música erudita; Ravel, em certos momentos de congruência melódica que surgem de suas obras mais famosas e Stravinsky pela maneira afiada como são apresentados os contrastes, sem falar dos outros “russos românticos” que surgem em momentos de maior sutileza e inspiração.

A premissa é bem interessante por si e a execução não decepciona. Podemos nos deparar a cenários complexos, com diversas vozes sobrepostas em bases angulares que evidenciam a qualidade do grupo ao todo, sem apontar a grandes destaques individuais.
O duelo entre as vozes principais, que normalmente se intercalam entre flauta, violino e viola recriam momentos adocicados e introspectivos partindo de encontro a passagens agressivas, em ataques contundentes auxiliados pela percussão sensorial e linhas de baixo pontilhadas que guiam o grupo nos moldes de uma orquestra sobre a base harmônica dividida entre piano e o próprio acordeão que ainda reproduz seus momentos melódicos.

As faixas são muito bem compostas, aderindo texturas graciosas e voláteis que modificam seu aspecto em poucos segundos, desenvolvendo temas diversos no mesmo espaço, de modo a interagir de maneira ágil, capturando o ouvinte numa arquitetura movimentada e intrigante, seja por seu clima elegante, ou pelas nuances de mistério exaladas pelo toque oriental (em momentos, há até certa aproximação ao flamenco).
Em contrapartida, Aranis, ainda molda certas passagens de instinto bélico, em harmonias pontiagudas que dão espaço para construções mais pesadas e cataclísmicas como na catarse total de “Tissim”, num dos melhores momentos percussivos da gravação, por onde flutuam melodias imponentes, com óbvio destaque ao acordeão.  

Em “RoqueForte” ainda é possível se sentir certo flerte com a música ambient, de maneira condizente a realidade do disco, como se é notado nas passagens de “Ade” em seus vários momentos, de apelo mais denso, atmosférico, sem a mesma complexidade musical de outras faixas.

O grande problema está na extensão do CD que, após quase uma hora proveniente do mesmo foco de inspiração, começa a soar cansativo, ofuscando o brilho de algumas excelentes composições como as mais longas “Noise” e “Naise” que apenas se aproveitam de conceitos previamente explorados.
Sendo assim, o clima intrigante e desafiador se esvai e após a audição completa da gravação, o ouvinte mais atento já será capaz de digerir a sonoridade sem grande desconforto.
Numa gravação de prolongada extensão, esperaria um apelo criativo maior, em experimentos mais expansivos, além de mais possibilidades a serem exploradas, pois as presentes já soam muito bem traduzidas. “RoqueForte” me deixou a sensação de que Aranis é uma banda que precisa evoluir musicalmente, arriscando-se a romper, com maior intensidade, sua própria zona de conforto para criar algo mais único e marcante do que o trabalho apresentado.
Ainda sim, é um álbum muito agradável de ouvir, principalmente àqueles interessados nesse tipo de música através de uma resposta mais acessível, sendo indicada, desse modo, a todos que buscam uma porta de entrada a “assustadora” (pelo menos a primeira vista) forma do chamado “rock de câmara”.
Aranis é sim interessante, podendo cativar o ouvinte por horas a fio, principalmente pela beleza artística transparecida em suas composições, mas ainda soa de certo modo “juvenil”- e realmente é, afinal o grupo deve ter pouco mais de cinco anos - para todos aqueles que já passaram por bandas como Univérs Zero, Present e até Thinking Plague.

Apropriando-me do sistema de avaliações do “Progarchives”, como pretendo fazer também nos posts que virão, “RoqueForte” ficaria com 3,0/5,0, bom, mas ainda muito distante do essencial.
Esperemos, então, pelo desenvolvimento e amadurecimento dessa promissora banda belga em gravações futuras.

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