No início do século XIX, a Alemanha passava por período de revitalização e sérias agitações ideológicas, alimentadas pela Revolução Francesa. Nesse contexto surge “Woyzeck” de Georg Büchner, que anteciparia o pensamento de Marx e Engels, ilustrando, sobre uma história verídica, a luta de classes e a situação social deplorável em que se encontrava o proletariado alemão. Büchner era também crítico aos ideais estéticos do romantismo, aderindo a sua obra, nuanças experimentais que impactariam fortemente em correntes literárias posteriores, como o naturalismo e, por mais ambíguo que possa soar, o expressionismo.
Agora devem estar se perguntando o porquê desta minha inclusão literária. A questão se resolve em meados de 1917, quando o compositor Alban Berg, após a dispensa do exército germânico, começou a trabalhar em sua obra-prima “Wozzeck”, resgatando o monumental livro de Büchner. E, se ainda restam dúvidas, a avassaladora ópera de Berg será alvo de minhas palavras tortas, frutos de uma visão míope que está querendo fazer exame de vista.
Berg era discípulo do controverso Arnold Schoenberg e, assim como o mestre, aproximava-se da fluidez atonal que liberaria toda uma geração de filósofos musicais. “Wozzeck” surge desse meio, sem tornar-se uma composição serial, estrutura que somente moldar-se-ia dali algum tempo.
O plano de fundo, como enunciei brevemente, é uma Alemanha instável, onde as classes dominantes exploram, em todos os âmbitos, a fragilidade dos mais pobres, aqui visceralmente representados na pele de Franz Wozzeck, um soldado mentalmente enfermo, que surge como subproduto de seu meio. Essa visão é apresentada, de imediato, na cena inicial do Primeiro Ato, quando Wozzeck proclama “é difícil ser virtuoso quando se é pobre”. A imoralidade impregnada nas mulheres, que surgem como objetos sexuais de soldados escusos e a frivolidade dos homens, que se perdem em seus vícios carnais, são frequentes alvos da zombaria dos poderosos, representados pelo superlativo doutor – uma espécie de encarnação afetada, em visão de escárnio ao Fausto eterno de Goethe – e do capitão – homem gordo e ocioso que induz, ironicamente, Wozzeck a uma visão de perfeição clássica/árcade, apelando a “aurea mediocritas”, ao equilíbrio; “permaneça no meio” é uma de suas falas iniciais.
Mas, não é só na caracterização simbólica gloriosa que ao mesmo tempo expõem e destrincha os personagens alemães, “esculhambando” seus antigos ideais românticos, que reside a genialidade conceitual da ópera. Berg evoca uma estética expressionista, centrando sua narrativa na paranóia, nos delírios senis, da mente fragilizada de seu anti-herói, torturado por suas cruéis condições de vida, vendo-se obrigado a submeter-se aos caprichos sarcásticos de seu chefe e aos experimentos do egocêntrico cientista. Estabelecida a condição, emergem os agravantes: a traição da mulher – Marie-, que, ao mesmo tempo, enfeitiça e provoca o Mestre da Orquestra Marcial e se repudia, buscando na bíblia e em desastrosos conflitos interiores, a solução para sua fragmentação de culpa e desejo; a solidão, Wozzeck embarca num patamar superior a de seus colegas, seja por suas alucinações, ou por sua cruel percepção da realidade, a personagem planeja pensamentos filosóficos que transcendem a mediocridade de seus “iguais” alienados, isolando-o num plano suspenso, ao passo que é tratado como uma criança ingênua, despreparada pelos antagonistas sociais da obra – “você comeu seus feijões?”, dispara o doutor.
Nessas condições o quadro do senil Wozzeck se intensifica, sua obsessão inflama-se, a dor e a desilusão o entrecortam, o conflito se apossa de sua mente. Na condução majestosa de Berg, vemos o desenvolvimento dessa personagem, de modo que o final soa inevitável, sem perder seus traços mais densos de humanidade.
A personagem que dá título a obra, encontra sua apoteose em um magnífico “crescendo”, vindo a mergulhar no lago de sangue de suas visões.
Por mais arrebatador que seja o enredo – um real deleite literário -, Wozzeck conseguiu seu destaque como uma das maiores óperas de todos os tempos, graças a sua construção musical intrincada, pontiaguda, rochosa e ainda sim, acessível, que passeie entre contornos do atonalismo extremo e as particularidades da escala diatônica.
Mais uma vez, Berg vem nos demonstrar o porquê de merecer o título de “gênio”: grande parte da narrativa é dominada pelo psicológico e nesse âmbito, de exagero e distorção, surgem suas sombras atonais, de fluidez inatingível, capazes de entoar milimetricamente os contornos obscuros das personagens, de modo a exteriorizar seus mais monstruosos pensamentos. Para esse lado ocorre a dissonância, quando a realidade visual se confronta ao imaginário decrépito, entoando ataques avassaladores que explodem em intensas demonstrações de “pathos”, ou nas zonas conflituosas e mal estabelecidas, que apontam a entalhes sexuais e misteriosos, como no segundo encontro entre Marie e o Mestre da Orquestra.
A tonalidade padrão, vem descrever ambientes físicos, ou lugares comuns, como certas aspirações vividas por Marie, em interlúdios românticos, de elegância tradicional. Em outros momentos, elementos apenas sugestivos surgem para aderir verossimilhança, como danças tradicionais, manifestações folclóricas, cantigas populares ou na exploração de vínculos dionisíacos entre a natureza humana das personagens. Um exemplo claro é a cena da taverna, onde Marie dança com seu amante, embalada por uma valsa antiga, despertando a ira incontrolável de Wozzeck. O contraste entre o atonalismo em catarse, disparando atmosferas amorfas e afiadas e os ares simplórios camponeses montam um dos ápices sonoros da gravação, é inexplicável, simplesmente fantástico.
O compositor, ainda se aproveita de elementos recorrentes, que vem criar laços aos ouvintes, para descrever elementos específicos da narração, variando-os levemente de acordo com o contexto, a apontar novamente ao simbolismo.
Predomina então, uma atmosfera taciturna, mas volátil, enumerando os pesadelos sanguinolentos de uma sociedade moribunda, culminando na falta de perspectiva, na incerteza de um pobre garoto alemão.
Em suma, dou minhas mais fortes recomendações aos leitores para que busquem essa ópera de Alban Berg, que pode soar dissonante, agressiva, maníaco-depressiva, interpolando muitas vezes ataques grosseiros dos sopros, a pizzicatos estilhaçados e rítmicas alucinantes, mas que no fundo é uma obra para pessoas como nós, que busquamos a reflexão sobre os diversos prismas da condição humana.
Uma das obras máximas do expressionismo alemão, imprescindível a qualquer fã da arte em sua forma mais sublime.
O "Youtube" está repleto de boas encenações de “Wozzeck”, assim que não será muito difícil encontrar.
Um bom fim de domingo a todos, e peço desculpas se não atingi toda a complexidade titânica deste trabalho.



0 comentários:
Postar um comentário