quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rocket Science (2011) - Béla Fleck and the Fleckstones



Devo admitir que estive afastado dos trabalhos de Béla Fleck desde o incriticável “UFO TOFU” que, há alguns anos, abriu minha mente para o jazz e uma subsequente nova perspectiva musical. Desde então, suas gravações parecem ter adquirido um ar mais passional, falsamente pomposo, “soft” poderia se dizer, desse modo Béla ganharia "Grammys" e sabemos por onde isso vai.
No entanto, com o retorno de Howard Levy, um dos membros originais, não pude me conter e fui atrás da gravação, o resultado não foge ao esperado, “The Fleckstones” retornam ao exato cenário de UFO TOFU, o que pode soar nostálgico e enfadonho a alguns, mas é definitivamente um grande prazer para os fãs.  

“Rocket Science” já traz em sua divertida capa uma amostra do que será a gravação: o quarteto redescobrindo sua música ao aderir às velhas bases do bluegrass algumas novas vivências, algo de jazz vintage, num amálgama bem trabalhado que eventualmente conduz a certas conclusões um tanto óbvias, denotando certa falta de foco compositivo.
Contrabalanceando tal aspecto, temos algumas boas construções especialmente quando Howard Levy traz a tona todo seu talento instrumental, cuja ausência foi tão sentida nos últimos tempos. O álbum exala uma sonoridade jovial, como transparece a primeira faixa “Gravity Lane”, entre os pontilhismos do banjo eternamente atarefado e a fluidez da harmônica sobrepondo a harmonia ascendente do piano numa passagem equilibrada, sem excessos para demarcar o território musical do grupo.
Prickly Pear” traz um swingado jazz suburbano de vozes distorcidas e harmonias evanescentes em interlúdios desconcertantes com certa dose de sarcasmo e alternâncias entre sentidos, com grande destaque para os timbres adquiridos.
Outro highlight é “Joyful Spring” em seu soar delicado, em intensas interplays melódicas entre o baixo multicolorido de Wooten, o piano cristalizado e o banjo em suas variações típicas que denotam um ar solene, um tanto romântico que em momentos evoca a world music, misteriosa, até cigana poderia se afirmar.
Mas, devo admitir, algo que sempre me chamou foi a capacidade animalesca de improviso do grupo e isso se reflete particularmente bem em “Life In Eleven” que se desenvolve entre compassos variantes entre 11/16, 11/8 que ao aludir as complicadas estruturas rítmicas do leste europeu, dá vazão a bateria circular e onírica de Roy Wooten que abre espaço para os jams impecáveis de baixo e piano, destacando as ascensões magistrais do último.
The Secret Drawer” em suas profundezas climáticas absorve todo o talento de Roy que demonstra o desenvolvimento de seus experimentos com a “Drumitar”, em suas multifaces que equilibram uma tensão tribal a um devaneio tecnológico, entre florestas tropicais e certa sandice industrial, cinema para os ouvidos.
E para finalizar “Bottle Rocket” que evoca em suas interplays melódicas e sua dinâmica afiada, algo do hard bop, extrapolando o conjunto de notas em constantes trocas atmosféricas, afinal "The Fleckstones" nunca foram grandes fãs do silêncio proposto por Miles. Há algo de sensual na linha de baixo, conforme a proposta de todo o disco, em seu timbre encorpado e altamente expressivo para resgatar certos temas familiares ao longo da gravação. Próximo ao final, Béla dá uma amostra de sua virtuose como não poderia deixar de ser.

“Rocket Science” é um retorno a sonoridade inclassificável que trouxe respeito e fama ao quarteto americano, que entre o blend de estilos, desde linhas pastorais estadunidenses a ataques percussivos aborígenes, estruturas orientais, incisões flamencas, passionalidade mediterrânea e por aí afora, faz percorrer um banho de virtuosismo, apelando muitas vezes a improvisos intrincados que exaltam a qualidade técnica de todos os membros, mas que acima disso, ainda conseguem se impor como compositores competentes resgatando a elegância jazzística numa roupagem mais moderna e tão particular. Eventualmente, ao se ouvir o CD, poder-se-á ter a sensação de repetição, algo de enfadonho, mas nada que prejudique a incrível diversão proporcionada pela gravação. Muito recomendado, 3,5/5,0.

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