Andei meio afastado do blog e acredito que as postagens se tornarão mais esporádicas, principalmente a partir da segunda metade do mês que vem.
De todo modo, trago-lhes hoje minhas impressões sobre o novo CD do Radiohead, “The King of Limbs”. Sei que grande parte do público desse blog cultiva certo preconceito contra a banda e isso é muito fácil de entender: tanto pelos fatores históricos, tanto pela própria personalidade incerta do grupo. Sim, Radiohead começou como uma banda de pop melancólico mainstream nos nebulosos anos 90, estourando com faixas grudentas como “Creep” ou “Fake Plastic Trees”.
Muito passou desde então, surgiu “Ok Computer” e em seguida, discos ainda melhores e mais experimentais. Segundo meu gosto pessoal, o ápice pode ser encontrado no experimento com música ambient (e muito, mas muito mais) “Kid A”, um dos melhores trabalhos de nosso tempo. O seguinte “Amnesiac” segue linha similar e não decepciona.
O fato é que “Radiohead” vem nos surpreendendo e impressionando com misturas corajosos que abrangem música eletrônica, krautrock, rock psicodélico dos anos 60, música erudita do século XX, pós-punk, jazz-fusion e por aí vamos...
Quem esperava de “The King of Limbs” um disco mais voltado às guitarras, como ocorria em “In Rainbows” (no qual pude sentir até influências de “The Doors”), deve ter se decepcionado.
O grupo retorna a seus experimentos diversos, soando agora de maneira mais brilhante, melhor resolvida. A introspecção atormentada dos discos anteriores, se liquefaz em ondas harmoniosas de cadência cristalina, relembrando ecos levemente paranóicos, ressaltando especialmente os contrastes rítmicos e as relações harmônicas, que eriçam o ouvinte de modo galante e inesperado.
A rítmica permanece extremamente precisa, quase robótica, adentrando a compassos quebrados e movediços, como na fantástica “Little By Little”, por onde vemos surgir uma incongruência extremamente tentadora. Aliás, é preciso destacar propriamente o “dégradé” entre as vozes condensadas, que se esparramam em várias dimensões, e a atarefada sessão percussiva de temperos bem familiares. O que ocorre a partir de “3:20” é uma das cenas mais belas e perfeitas da música atual, inenarrável: a sobreposição das notas da lírica instrumental que coincide às espectrais movimentações eletrônicas e a fantástica base em baião!
Como já se é possível imaginar, o desenvolvimento das faixas em muito aponta ao minimalismo, sempre em construções coerentes, trazendo-nos uma enorme porção de drones e motoriks percussivos.
Tudo isso se exprime na faixa mais avant-garde do CD, “Feral”, sem uma melodia constante, por onde vemos surgir e imergir, a linha de baixo de aspecto sintético, sobre a percussão de ares latinos (em alguns momentos se exalta levemente, é sutil, mas fantástico) que guia os efeitos eletrônicos que recortam um cenário impensável, envolvendo o ouvinte, com suas diversas texturas, em uma série de absurdos acontecimentos por todos os lados, muito a se analisar por aqui.
A abertura já é impressionante: “Bloom” traz experimentos com música eletrônica, causando um efeito obtuso entre os ângulos da bateria e do baixo que coincidem de maneira surpreendente, enquanto ao longe ecoam efeitos eletrônicos, por onde trafegam vozes transcendentais, incluindo até uso de sopros, sem afastar-se da estrutura pontiaguda bem delineada (que durante a minha primeira audição, roubou todo o foco). Os timbres vão erguendo-se majestosamente gerando novas impressões, de modo onírico, inebriante.
Efeito esse causado também pelas climáticas “Codex”, em sua suave e refinada harmonia, por onde transcorrem ecos estratosféricos, a voz apaixonada e até épicos ressoares dos sopros que muito bem poderiam fazer parte de “Kid A”, e “Give Up The Ghosts” que usa a manipulação de fitas para gerar o delicado som dos pássaros, originando uma singela atmosfera quase-folk, por onde incidem diversas nuances em cores frias, de beleza inigualável, passando pelo coro etéreo, as frases de guitarra que se esgueiram, os pontilhismos do baixo e a suave harmonia do violão.
O ponto mais “fraco”, assim digamos, fica por conta de “Lotus Flower”, onde a banda demonstra sua faceta mais “pop”, ainda sim, se todo o mainstream fosse constituído de grupos do nível de Radiohead, estaríamos muito bem atualmente.
“The King of Limbs” é um disco sólido e curioso, mergulhado numa atmosfera mais clara e muito menos sombria que a de alguns trabalhos anteriores, restando poucos resquícios de agressividade. Por aqui se ouve mais influências de Miles Davis (como se reflete em Bloom, por exemplo), além de retoques reciclados de sua própria sonoridade, especialmente no uso dos timbres que surgem de maneira homogênea.
Nesse último trabalho, Radiohead disponibiliza uma experiência intensa, talvez nem tão radical quanto lançamentos anteriores, o que não prejudica a qualidade da gravação, onde claramente a banda faz o que gosta, afinal já não precisam provar nada.
4,0/5,0, uma excelente aquisição para todos os fãs da boa música de hoje, que obviamente, não atende a todos os paladares.

Faaaaaaaaaala, Lucas!
ResponderExcluirAntes de tudo, valeu pela visita a O Pântano Elétrico e por tudo o mais.
Eu não poderia deixar de adicionar um link de lá pra cá também, afinal, além de ter gostado bastante da sua Aurora, ainda me deparei, logo de cara, com o Radiohead, uma das minhas bandas top favoritaças.
Voltarei aqui assim que for possível, porque achei muitas coisas interessantes para explorar.
Valeu, meu camarada!
Um abraço.
ML
Ta certo, também estarei sempre olhando o Pântano Elétrico, aliás muito legal o ciclo de postagens sobre Frank Zappa.
ResponderExcluirAgradeço a parceria
Abraço
Tive uma grande surpresa quando vi este post. Gosto muito de Radiohead, mas ando meio "out" ultimamente, não tinha idéia que eles estavam para lançar um álbum.
ResponderExcluirMinha surpresa foi ainda maior depois que o escutei. Fico feliz em saber que o Radiohead ainda é capaz de se reconstruir, ao inves de permanecer estancado, como tantas bandas que surgiram no mesmo contexto.
Ótima resenha Lucas.
Abraço!
Muito bom álbum de fato, pegou de surpresa a todos, avisaram do lançamento cerca de três dias antes. Fico feliz que tenha gostado do CD e da resenha.
ResponderExcluirAbraço