Vasculhando as esquinas mais obscuras do vocêtubo e da outra super-franquia googliniana, que vem perdendo forças após o marketing trazido pelo mais badalado filme do ano passado (que verborrágico...), me deparei com esse curioso grupo europeu “The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble” que, conforme consta em seu site, surgiu com uma proposta interessante de musicar filmes mudos pré-existentes e criar novas composições a partir dos mesmos, nada menos que alguns clássicos do expressionismo alemão, de Murnau a Lang.
Mas, só descobri essa informação após ouvir seu último disco “From the Stairwell” que chamou minha atenção, após uma primeira audição despreocupada, por sua sonoridade elegante, agradável, “fresca” poderia se dizer. As estranhas ondas flutuantes emergidas de diversos tratamentos eletrônicos esquizóides vêm se encontrar com uma lamuriosa plataforma de jazz, algo quase “cool”, entoando o silêncio em diversos momentos para intensificar a densidade e profundeza de suas frases.
O escalar taciturno de cromatismos de free jazz evolui dos metais, entrelaçando-se com a depressão quase noir (eles devem gostar de Orson Welles), serpeando sobre as sincopas fantasmais que ainda vem encontrar certas reminiscências “radioheadianas”, em seu alto nível compositivo, suas estruturas magistrais e a altíssima expressividade de seus movimentos.
O soar sepulcral de suas composições faz cintilar arabescos surreais repletos de melancolia, dando vazão a sentimentos confusos e apáticos, que muito bem podem retratar a crise moral que se abate pelo mundo desde as constantes apoteoses pós-grande guerra. Como não reparar as singelas alusões percussivas a Steve Reich desses músicos tão talentosos, que constroem espetaculares ambientes claustrofóbicos, conseguindo ilustrar também o caos metropolitano ao passo que permeiam anacronismos em esquizofrênicos fluxos de consciência que evocam desde o RIO, ilustrado pelos violinos de “Cotard Delusion” aos devaneios transcendentais, fazendo ressurgir os improvisos cósmicos do krautrock rebuscado de Guru Guru, os atormentados ataques do Faust ou mesmo as odisséias lisérgicas de Klaus Schulze.
Tudo se condensa em ambientes experimentais, extremamente galantes, remoldando-se numa calma cadenciada, quase letárgica, absorvendo e vomitando uma atmosfera do melhor do modernismo e do avant-garde do século passado.
“From the Stairwell” é pomposo, refinado e bem elaborado, trazendo fluidez impecável a espaços vazios de grande desconforto, especiarias desconcertantes numa produção impecável que exalta toda a instrumentação, sem deixar de lado as vocalizes espectrais e amedrontadoras.
Entre os destaques está a atemorizante “Giallo” (deixaria feliz Dario Argento) em seus graves amarelados, envolvendo um ar de perigo mórbido sobre a melodia circular dos sopros, criando estranhas conclusões para temas em compassos oscilantes; “White Eyes”, em seus gélidos contornos traçando rotas ebúrneas amalgamando um pesaroso clima nostálgico, rememorando belos momentos nos entalhes pontilhados da guitarra e os encontros azulados de vozes melodiosas que se desfazem em certa turbulência, enquanto confluem; a climática “Celladoor” e seus entoares de solidão evanescente que se constrói com uma sensibilidade aflorada e por fim “Les Etoiles Mutantes” completada por uma das melhores linhas de baixo que já ouvi em minha vida, acompanhada das saliências pontuais do piano vaporoso.
Há tempos não havia me animado de tal forma com uma banda, sem exageros ou sensos superlativos, “The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble” é um dos melhores projetos que eu tive o prazer de ver surgir no meu plano temporal.

Valeu Lucas!! Realmente, um álbum fantástico!!
ResponderExcluirBom mesmo, né? Foi uma das mais agradáveis surpresas dos últimos tempos.
ResponderExcluirLucas, ouviu o novo álbum do Crimson - lançado entre os "ProjeKcts"? Recebi há pouco mais de uma semana e gostaria de confrontar opiniões antes da resenha...
E vou aproveitar a deixa (e o retorno da minha internet) para acessar teu blog que há muito não visito.