Gostaria de alertar aos fãs desavisados (como eu) do dito rock de câmara, sobre as produções da gravadora “AltRock”, que parece ter se especializado no gênero. Inconscientemente, alguns de seus títulos já transitaram pelo blog, como é o caso de RoqueForte e Iridule, de Aranis e Yugen respectivamente (o segundo merece uma revisão mais cuidadosa, inclusive).
Explorando o rico cardápio disponibilizado no site da produtora, encontrei mais alguns bons exemplares.
Caso do Rational Diet, da Bielorrússia, alvo de nosso post. Após um primeiro contato bem sucedido via vocêtubo, fui atrás de seus mais recentes esforços em “Rational Diet”, “At Work” e “On Phenomena and Existences”. O desenvolvimento de sua sonoridade é claro. O primeiro (de 2007) trazia um grupo ainda tímido e muito influenciado por Univérs Zero e Art Zoyd (em seus primeiros trabalhos), numa atmosfera acústica que já dava claros indícios de sua herança russa.
“At Work” conseguiu prender mais minha atenção, apesar de ainda soar muito próximo dos grandes grupos de RIO de antigamente. Isso se faz claro pelo saliente uso de fagote, com fortes reminiscências de Univérs Zero, pelas guitarras sombrias que apontam diretamente ao King Crimson, sem esquecer da estruturação intrincada que evoca um pouco dos contrastes de Stravinsky ou da música de câmara brutal de Bártok. O disco alterna passagens inspiradas e bem resolvidas a momentos inconsistentes e provavelmente descartáveis. Pouco parece improvisado, mostrando o dote compositivo complexo por parte de todos os membros.
De um modo ou de outro, recomendo-lhes “At Work”, principalmente por faixas como “Closed Case”, “Horse Army” e “Condemended”.
Nesse último trabalho, o grupo afirma influências de Henry Cow, Shostakovich, Stravinsky e Present (que sempre me soou como uma falange do Univérs Zero). Não conheço a fundo o trabalho de Shostakovich, aliás, é um dos compositores que estou para explorar, assim, não comento.
De fato, acho que o grande trunfo dessa gravação esteja nas bases profundamente enraizadas na música erudita, sem a pesada influência do RIO que vinha ocorrendo. O clima é ainda mais acústico, as guitarras perdem um pouco de suas flutuações Crimsonianas, soando mais limpas e cristalinas, o fagote surge num aproveitamento mais autoral, criando temas de um esmero que apontaria aos grandes compositores russos, sendo o mais próximo, talvez, Prokofiev. Ainda sim, a presença de Zero é inevitável, seja em algumas progressões do piano (que surge mais comportado, em ataques suavizados) ou nas grandiosas relações instrumentais arquitetadas.
Mas, se está tão próximo aos conceitos já explorados por outros grupos que compartem a estilística, por quê ouvir Rational Diet?
Essa é a pergunta que tenho me feito nos últimos dias. Na realidade, o grupo produziu algo inédito – pelo menos a mim -, gerado um blend perfeccionista entre o rock de câmara e as intrincadas estruturas do zeuhl. Logo encontramos vocais operísticos (e femininos, ah Koenjihyakkei...), agressivas passagens em multicores e estruturas rítmicas desafiadoras, com um pouco de esforço é perceptível uma aproximação ao Math Rock no que diz respeito ao setor percussivo.
Outro detalhe que chama a atenção são os experimentos tímbricos, onde madeiras parecem soar como sopros, teclas surgem aeradas, enquanto outros instrumentos criam únicos entalhes mixados. Ao longo do CD, é possível detectar alguns desses timbres exóticos explorados pelo grupo.
A produção é excelente, permitindo que os instrumentistas brilhem em igual proporção, afinal o que se nota na estrutura formal do estilo é um detrimento da atuação individual em prol das relações melódicas geradas pelo conjunto. E como tal aspecto consegue emergir brilhante nas contraposições espectrais de cello e violino de “Sleep is Teasing A Man”, que alterna momentos de tensão agonizante em pesados ataques percussivos a um espírito quase cômico, indescritível, nos solavancos entre o fagote e o tema de guitarra.
A próxima, “Human Life in the Wind”, entrega maior destaque as montagens rítmicas incluindo trabalho estonteante da bateria que interage de maneira sobrenatural as inserções ofensivas de violino (aqui sim, com toda a pompa do Zeuhl) e as eventuais “interplays” do piano, cujos padrões ascendentes parecem dominar os conceitos harmônicos da gravação, executando complexas fugas em momentos.
“Somebody In The Spacious Tail Coat” é moldada sobre uma linha de walking bass (providenciada pelo baixista convidado Viacheslav Plesko), em algumas sincopes jazzísticas, que vão direcionar a mais relações interessantes, quando a aparente simplicidade do tema no órgão transita incongruente ao cenário que se forma à sua margem.
A faixa seguinte, “Unexpected Feiertag In Chemnitz”, traz um interlúdio em estilo romântico que muito lembra Focus, soando um pouco menos inspirado, em oposição fervorosa ao conteúdo do restante do trabalho.
A atmosfera onírica retorna em “A Man Went To Sleep” (sugestivo, não?), onde excelentes interplays entre madeiras e sopros dominam um estilo sombrio que homenageia brilhantemente os grandes compositores russos, principalmente o trabalho de Prokofiev.
A essa altura já é possível notar o equilíbrio primoroso entre composições mais voltadas ao erudito e as enérgicas criações direcionadas ao rock, sempre explorando suas possibilidades ao limites. “Chamber Illuminated by the Dark Lamp” traduz um dos melhores momentos da gravação, principalmente pelas relações angulares construídas, onde diversos elementos convergem contrastantes seguindo certa lógica invisível e extremamente complexa. Em seus 1:47 são expressos infindáveis fraseados delirantes com espetacular trabalho de piano e fagote que erguem-se como magistrais elementos antagônicos .
A partir desse ponto a banda surge mais segura, as guitarras voltam a cobrar seu destaque, as passagens tornam-se ainda mais inconstantes e criativas, mudanças de tempo tornam-se frequentes, o violino incide visceral, enquanto as vozes rodopiam gerando o efeito avassalador. Como é sintetizado em “Bet on Marked Card”.
Os dois momentos a seguir surgem um pouco menos inspirados, como o que se é notado em “In the Late Summer” que reflete muito do que já foi até aqui desenvolvido e “Living The Main Life” que traz fortes reminiscências de “Ceux Du Dehors”, do Univers Zéro.
Recuperam-se na fantástica “Private Secrets of Machine” num tênue caminho transcorrido entre o rock e o erudito, trazendo o peso da guitarra distorcida, devastações rítmicas e contrapontos melódicos pontiagudos, como num encontro delicioso entre Gentle Giant e Stravinsky.
“Weimar Period” é uma bela passagem que relembra algo do bucolismo eslavo, porém pouco agrega ao conteúdo do álbum.
“The End of The Almshouse” traz de volta todo o tenebroso impulso criativo do grupo, em intrincados cenários contrapontísticos, culminando na explosão total de razões, moldada sobre firulas galopantes que margeiam a melodia principal.
O clímax do disco pode ser encontrado, possivelmente, na pesadíssima “Passacaglia In Beautiful And Furious World” numa aproximação climática, de passagens assombrosas que opõe-se ao que pode sugerir sua iluminada introdução que aos poucos desfalece para dar lugar a uma roupagem próxima ao Zero, tão bem aproveitada, que chega a ser irrepreensível.
Fechando o disco de maneira pouco convencional surge “In Five Steps”, sem todo o majestoso clima de proporções titânicas que se emoldurou até aqui, trazendo linhas melódicas mais usuais, que mais uma vez apontariam aos mestres russos, culminando numa série vagarosa de acordes no órgão, arejados pelos vocais que conduzem o disco a seu término.
De maneira geral “On Phenomena and Existences” é um trabalho sólido, resgatando eficientemente boas influências, sem deixar de aderir camadas experimentais surpreendentes, desde alicerces rítmicos camaleonescos, golpes harmônicos que antecipam seus compassos, a contrapontos incongruentes complicadíssimos que coincidem de maneira brilhante, para dizer o mínimo. O que falta é sempre aquele instinto mais subversor, ignorando um pouco da tradição do gigante Univers Zéro que ainda surge imponente como parâmetro compositivo a esses músicos. De uma forma ou de outra, me diverti muito na audição desse trabalho equilibrado e “racional” do promissor grupo que ainda precisa ousar mais, como é o caso de tantos outros que se atrevem a esse tipo de sonoridade
3,5/5,0, excelente, mas ainda carece de mais inventividade.

Caro Lucas,
ResponderExcluirCheguei a seu blog por uma indicação que vi no Sérgio Sônico.
Muito bacana o seu espaço.
Já viajei com sua resenha sobre os melhores guitarrists de bazz e blues, sobre o Eric Dolphy, sobre o John Zorn (não sou tão chegado ao free e o único álbum que tenho dele é o Sonny Clark Memorial Quartet, um tributo ao pianista Sonny Clark, com uma pegada hard bop bastante raivosa e visceral), Duke Ellington e outros.
Seus textos são ótimos, precisos, cheios de bom humor e informação - já coloquei entre os maus favoritos e virei muitas vezes aqui - tem muita coisa ainda para ser descoberta!!!!
Vou colocar um link no meu blog, o Jazz + Bossa + Baratos outros e aproveito para convidar você a conhecê-lo. O endereço é:
www.ericocordeiro.blogspot.com
Abraços fraternos!
Obrigado, mas nem carrego tão alto meus textos, são meros resumos, quem sabe, indicativos. Mas, fico muito agradecido pela visita e pelo comentário.
ResponderExcluirSeu blog é espetacular, em breve o adicionarei às minhas listagens.
Zorn não faz só free, possuí alguns trabalhos muito interessantes, principalmente no que diz respeito a música erudita, "rock de câmara", vale dar uma olhada. Desconheço esse tributo, eventualmente vou checar.
Estarei sempre de olho em seu blog
Abraços
morreu?
ResponderExcluir