segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Gordian Knot
Seguindo a recomendação de meu caro amigo Lucas Rodrigues, importante colaborador e amigo do blog, passei o fim de semana ouvindo o side-project de Sean Malone, baixista da banda de metal "interessante", "Cynic".
Para esse projeto, o fantástico instrumentista contaria com a participação de músicos renomados, incluindo nomes como Bill Bruford, Steve Hackett, Trey Gunn e John Myung (baixista do Dream Theater), só para citar os mais famosos.
O que esperar então desse trabalho?
Serei sincero: o primeiro CD, homônimo, soa muito mais sólido quando comparado ao lançamento seguinte e ainda sim, não foi algo que muito me prendeu a atenção. A banda é legal, grandes instrumentistas que produzem um trabalho afiado, mas tive um sentimento único: as influências são muito visíveis, portanto soa como "mais do mesmo".
Partindo para a ordem inversa, falarei inicialmente do último trabalho surgido do projeto, "Emergent" de 2003. A premissa é interessante, elaborar um jazz-fusion direcionado ao heavy metal, mais ou menos na linha do que faz o Cynic. Na prática a história é outra: o fusion que agregam me soa muito clichê, as progressões harmônicas por ali montadas me apontam as mesmas utilizadas exaustivamente por bandas mais antigas, enquanto as bases de metal tem alguns momentos interessantes, desconstruções ritmicas bem feitas, mas nada muito surpreendente. As guitarras são descaradas: se por um lado temos o contraste tangível de Belew/Fripp, por outro emerge muito de David Gilmour e até Gong, nas passagens mais voltadas ao space rock, que dão sua cara em momentos-chave. O trabalho de baixo é fantástico (apesar da proximidade com Jeff Berlim...). Em suma, um amálgama razoável de boas influências que vão de Béla Fleck até King Crimson.
Agora sobre o debuto de 99, "Gordian Knot". Esse parece ter muito mais substância, principalmente pelos retoques de world music na percussão, construindo um setor ritmico realmente impressionante.
O timbre retirado dos instrumentos também é muito interessante, moldando melodias de ares modernos que pouco apontam a bandas "progressivas" mais antigas, apesar de alguns relances que, ainda sim, não soam exagerados ou desrespeitosos. Há certas aproximações ao som do Mogwai (ou a algo que desenvolveria o post-rock), sendo possível também se identificar maior influência de música clássica. As harmonias apontam diretamente a Bach (assim como as estruturas de contraponto, com reminiscências ainda de Gentle Giant, vide "Redemptions´Way", por exemplo), que foi inclusive re-lido na assustadora faixa 7. Eu não sei se sou purista, mas tenho um problema com essas releituras deveras extremas... a gravação do Stick Men (de Tony Levin) da "Firebird Suite" já me soou "ofensiva", e essa versão de "Komm süsser Tod, komm sel'ge" também não agradou. A música clássica está em domínio público, então estou pra incentivar seu uso, mas por favor não matem sua essência!
As frases que ilustram maior peso soam mais honestas e realistas se comparadas ao segundo lançamento, contrastando muito bem com as diversas camadas que constituem a sonoridade. Os toques do folk oriental (inclusive nas já nem tão incomuns, mas ainda divertidas estruturas ritmícas) trazem algumas escalas que fogem ao lugar comum dos eventuais modos de heavy metal (com toda aquela história de shred). O trabalho de baixo é ainda mais avassalador, até pelo controle maior dos impulsos de fusion, construindo espetaculares pisos pra sonoridade que mantém a tensão promovida por certas disputas das guitarras, sendo capaz ainda de soar à maneira fluído, sem aqueles estalos incongruentes eventuais dos baixos "metálicos".
Outro detalhe é o uso do Stick que mais uma vez é sensacional, em alguns momentos eu não consigo dicernir quem faz o quê, realçando o grau de complexidade das entrelaçadas melodias que partem desde o estado de animação suspensa, em atmosferas sutis até o caos sonoro promovido pelas passagens mais furiosas. O conteúdo instrumental é fascinante, excelente uso de todas as cordas (que transbordam pelo disco), modelando certos momentos levíssimos de flutuar espectral, que apontam a sonoridade mais onirica de Canterbury.
A base, em fim, é claramente o metal progressivo, incluindo construções similares ao Dream Theater, com adição de nuances interessantes que resgatam tudo que citei. De modo geral, é bem legal, mas sinto a carência de mais experimentos, mais inovações, algo ainda mais extremo.
Considero "Emergent" um disco fraco que não merece muita atenção, enquanto o primeiro pode empolgar pela excelente fonte de inspiração e as perspicazes construções instrumentais. Recomendado principalmente para os fãs de Sean Malone, ou mesmo do King Crimson que parece encontrar mais uma de suas "falanges perdidas".
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Olá Lucas,
ResponderExcluirTambém não sou muito chegado no Emergent, ele me parece repetitivo. Quanto ao primeiro álbum, discordo de você em alguns pontos.
Embora veja uma semelhança entre a segunda fase do Cynic e este, não a vejo entre o death/tech que marcou o Focus (com exceção, talvez, de textures).
Fora isso, a regularidade do álbum todo é justamente o que me atrai. Não se trata de um trabalho revolucionário ou algo assim, mas uma proposta, por mais que extremamente técnica, simples, sem os floreios e lugares comuns do metal progressivo.
Mesmo estando muito proximos deste genero (que na maior parte das vezes considero um tédio) eles conseguiram convergir diferentes influencias e fazer um som, uma experiencia, nova, quando a maior parte de bandas com propostas semelhantes caem no mesma estrutura limitada de "Dream theaters".
Ah, ótima resenha sobre o Larks, me rendeu uma boa revisitada.
Abraço
Olá Lucas,
ResponderExcluirEu acho que me expressei mal, mencionei o Cynic justante na parte em que falo do Emergent. O disco título reflete bem o que você falou, uma banda de metal progressivo que foge dos lugares comuns chatérrimos de Dream Theater, apesar de compartir algumas semelhanças. Não achei ruim, se deixei transparecer peço desculpas, só quis dizer que esse tipo de trabalho não me atraí tanto pela ausência de ditas "revoluções", mas ainda sim é interessante pelas construções ritmicas com retoques de música oriental, as escalas heterodoxas muito bem utilizadas e principalmente pelas camadas instrumentais, pelos dialogos dos instrumentos de corda que são fantásticos, é a mesma linha de Stick Men, sabe, é bom só pelo fato de ser (é foi confuso...)
Peguei pesado com "Emergent" por possuir Bruford e Hackett no elenco e ainda sim soar insosso, isso tá errado!
haahhaha
Abração Lucas, fico feliz que gostou da review de Lark´s Tongues
muito Interessante!
ResponderExcluirBirasblog, fico feliz que tenha gostado e aguarde que mais postagens nessa linha estão por vir!
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