domingo, 15 de maio de 2011

Gustav Mahler


Como prometido, me atreverei a falar um pouco sobre música clássica, mas antes, venho aludir a um espaço complementar que recém instalei pelo blog. Vi num dos blogs parceiros (Rockin' in The Free World) um campo com indicações de livros e como ando muito ligado à literatura nos últimos tempos, percebi que era conveniente. Para tanto, colocarei títulos e respectivos comentários, segundo minha visão sobre os mesmos, com atualizações periódicas, semanais muito provavelmente.
Sem mais delongas, venho falar sobre Gustav Mahler, um dos gigantes austríacos que fez nome na virada para o século XX.

Para falar, ainda que de maneira superficial, sobre sua música fazem-se necessários o contexto histórico e biográfico.
Mahler é fruto de uma Viena ainda aguerrida aos padrões do século XIX, em sua arquitetura dourada, seus costumes elegantes, um dos ápices da estética cultural e econômica. Obviamente, o mundo mudava, a industrialização entorpecia a Europa, mas parecia atrasar-se em relação aos países germânicos. Entretanto, não era somente desse ar floreado que se respirava em Viena, seus problemas sociais, seus preconceitos, seus instintos reacionários horripilantes, viriam à tona na obra de outro gênio e seus discípulos: Arnold Schoenberg.
Mas, Mahler observava otimista tal meio, tentando reter toda essa grandiosidade através de sua música.

Inicialmente, dedicou-se ao alto cargo de Diretor da Ópera da Corte de Viena, que o distanciaria brevemente de sua composição. Entre esse período, Richard Strauss ascendia com sua composição fresca e contestadora, aspecto de grande impacto nas composições de Gustav.
Sua Primeira Sinfonia emerge de uma premissa interessante: elevar o estilo a níveis inéditos, do mesmo modo que Wagner havia feito com a ópera. Nesse momento inicial, há certo impulso romântico, onde orquestrações colossais, desconstroem-se de maneira ruidosa para dar lugar a passagens de cunho regionalista, ligando ambientes bucólicos a excertos de sua cultura judia. Do mesmo modo que Wagner, Mahler mostrava-se superlativo, apelando ao suntuoso, em multicores de sopros sibilantes, que vão de encontro ao seu gosto taciturno pela noite, pelo escuro, que pelas alternâncias, entre o forte, o fraco, poderia apontar há um elo perdido barroco.

Contudo, esse regionalismo esvaneceria a partir da Quarta Sinfonia, mais sisuda, pragmática, estruturada aos moldes clássicos que, talvez por isso, não me soe tão atraente. Gustav buscava tornar-se um artista universal. Na “Quinta”, meu primeiro contato com sua obra, brota violentamente sua temática funesta, enegrecida, trazendo desde delicada introspecção a impulsos surrealistas, batalhas hercúleas, ilustrando suas discussões a cerca da existência, da morte, dos contrastes (como todo bom “alemão” do período, há muito de Nietszche em sua obra), da guerra.

A “Sexta Sinfonia” é minha preferida, talvez, sua “Magnum-opus”. Por vários momentos, se percebem passagens quebradiças, que enunciam a temática atonal que povoaria a obra de seus discípulos (que estruturariam o dodecafonismo), onde sua percepção transcendente e vasta do amor se amalgama a seus delírios conturbados sobre a guerra, a violência. O primeiro movimento enuncia o avançar de um batalhão em seus entalhes vítreos, na base pulsante dos violinos e o épico tema principal que emerge com vigor das entranhas da agressividade. A segunda parte, traz um lirismo ultra-romântico, enaltecendo o trabalho dos sopros aveludados que se perdem em meio a seus devaneios polifônicos, de progressões calmas que crescem em vertigem, tentando conciliar o peso colossal da guerra do primeiro movimento, às formas curvilíneas da mulher amada. E isso ocorre de maneira catastrófica, onde o amor avança arrebatador em dualismos tonais de marcações pesadas e puntiformes. A terceira parte se condensa numa valsa tencionada pela percussão lacerante impiedosa a vislumbrá-la. O movimento final percorre belicosos ataques estruturais, por onde percorre um ar funesto, denso, irritadiço, quase paranóico. Toda essa profundidade se desenvolve de maneira dolorida, inconstante, a caminhar a seu final leve, quase adormecido que se expande em combustão espontânea a exalar a brutalidade crepuscular de sua vida conturbada.

Esses moldes titânicos erguer-se-iam à estratosfera na Oitava Sinfonia, com a necessidade de mil músicos para executá-la. Seu conteúdo, segundo minha óptica leiga, não supera a grandiosidade das três últimas composições. Mahler parecia ter exagerado

O compositor criaria ao longo de sua carreira nove sinfonias completas (mais uma inacabada) e algumas “lieds” (canções), incluindo um poema sinfônico.
Sua obra se encontra no limiar entre as aspirações visuais românticas e uma nova sonoridade, moderna, avassaladora, que estava para surgir, evocando, de Mahler, sua ambigüidade, sua sanguinolência, reprimida em impulsos trágicos. Há 100 anos, o compositor levava para o túmulo os padrões e instintos de uma geração, a dar origem a uma nova concepção de arte que metamorfosear-se-ia em suas guerras, suas tensões, seus conflitos.

Encerro enntão, meu pequeno resumo e minha homenagem, justamente, ao centenário da morte desse compositor que tanto influenciou minha percepção sobre arte. 

Abaixo, links de algumas de suas composições em "Domínio Público"/Vocêtubo:
Sexta Sinfonia (Primeira Parte) - Bernstein

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