Diretamente da Finlândia emergiu um dos projetos progressivos mais fascinantes dos anos 90, Höyry-Kone, espécie de síntese de tudo de bom que havia transcorrido pelo estilo, adentrando-se a uma vasta gama de modernidades.
Sua vida foi curta, somente dois espetaculares álbuns datados de 95 e 97 respectivamente, brotando entre personagens mais icônicos como Anglagard ou Anekdoten. Höyry-Kone mescla a elegância do progressivo setentista, duelos guitarrísticos Crimsonescos, música de câmera contemporânea, ritmos de world music, trash metal, folk oriental e algo do rock psicodélico de outrora, numa massa sonora intrincada e desafiadora.
Não é difícil em suas composições nos depararmos com riffs rasgados, melodias disformes em bases harmônicas muito originais que resgatam eficazmente a beleza passada, adornando-a com entalhes originais, em especial por seu uso particular da orquestração da música de câmara, destacando-se principalmente a personalidade sombria de cello e oboé, que transbordam de maneira vertiginosa por suas muralhas instrumentais, encaixando-se perfeitamente a temática de RIO.
Escutar os trabalhos de Höyry-Kone é um deleite para os ouvidos, em seu desenvolvimento convulso que aborda desde bases de heavy metal a coros de zeuhl de clima escurecido, contrastando às doses de humor que eventualmente surgem acidulando suas composições.
O grupo se destaca justamente, pela singularidade de suas obras que absorvem tendências até inovadoras, em suas construções repartidas, em constantes alternâncias de tempo e ritmo, por onde discorrem frases obliquas e, até certo ponto, muito agressivas, como não poderia faltar a um grupo nórdico, que não nega sua origem, como comprovam as radicalizações dos modos gregos que se fundem, liquefazem e flutuam de modo a criar fraseados delirantes, capturando a tensão exalada pelas potentes bases do baixo em slap (em um dos melhores usos que vi) e os vanguardismos do cello.
De fato, Höyry-Kone anteciparia em pelo menos alguns anos as tendências que se moldariam no “rock interessante” de hoje. Grupos contemporâneos como Gordian Knot e mesmo Cynic, devem muito as elaboradas texturas disponibilizadas pelo grupo finlandês, que ainda sim, com um pouco de atenção demonstra sua admiração pelo Crimson. Mas afinal, quem não gostaria de tocar como Robert Fripp?
Tais referências não chegam a incomodar, até por um senso humor nom-sense que resgata magistralmente Samla Mammas Manna e Frank Zappa, sobre uma atmosfera bucólica do leste europeu, tema recorrente de quem explora experimentos sonoros.
Fazendo uma rápida análise podemos passar por seu debuto, o fantástico Hyönteisiä Voi Rakastaa, um desafio a qualquer ouvinte. De fato, mesmo após consecutivas audições, ainda soa surpreendente e novo, demonstrando muito conteúdo a ser analisado. O trabalho é uma experiência violenta a qualquer um que não esteja inserido na esfera do chamado “avant-prog” (termo estranho, diga-se de passagem), trazendo instrumentação sólida calcada nas esquizofrenias guitarrísticas, baixo potente e as multifacetas da bateria, que eventualmente encontram os ornamentos de cello, violino, oboé e teclados incidentais que só engrandecem a natureza melódica da gravação.
O trabalho está cheio de momentos brilhantes, reunindo relações harmônicas interessantes, desmantelamentos rítmicos, contrapontos aguçados, carregando atmosferas sombrias, até melancólicas e introspectivas em momentos.
Entre os grandes destaques se pode citar “Hämärän Joutomaa”, “Myrskynmusiikkia” e “Kosta”, que se sobressaem devido à complexidade de suas construções e os fantásticos elementos empregados. A primeira inicia-se em camadas vitrais translúcidas que apontam imediatamente ao Crimson New Wave, em uma versão mais encorpada, incoerente que logo dá lugar a base harmônica quase banal por onde se projetam diversas nuances, e por fim tudo se desfaz de maneira abrupta, adentrando-se a momentos de peso e claustrofobia agonizante.
A segunda é um exagero de técnica, condecorando, em seu vocábulo, contrastes belicosos, que apenas engrandecem as sandices da seção rítmica. Enquanto “Kosta” nos traz a estruturação do rock de câmara, com algumas doses do Univérs Zero eletroacústico de “Ceux Du Dehors” ou “Uzed”.
Uma maravilha, obra completa que tange desde um pesado rock deturpado até as mais transcendentes passagens atmosféricas, no mínimo, 4,0/5,0.
Em 97, surgiria então “Huono Parturi”, um disco ainda mais pesado, com composições de maior integridade criativa, em passagens refinadas, de produção cuidadosa.
Esse possuí uma roupagem melhor nivelada, onde os ataques ainda soam estridentes e impactantes, ao passo que mais aprazíveis e conscientes, destacando com maior ênfase os vocais operísticos de Topi Lehtipuu, o que já se é perceptível nas sombras voláteis da faixa introdutória.
O fato é que “Huono Partiri” é uma obra-prima, que compreende alguns dos melhores momentos do avant-prog, em suas composições intrincadas que traduzem artifícios dos mais extremos. O grupo soa mais maduro, construindo ambientes caóticos verossímeis e ainda mais cativantes, que encantam pelo alto nível de insanidade que abraça o ouvinte.
Entre minhas favoritas destaco “Terva-Antti Ku Häihin Lähti”, de uma dinâmica impressionante, onde num mesmo momento diversas extravagâncias tomam parte, desde a base agressiva de baixo/bateria as vozes que se emolduram sobre temas pontilhados de guitarra, criando timbres secos e únicos que surpreendem o ouvinte pelo sentimento ao mesmo tempo épico e atormentado. A flauta ganha grande espaço por aqui, mas ainda prefiro o oboé do trabalho anterior.
As faixas seguintes perseguem a mesma lógica em estruturações rítmicas epiléticas que moldam o campo para espetaculares “interplays” entre a aridez das guitarras e a penumbra inspirada das outras cordas, aproveitando-se de dissonâncias muito bem trabalhadas
São encaixados interlúdios alegóricos com referências folclóricas ou à música de diversas partes do globo (algumas escalas árabes se destacam, vide “Kala”), como já apresentado no trabalho anterior (contendo até bossa nova!).
Outro grande destaque a ser citado é “Laahustaja” que une com maestria a música de câmara a uma poderosa e pesadíssima base no rock, em progressões coerentes que saltam como um abstrato e vívido arabesco das profundezas.
Obra visceral, um dos melhores trabalhos dos anos 90, que ficaria em minha concepção com 4,5/5,0, soma espetacular para qualquer coleção de “progressivo”.
Um grupo que precisa ser conhecido, superando inclusive alguns de seus companheiros mais evidenciados pelos círculos de prog, tendo contribuído de maneira fundamental a estética das bandas que surgiriam a seguir, podendo se sentir elementos de sua sonoridade em personagens que vão de Opeth, ao próprio Mr. Bungle. Superlativamente recomendado!



Muito obrigado pelo comentário, Lucas! Também tenho acompanhado seu blog há algum tempo e espero que possamos fazer uma boa troca musical! :)
ResponderExcluirSem dúvidas de que faremos, hehe
ResponderExcluirTudo bom? Como eu faço para baixar o cd se não tem link? O meu e-mail é: wolverine_dinunci@hotmail.com. Desde já agradeço!!!
ResponderExcluirOlá, na verdade o objetivo do blog não é o compartilhamento dos arquivos de mp3 em si, mas você pode procurar em qualquer um dos blogs parceiros, usando o mecanismo de pesquisa, no começo da página... ou usar um programa gratuito chamado "Soulseek", no qual encontrará com facilidade esses e outros discos, podendo, inclusive, efetuar o download de meu próprio usuário... Espero ter ajudado...
ResponderExcluir