Descobri recentemente que o Oceansize lançou um disco no ano passado, obrigando-me a procurar tal trabalho. Para quem desconhece, “Oceansize” é um dos projetos progressivos mais interessantes e completos da atualidade, emergido da sempre produtiva Manchester, compartilha um pouco do estilo do Amplifier, que recentemente surgiu por aqui.
Até o momento lançaram quatro discos de longa duração, sendo o último “Self-Preserved While Bodies Float Up” que, aparentemente, marcou o fim da banda, ou, pelo menos, um hiato.
Oceansize é imprevisível, volátil e inteligente, como se pode observar em trabalhos anteriores, com óbvio destaque ao épico “Frames”, que reúne uma diversidade gigantesca de elementos da cultura popular em síntese muito bem articulada que tange desde as mais amorfas linhas de stoner metal, experimentos com música ambient, rock psicodélico dos anos 60, progressivo dos anos 70, ícones da música avant-garde, algo da falta de perspectiva dos anos 80, a melancolia dos anos 90 e claro, algumas doses de pop que tornam sua música, ao mesmo tempo, intrigante e acessível.
Mas, segundo minha perspectiva, até Gentle Giant é “pop”, então não levem muito a sério tais comentários...
Quanto ao disco atual... Esse despertou sensações diversas. “Self-Preserved While Bodies Float Up” tem seus bons momentos e não são poucos, mesclando um turbilhão de informações, numa síntese da história do rock em passagens movimentadas que adicionam ainda texturas introspectivas de post-rock e estruturas agressivas e técnicas do math rock, que é esbanjado pela seção percussiva.
Ainda se podem ouvir vocais melódicos, até um pouco pastosos, apontando a canastrice do neo-prog com quem a banda vem eventualmente flertar. As melodias ainda são deveras interessantes, não se vê cadencias pentatônicas habituais, apenas escalas completamente heterodoxas que confluem a efeitos etéreos de guitarra, flutuações eletrônicas, numa roupagem moderna que resgata eficientemente um clima vintage com nuances de Pink Floyd, ou mesmo certas dissonâncias a lá Gentle Giant.
O que esperar então de “Self-Preserved While Bodies Float Up”? Um disco próximo do prog de antigamente, claro, em forma mais atual e revigorada, onde poderemos encontrar uma série de baladas, de consistência, é verdade, mas ainda sim, o disco de nome elegante não atinge a mesma qualidade de alguns esforços anteriores.
Entretanto, Self-Preserved... se mostra um trabalho muito válido dessa talentosa banda que já deixa saudades, por sua sensibilidade na construção de melodias que fogem de padrões clichê, sem negligenciar um lado aprazível que chega a causar dependência, como se pode notar na fantástica “Oscar Acceptance Speech” de ares sinfônicos, sobre um contorno crescente de post-rock que margeia o noise muito bem aplicado, liderando viradas rápidas de bateria, riffs inexpressivos, interlúdios de piano de modo muito belo realmente.
Tal composição “majestosa” vem contrastar com a assustadora abertura “Part Cardiac”, em seus riffs de doom metal cataclísmicos, filtrados através de muita distorção que eriça passagens ruidosas ensandecidas ofuscando o vocal espectral que lembra um pouco de grupos de metal progressivo como “Opeth” ou até mesmo algum trabalho obscuro de Mike Patton.
Super Imposer vem quebrar a impressão de peso gerada pela faixa inicial, que acaba por destoar do restante do disco, o que não é novidade, tendo em vista o eclético estilo compositivo do grupo. Nuances inspiradas, eventuais quebras de tempo, vocais melódicos, puro prog-retrô e até que não faz feio, principalmente se levarmos em conta as alternâncias rápidas de temas que mantém a idéia de que tudo caminha para uma mesma direção, com eventual destaque as passagens mais carregadas que se aproximam do hard rock.
A faixa seguinte mostra faceta similar, mantendo a energia e o sentido carregado pela composição anterior, em texturas muito bem desenvolvidas que se erguem incógnitas diante do ouvinte em passagens cristalinas de guitarra, ecos atmosféricos de Radiohead e muita movimentação. “Build Us A Rocket Then...” mostra um estilo quebradiço, repleto de intervenções e vozes incongruentes que apontariam – mais uma vez - a Gentle Giant, que parece transbordar pelo disco.
Após essa série de bons momentos nos deparamos à rançosa “Ransoms” (perdoem o trocadilho), que parece invocar os momentos menos criativos de Pink Floyd, aliados aos trabalhos mais fracos de Jeff Beck. Balada extremamente dispensável.
“A Penny´s Weight” alterna bons e maus momentos, com certo destaque a construção rítmica – compassos interessantes, entretanto mal utilizados – que ainda parece distante das plenas capacidades compositivas do grupo.
Após o turbilhão de introspecção leitosa das últimas faixas, retornamos com “Silent/Transparent” em interessantes contrastes entre as vozes, assegurando a atmosfera que vem sendo reproduzida ao longo do álbum – visivelmente há uma forte conexão entre as faixas. O clímax é mais agitado e interessante, mas os diversos elementos que surgem enriquecem a composição, demonstrando bom gosto na escolha de timbres e efeitos, numa semi-balada espacial, bastante nostálgica.
“It's My Tail And I'll Chase It If I Want To” traz mais um dos grandes momentos da gravação, afastando a imagem sonolenta que aos poucos se moldava, através de construção muito movimentada e ágil, que ainda sim não é de grande destaque.
As faixas seguintes recobram o clima tímido que predomina durante o disco sem muito acrescentar.
Veredicto: Estou decepcionado. Esperava muito mais do Oceansize, especialmente em seu “swan song”, pois sei que a banda é capaz de apresentar mais, exceder seus limites, representar o atual momento do rock de maneira ímpar. Mas, “Self-Preserved While Bodies Float Up” soa redundante, e mesmo em seus melhores momentos não atinge a qualidade de trabalhos anteriores. Ainda sim, apresenta belas passagens de cunho sinfônico, ressaltando especialmente as nuances avolumadas de pós-rock, sem negligenciar momentos elétricos, agressivos, como na fantástica “Build Us A Rocket Then...”. No geral não é um disco ruim, que vale conferir. Sendo generoso sou capaz de dar 3,0/5,0. Muito saudoso de Frames...

Opinião é uma coisa engraçada...
ResponderExcluirAchei 'Self preserved' o melhor disco, e 'Frames' um pé no saco de tão chato...
Não gosta de "Frames"? Realmente, opinião é uma coisa engraçada...
ResponderExcluirMas o "Self Preserved" é bão, rapaz, só achei, particularmente, inferior ao que foi feito antes...