Primeiramente, desculpo-me pela ausência, que ocorreu em decorrência de problemas técnicos com a internet e, logo na sequência, com o computador em si.
Desse modo, retorno hoje, analisando um dos melhores trabalhos produzidos, nos últimos tempos, pelo polivalente e genial Tom Zé.
“Estudando a Bossa – Nordeste Plaza”, de 2008 (quando a Bossa comemorava seus 50 anos), é mais que um singelo tributo: uma referência histórica ao gênero em questão, delineada pela óptica acidamente poética de Tom.
Um verdadeiro petardo de nossa música, banhado pelos vocais femininos (de Fernanda Takai, Zélia Duncan, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Marina de la Riva, Anellis Assumpçãoo e Badi Assad) exageradamente apaixonados em frequente contraste ao desleixo proposital de Tom, que incorpora, mais uma vez, seu espírito alegórico, anti-sisudo, dos bons tempos de “Complexo de Épico”, debochando da seriedade de isopor do pomposo estilo que hoje habita elegantes restaurantes pelas grandes metrópoles. Obviamente, isso ocorre de maneira sutil, até pelo grande respeito do músico pelo estilo, que, segundo o mesmo, mudou sua vida.
Por aqui não ocorre a mesma “esculhambação” experimental de outros trabalhos, mas consegue, de modo sólido, cadenciar belas composições a momentos transversos, obtusos e mais crus como na excelente “Solvador Bahia de Caymmi”, em seus contratempos quebradiços e pontilhismos melódicos cortantes sob a base fluída bastante típica, amparando, num mesmo espaço, pesados riffs de guitarra/baixo às vozes oníricas que esvoaçam de modo quase espectral para nos trazer momentos globalizantes de todos os “seus santos”: “Buda que ensaia de pijama na Lapinha/Gandhi gandaia que desmama a Barroquinha/Baco tocaia uma mucama da Rocinha”.
A conciliação do sarcasmo e da beleza se dá então em “O Céu Desabou”, onde Tom incorpora o espanto da época a se deparar com a música que veio como um terremoto a fazer o céu desabar sob o panteão em declínio.
“Síncope Jãobim” é mais um daqueles episódios indescritíveis, onde Tom deixa a voz soar áspera e intimista sobre a base de samba, para relembrar a essência do estilo - enaltecido pelos vocais de Andréia Dias - em versos afiados: “Que trouxe de Juazeiro, ensaiada no banheiro, a levada desossada que fez um salseiro e que desova na trova”, pois não é que na falta de estrutura que reside todo seu perfume e luxúria?
O espírito arrebatador da Bossa é sentido em “Outra Insensatez, Poe”, com participação de David Byrne, que reproduz sua versão em inglês, exteriorizando o sentimento de uma geração diante da musical caixa de Pandora que se abria na percussão sequenciada, ruídos paranóicos e os vocais lívidos do compositor.
Mas, o senso crítico volta na divertida “Mulher na Música”, tratando da desmistificação das grandes interpretes do período, que deveriam permanecer imbuídas em sua aura de musa. Além da poesia rasgada do inteligente “Bolero de Platão” que faz pouco do sentimento de superioridade dos letristas da Bossa (afinal, Vinícius foi parar na lista da Fuvest) em relação aos ultra-românicos compositores do bolero, destruindo o amor ideal dos anos dourados com o mesmo senso de Bukowski.
Mas talvez, o maior destaque esteja em “Brazil, Capital Buenos Aires”, uma síntese descompassada e irônica da participação da Bossa na formação da cultura e identidade nacional, em arranjo coeso, repleto de clímax bem orquestrados nos timbres sinuosos das cordas.
Em suma, um trabalho relativamente inventivo, capaz de entreter e reciclar um estilo, atualmente, impregnado de nostalgia comercial e picaretagem que pouco acrescenta às prateleiras. Extremamente recomendado aos fãs da Bossa e da boa antropofagia de impulsos tropicalistas do eterno mestre de Irará.
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