Pois é, aqui estamos novamente a postar nesse espaço tão verborrágico.
Dispensando qualquer re-apresentação melodramática, trago-lhes um dos meus projetos que larguei em animação suspensa entre o hiato. Trata-se de um novo formato de post, uma espécie de “overview” da obra de determinado artista, não necessariamente muito aprofundada, a ideia é apresentar extensas discografias de artistas consagrados a quem estiver à procura de um ponto de partida ou, ainda, possibilitar uma segunda visão em relação a trabalhos nem tão recordados, mas que merecem certo destaque. Como texto inaugural, escrevo sobre o King Crimson, figura recorrente do blog, e pela qual retenho certa idolatria.
O Crimson nasce no momento essencial de mutações da música popular. Naquele rebuscado meio da decadência de parâmetros antigos, anseios pelo novo e tensões políticas, três jovens músicos buscavam imprimir sua marca: “Giles, Giles e Fripp”. Procurando pela internet, poderão encontrar algo, um misto entre o british pop e suave nuances experimentais. O baixista Peter Giles mostrava-se frustrado com a falta de sucesso comercial, tentando aproximar-se cada vez mais do pop vigente. A mente de Fripp flutuava em busca desse novo ímpeto, o que seria alcançado com a presença de novos integrantes: Ian McDonald, Greg Lake e o letrista Peter Sinfield.
Giles não concordava com os rumos que o grupo parecia tomar e partiu para outros projetos. Nesse entremeado surge “In The Court of the Crimson King”, um dos trabalhos mais aclamados pelos fãs e pela crítica.
Esse LP é emblemático, as ondas pomposas e melancólicas emanadas pelo mellotron, ditariam os contornos de um estilo que se moldava, através da sutileza do importante Moddy Blues. Os vocais passivos de Lake trazem todo o sentimento de depressão de uma geração que se erguia sem perspectiva, diante de uma guerra que estourava e de outra, que poderia estourar. Mas, não era só do clima bucólico e árcade que vivia o King Crimson: o grupo vinha para chocar com as guitarras afiadas e lacerantes que emergiam de um groove jazzístico improvisado em ataques à mentalidade doente que se anunciava. “21st Century Schizoid Man” traduzia em sua poesia rica e seus experimentos agressivos algo que transcendia a compreensão artística do rock que se apresentava.
O King Crimson regurgitava influências de um jazz belicoso, de Thelonious Monk a Ornette Coleman, da febril música erudita contemporânea, sem deixar de lado as tradições ultra-românticas e certos ares do pop do período.
Uma ruptura se inaugurava: dos veios do grupo se estruturaria o rock progressivo.
Lake deixaria a banda, em seu segundo trabalho “In The Wake of Poseidon, para formar seu próprio épico: Emerson, Lake and Palmer. De fato, o disco de 1970 é um dos menos atraentes projetos da banda inglesa, não por falta de qualidade, apenas pela semelhança saliente com o disco anterior que acaba reduzindo um pouco de seu potencial, sem deixar de lado belíssimas composições como a faixa-título ou “Cadence and Cascade”. O grande destaque talvez seja “Pictures of City” que segue estrutura similar ao clássico do disco anterior, sendo possível notar certa influência da Cena de Canterbury.
Com line-up reformulado é lançado “Lizard”, o meu preferido desses primeiros momentos da década de setenta. O trabalho é balanceado, maduro, sintético e suntuoso ao mesmo tempo, sem tornar-se enfadonho ou inverossímil. A fantástica “Cirkus” mescla os ares pastorais e delicados emergidos das teclas às guitarras sisudas em contrapontos interessantes que promovem um encontro atemporal entre a magia barroca com o peso da vida urbana. Esse clima fantástico se estende pelas faixas seguintes, com passagens galantes dos sopros que ainda são capazes de demonstrar certas doses de humor. O grande momento é a deslumbrante faixa título em seus apaixonantes vinte e três minutos que transcorrem pelo jazz suburbano e nostálgico, grandiosos movimentos orquestrados, regados à passagens de lirismo brilhante e frases sensoriais dos diversos instrumentos. O grande problema, talvez seja a falta de sincronia entre o vocalista Gordon Haskell e o letrista Peter Sinfield, que tornava sua tiradas ainda mais ácidas e sua linguagem mais rebuscada.
“Islands” do ano seguinte pode ser visto como um reflexo desses impulsos megalomaníacos, adentrando temas herméticos, ainda mais densos que levariam ao afastamento do grupo. De fato, liricamente “Islands” impressiona, mas não empolga em outros ângulos, soando como uma audição mais plana, próxima ao progressivo de outros grupos.
O grupo via-se num momento de transição: Yes e Genesis povoavam as ondas desse novo estilo, que o Crimson se viu a difundir, enquanto Ian McDonald, responsável pelo colossal ar sinfônico de suas composições, partia em novos projetos.
Finalmente em 1973, surgiria uma das obras máximas da música popular. “Lark´s Tongues in Aspic” traz em seus contrastes, experimentos com o free jazz, montagens polirrítmicas complicadíssimas, contrapontos disformes e dissonantes, adentrando influências da escura música de câmara de compositores como Bártok, sobrepostas pela esquizofrenia potencializada das guitarras de Fripp. O Crimson chegava a seu ápice, espantando o mundo com as sandices artísticas de Jamie Muir, as estruturas apoteóticas de Bill Bruford, as brutais e sanguinolentas linhas melódicas de David Cross e o baixo improvisado e cataclísmico de John Wetton. A quebra de parâmetros avançou um novo nível, que já dava notícias desde “Lizard”. O peso colhido do heavy metal surgia em uníssono com a instabilidade do violino “stravinskiano” de Cross que se estendia voraz por bases pontiagudas de guitarra e construções em relevo erodido.
Não havia como esperar mais daquela banda que chocava seu antigo público e inspirava aqueles que se deliciavam com a beleza nada óbvia de seu novo estilo. Surgiria então “Starless and Bible Black”, a inaugurar um novo período musical. “Starless...” soa um tanto menos orquestral, mas ainda mais pesado, prosseguindo com os devaneios atonais e os experimentos electro-acústicos que devem ter vindo a influenciar diversos grupos futuramente, que vão da cena de Rock In Opposition à Mahavishnu Orchestra.
Essa nova sonoridade tomaria forma compacta e bem estabelecida no clássico “Red”, de 74. “Red” é um disco senil, saído do subconsciente de uma mente doente. O grupo cria ambientes catastróficos e agonizantes que se estendem por plataformas atonais e ruidosas como na fantástica “Providence”, que viria exercer peso esmagador sobre Univérs Zero e outros grupos relacionados ao rock de câmara. Pouco dos contrapontos extravagantes de reminiscências barrocas surgem por aqui, as linhas de baixo tornam-se voláteis, a guitarra assume uma linearidade surrealista e o violino exprime seus berros em compactos assustadores.
A trinca “Lark´s Tongues In Aspic”, “Starless and Bible Black” e “Red”, elevaria o rock a outro patamar, mostrando uma banda entrosada e comprometida que age sobre a indumentária de uma pequena orquestra, onde cada instrumento desempenha objetivamente uma proposta inteligente. Nessa fase de meados setentistas, o Crimson adere suas nuances mais tenebrosas, escuras e desiludidas com a realidade. O impulso da cacofonia dadaísta se resume a experimentos transversos e bem delineados, o free jazz de “21st Century Schizoid Man” e “Moonchild” se perde em meio as aparentes incongruências moldadas pelas quebras rítmicas constantes da virtuose de Bruford que alavanca o palco perfeito a entalhes amorfos das cordas.
Mas, o crepúsculo se aproximava e o grupo entrou em hiato indefinido. John Wetton seguiu como “superstar” do progressivo, que logo entraria em decadência; Robert Fripp explorou a música ambient ao lado de Brian Eno, dando vazão as sandices que o assolavam e Bill Bruford, seguiu projetos relacionados ao jazz e sua mentalidade transcendente, retornando, vez ou outra, ao Yes que se fragmentava.
No início da década de 80, Fripp almejava montar um novo grupo, algo novo, distinto daquele Crimson sisudo e agressivo que o marcara. Recrutou o camaleônico Adrian Belew, que trazia os acidulantes “zappísticos” e o new wave moderno e tecnológico do Talking Heads; Tony Levin, em seu humor swingado coerente com o novo instrumento que marcaria todo uma era progressiva, o “Chapman Stick” e por fim, o velho Bill Bruford sempre atento às inovações.
Essa fase mesclava os parâmetros angustiantes dos anos setenta, a uma leveza desprendida que encandeava os novos movimentos em alta. Esse Crimson era capaz de criticar a realidade, de maneira pouco óbvia, afastando da sujeira crua proposta pelo punk, falando das frivolidades e perdições do homem moderno. “Discipline” foi, e ainda é, muito criticado por fãs que não conseguiram se desvencilhar do aspecto grave de outrora, para esses, o King Crimson havia tornado-se um grupo pop.
“Beat”, de ares inebriantes, tomando como conceito a popular literatura que moveria o mundo décadas antes, só agravaria esse aspecto.
Pessoalmente, sou um grande fã desse período. As vozes contrastantes de Tony Levin, os efeitos satíricos de Belew e o refinado senso compositivo de Fripp e Bruford, produziam um Crimson lírico, psicodélico e nem por isso, menos complexo. Diversas vozes – de elefantes a Keruac – invadiam ambientes moldados em timbres sintéticos e espalhafatosos, sem deixar de lado os ângulos agudos e obtusos das construções rítmicas e as psicoses guitarrísticas de Fripp, que encontrou em Belew, o parceiro perfeito. Prova disso? ELEPHANT TALK!
“Three of Perfect Pair” é um pouco mais poluído, desenganado, trazendo temas ásperos e esmagadores, como na fantástica “Industry” e sua percussão metalúrgica e aterradora que reflete tão bem a realidade do concreto. Mas ainda há espaço para beleza, quando as vozes entrecruzam-se bailando em convergência na faixa título. Sem desmerecer as experiências climáticas aterradoras de “No Warning”, que merecem destaque especial.
Esse é um dos meus álbuns favoritos, possivelmente influenciado pela rítmica incessante de Steve Reich, entrecortada por tudo que até aqui fora digerido, numa dieta balanceada entre o melhor de seus predecessores diretos. A banda mostra-se mais eletrônica e contemporânea, como deixa extravasar na terceira parte do épico “Lark´s Tongues in Aspic”, enquanto o groove de “Sleepless” ergueria um modo compositivo que se estende até hoje, nas diversas falanges do grupo.
Mais um longo hiato, até meados da década de 90, quando surge “Thrak”, de um duplo trio, composto por Fripp, Belew, Levin, Bruford, Trey Gunn e Pat Mastelotto. Esse disco possui diversas passagens interessantes, mostrando um grupo no intuito de se reciclar, soando agora mais pesado e agressivo, como nunca antes se havia visto. As construções são mecânicas, ruidosas, repleta de relevos irregulares e disformes, enquanto de outro lado há um resgate do lirismo singelo dos primeiros passos da banda que explodem em “Walking in the Air” e no belo interlúdio da poética guitarra de “Vroom”. O espírito sarcástico de Belew aflora nas letras divertidas de “Dinosaur” e nas doses concretistas de “Sex Sleep Eat Drink Dream”.
Então vieram os anos 2000. Se “Thrak” e suas falanges mostravam a confluência de “Red”, “Discipline”, metal industrial e música ambient, “The ConstruKction Of Light” é mais uma ruptura. Esse disco pouco comentado, é excepcionalmente “metálico”. Todos os impulsos bélicos concentram-se em frases potentes que se reestruturam numa rítmica desafiadora, que evoca ângulos esquizóides, efeitos cataclísmicos e fraturas caóticas que mais uma vez vem chocar o ouvinte. O Crimson se adaptava ao novo progressivo, de bandas como Tool, em suas veias bizarras e cadentes, repleta de contrapontos abstratos e irritadiços que sobrevoam faixas como a suposta suíte título. A improvisação retorna impassível, as texturas sobressaltam em arabescos pontiagudos e a música revive robotizada. Para alguns, “The ConstruKction Of Light” carece de certa originalidade e criatividade, explorando temas antigos numa roupagem mais “intragável”. Pode ser, mas essa roupagem intragável é fascinante.
O último trabalho de estúdio foi “The Power to Believe”, de 2003. É de consenso, esse disco é fantástico, trazendo de volta os devaneios tecnológicos do grupo de modo a fundir sua sonoridade tão vasta que passa do metal ao ambient, de Phillip Glass a Bela Bártok. O resultado é um dos melhores trabalhos do grupo, sendo talvez, o mais interessante dos últimos projetos. “The Power to Believe” é uma compilação interessante de ideias que dá vazão a momentos ousados e instigantes como “Level Five” e a mais famosa “EleKtriK”.
O fato é que não consigo encontrar críticas a nenhum trabalho do grupo, que pode ter, eventualmente, reaproveitado certas fórmulas, mas sem perder o instinto “progressivo” que sempre guiou sua mentalidade. Para nossa felicidade, aparentemente um novo disco está para ser lançado nesse ano, batizado de“A Scarcity of Miracles”. Posso afirmar que é o trabalho que mais aguardo (juntamente ao novo do Mars Volta, do qual participará Robert Fripp), sendo a provável força que moveu esse post.
No mais é isso, meus caros, espero que esse retorno seja produtivo e que mais uma vez, possamos discutir os mistérios musicais dos mares tortuosos que costumamos navegar.
E em breve, darei início a série de posts infindável que falará sobre a boa música nacional.







FINALMENTE VOLTOU EIM
ResponderExcluirGrande King Crimson, conheci essa maravilhosa banda aqui pelo seu blog, apesar de ser tão famoso eu não conhecia djklfs.
Prox tem que ser do Gentle Giant, baixei a discografia e estou escutando, gold gold.
Até agora The power and the glory é meu preferido, mas ainda vou escutar o resto, o live também é muito bom
Hahahahaah
ResponderExcluirPrecisava de um tempo, ando a estudar muito
Fico muito feliz que tenha te ajudado em sua prog-busca. Gentle Giant é de fato muito bom, devo ter realizado uma ou duas análises sobre seus discos, dê uma pesquisada por aqui.
No feriado pretendo trazer mais dois posts, overview do Giant pode ser uma boa...
Cuidado! A nova regra ortográfica adverte: Ideia não possui mais o acento. ;)
ResponderExcluirLegal o post manolo!
É verdade: quando terminadas em ditongos abertos, apenas oxítonas e monossílabas tônicas são acentuadas graficamente.
ResponderExcluirComo "Ideia" e "Heroico" são paroxítonas, o acento não é representado.
Olá, acabei de encontrar o seu blog e achei muito bom! Esse post sobre o King Crimson tá excelente, parabéns pelo texto!
ResponderExcluirAgradeço pelas palavras e espero que continue de olho no blog
ResponderExcluirOlá meu caro Lucas,
ResponderExcluirGostaria de convidar você e seus leitores para as comemorações do 2º aniversário do Jazz + Bossa + Baratos Outros (www.ericocordeiro.blogspot.com).
Abração!
Vou passar por lá em breve, e recomendo o mesmo aos leitores interessados em conteúdo de qualidade
ResponderExcluirAbraço