Neste final de semana ouvi pela primeira vez o novo CD do Uriah Heep, “Into the Wild”, que destaca um proeminente resgate dos teclados.
Após mais de 40 anos de carreira, é desumano esperar que um grupo tão tradicional como o Heep se reinvente. Na verdade, seus novos trabalhos devem seguir a tendência de resgatar antigos planos de sucesso, sem maiores pretensões, um real tributo aos seus fãs, afinal, nós ainda os amamos.
“Into the Wilde” reforça um aspecto interessante quando Phil Lanzon exalta suas linhas de órgão, agora muito inventivas, para trazer de volta o clima mágico que nos encantou em grandes trabalhos como “Demons and Wizards”.
O problema surge em faixas que tentam soar como “hits”, como a inicial “Nail on the Head” com um interessante riff de guitarra, vocais incisivos e um refrão pegajoso, que acaba apontando ao pior período do Heep, quando nos anos oitenta soava similar ao Whitesnake.
A partir daí, a situação melhora. Infelizmente, Mick Box não tem uma participação tão interessante nesse trabalho, sendo sombreado por Lanzon, em sua melhor exibição, , muito provavelmente, desde “Sonic Origami”.
Não enxergamos mais a crueza, o atrevimento de trabalhos como “Look to Yourself” ou o agressivo debuto “Very´eavy Very´umble”, mas ainda sim é possível contatar alguns bons momentos, como os viajantes teclados de “I Can See You” que acompanham as magníficas harmonias vocais as quais nos acostumamos.
A faixa título que vem a seguir, é sem dúvida uma grande surpresa, temas velozes sobre o forte pulso da bateria, que dá espaço para o clima vintage emanado do órgão em pontes muito bem montadas. Um hard rock puro, elétrico e bem tocado que diverte a todos os amantes do estilo. Em meio à composição ainda nos deparamos a uma frenética troca de solos, muito bem tratados (aliás, destaque especial para os timbres instrumentais).
Outro ponto positivo encontra-se nos vocais de Bernie Shaw que vem calar (curioso, não?) os críticos saudosos do lendário David Byron. De fato, este último é insubstituível, mas Shaw mostra uma grande identificação com a temática do Heep, com sua voz cortante, um tanto áspera, poderia se dizer, vindo duelar com as alegorias hammondísticas e as engorduradas linhas de guitarra de Box, que surgem possantes sobre os abusos de wah-wah.
Outros bons momentos surgem em “Trail of Diamonds”, repleta de variações em excelentes harmonias, num trabalho equilibrado de todos os instrumentos. As linhas melódicas parecem erguer torres ebúrneas de ares lastimosos, mas de intensa beleza pra contagiar o ouvinte, sem dúvidas um grande momento de lirismo, como o Heep sabe fazer tão bem.
“Believe” é minha favorita, ataques rasantes de órgão e guitarra, que surge sinuosa entre um cativante refrão, mantendo a dinâmica acelerada e bem estruturada, brindando-nos com mais algumas boas variações. A segunda parte é mais suave, em arpejos melodiosos que saltam rapidamente de volta ao tema principal. O desfecho da faixa é avassalador, um dos melhores momentos de Mick no disco.
“Lost” e “Kiss of Freedom” soam bastante como um revival mais evidente, até pela forma que são estruturadas, ressaltando as escalas incomuns da primeira, uma espécie de fusão de modos, modificados pela guitarra distorcida atribuindo um ar épico em meio a apoteose vocal (lembra o período clássico de Demons and Wizards), entremeada pelas interjeições puntiformes do teclado, grande momento.
“Into the Wilde” é um trabalho digno da discografia da banda, apesar do ar nostálgico exalando por seus poros, o grupo nos traz um bom exemplo de sua musicalidade que muito não fica a dever pras atuais bandas de hard rock. 3,0/5,0, eu diria inferior, talvez, ao “Wake the Sleeper”, mas ainda sim, vale de ser conferido e... Longa Vida ao Uriah Heep!

ótimo disco.
ResponderExcluirSim, é sempre bom ver uma banda antiga trazer trabalhos tão vigorosos e capazes de sustentar seu status.
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