O que mais se pode esperar do Yes?
É uma pergunta que venho me fazendo desde a última passagem do grupo por aqui. E a resposta, para muitos, remete ao vazio. De fato, seus trabalhos desde os anos 80 são questionáveis, por mais que goste dos itens mais recentes, nada se compara ao período dourado do grupo, quando esse progressivo pomposo repleto de cores e apoteoses instrumentais fazia sentido. Pois que venham as pedras, mas os tempos mudaram e devo admitir que passamos por uma fase conflitante da música popular. Se por um lado a massificação de uma mentalidade simplista sem profundidade ameaça a perpetuação de expressões artísticas genuínas, por outro, aqueles que se comprometem com tal feito, vem produzindo criações espetaculares, de estética inovadora capaz de justificar-se ao nosso tempo.
O que se pode esperar do Yes são mais alguns anos para se admirar em suas contagiantes apresentações ao vivo ou mesmo nesse exemplar de estúdio.
“Fly From Here” dividia um bocado de opiniões antes de seu lançamento, a principal causa, obviamente, é a ausência de Jon Anderson. No entanto, o tão questionado Benoit David não faz feio, produzindo linhas até bastante maduras, sem excessos, aproveitando o potencial de sua voz de maneira muito delicada e expressiva. Talvez seja um dos pontos mais altos do disco, tendo em vista o quanto está evidenciado o trabalho vocal. Nesse ponto há de se admirar o trabalho de produção de Trevor Horn que remonta uma gravação equilibrada, onde todos os instrumentos soam com clareza e objetividade.
Squire mantém o trabalho característico de baixo que funciona bem ao lado da bateria de White, nem tão cansado em estúdio. Howe por sua vez demonstra uma participação discreta, que, no entanto surpreende pela qualidade característica seja na escolha brilhante de timbres, ou nas variações de seu estilo sinuoso, arrojado, incisivo e de precisão cirúrgica, um maestro de fato que brilha mesmo num, injusto, papel coadjuvante. E eis um dos maiores problemas, a participação de Steve é sombreada pelos teclados econômicos de Geoff Downes, de quem definitivamente não sou fã. As camas soam burocráticas e muitos dos timbres ultrapassam a barreira do “brega”, em ares enfadonhos e até certo ponto irritantes. Mas, Downes consegue arrancar alguns bons momentos principalmente quando evoca a nostalgia de “Drama”.
O óbvio destaque fica por conta da suíte título, “Fly From Here” que ainda sim, tem seus altos e baixos. Iniciando pelos aspectos negativos temos alguns motivos bastante repetitivos que ainda ousam retornar de forma cíclica, entoando ressoares de pouca inspiração. Vejo sérias inconsistências harmônicas, talvez pela tendência de Downes em simplificar suas estruturas, o que de certa forma ressalta o lado melódico – e aí temos um ponto positivo antecipado. Outro detalhe que me incomodou em todas as audições é a forma extremamente óbvia, quase ingênua, como determinados momentos são resolvidos. E por fim há uma real artificialidade em certas passagens climáticas que, aparentemente, deveriam soar de modo solene.
Ufa. Mas, não é só de espinhos plastificados que se constitui a faixa. A suíte não se estrutura de modo linear, o que permite que encadeamentos independentes se encaixem de maneira interessante, dando vazão a uma série de motivos belíssimos, em todas as multicores melódicas. Como já mencionado, o disco é forte horizontalmente, seja pelas harmonias vocais coletivas ou pela passionalidade das linhas de David ao encontrar um inventivo Squire sempre contrastante às elipses serpeante de Howe que ocupa com qualidade os espaços pertinentes, seja com o lirismo acentuado de sua performance acústica, os riffs inteligentes ou ainda com as espirituosas linhas de sua lap steel guitar. Essa grandiosidade emotiva se intensifica quando Downes pontilha, ainda que de modo objetivo, a composição com movimentos ascendentes ou práticas variações. Um detalhe curioso, em certas passagens é possível sentir uma reminiscência muito clara de Gentle Giant, vale se conferir.
Desse modo alguns memoráveis temas são erguidos de modo impetuoso, relembrando os grandes momentos de “Drama”, unido a certas interplays de “The Ladder”, a soar de modo atarefado e instigante.
A conclusão de “Fly From Here” está longe dos épicos magistrais setentistas, ou mesmo da quase megalomania de “Magnification”, mas ainda sim não faz feio.
A parte da longa suíte, vemos um cenário instável: desde faixas mais comerciais e passáveis, algo de um romantismo exacerbado, soando como filler, como o caso de “Solitaire”, momento pouco inspirado de Howe que, infelizmente não consegue atingir uma possível comoção, um senso de realidade artística superior. Assim observamos algumas aproximações esquisitas, enquanto “Hour of Need” poderia soar como algo do Kansas, com harmonias vocais comuns, acinzentadas, tangemos um retrocesso grave e sisudo a uma sonoridade sem vida, pouco inspirada em “Life on a Film Set”.
Mas, para finalizar as inconsistências temos um excelente momento em “Into the Storm”, que ao se aproximar mais uma vez de “Drama” faz emergir variações vigorosas, temas cintilantes em tratamentos instrumentais deliciosos, em seus timbres aquosos e carregados, que consegue, efetivamente, nos fazer sentir um “Yes” digno e senão, um bom grupo de progressivo dos bons anos. E não se poderia deixar de mencionar o melhor solo de Howe – entre os poucos – do disco.
Uma gravação divertida, entretenimento válido que deve render algumas boas apresentações ao vivo. E antes que conclua a resenha, um “detalhe” bastante relevante, mesmo Oliver Wakeman tendo deixado o grupo antes do término das gravações, algumas de suas contribuições podem ser ouvidas, inclusive um respeitável solo de órgão em meio à faixa título. 2,6/5,0 com justiça.

Excelente resenha, rapaz. Fico feliz de ver que você diverge em vários aspectos de minha análise do álbum, dando margem a discussões.
ResponderExcluirAcho que de tudo o que você escreveu, o que mais me salta aos olhos é sua reação à "Solitaire". A achei uma peça muito interessante, bem "Howeiana" (que termo!). Enfim, creio ser questão de gosto, às vezes até uma cegueira de fã do Howe por minha parte, vai saber.
Parabéns pela iniciativa de trazer tão boas e precisas análises nesse seu espaço, gostei bastante e já coloquei um link lá no meu blog!
Abraços.
Agradeço pelas palavras, de fato esse intercâmbio de pontos de vista é muito produtivo em todos os aspectos.
ResponderExcluirPois é, depois que li o que escreveu sobre "Solitaire" tentei reavaliar minha posição, mas sem sucesso, impressões, não é?
Boa sorte no projeto
Abraços