segunda-feira, 11 de julho de 2011

Stormwatch (1979) - Jethro Tull



No final dos anos 70 a maior parte dos grupos de progressivo encaminhava sua sonoridade a uma completa renovação estética que viria – na maioria dos casos – agredir os ouvidos de antigos fãs. Mas, antes de discos contestados como “A”, o Jethro Tull passaria por uma de suas fases mais “refinadas”. A partir de “Songs of the Wood” o grupo aderiu camadas mais fortes do folk inglês que tanto destacou sua sonoridade no passado. Ian Anderson reduziu os golpes cáusticos desferidos por sua flauta, apelando ainda mais a uma passividade bucólica engrandecida por belíssimos ambientes acústicos acompanhados dos arranjos orquestrais de John Evan, sem os exageros que começavam a emergir no período.
“Stormwatch” é o terceiro exemplar desse período mais árcade do Tull e faz jus a seus marcantes antecessores. O disco é sólido com faixas bem trabalhadas, grande equilíbrio instrumental e alguns excepcionais riffs que desenvolvem temas interessantíssimos que evocam desde os ares mais solenes até as piores distopias naturais.
O estilo arrojado, de arranjos barrocos em múltiplos contrapontos, retendo certas nuances singelas ao amalgamar a cultura tradicional inglesa à pompa do progressivo sinfônico, permanece vivo de modo a denotar alguns brilhantes momentos do bom prog setentista que viria a se extinguir pouco tempo depois – sem falar nos revivals canastrões que ainda se aproveitam da nostalgia generalizada.

O disco é também o último a contar com John Glascock, que foi afastado, por seus excessos, durante as gravações, obrigando Anderson a assumir o baixo na maior parte do trabalho. E ele o fez bem, principalmente quando o instrumento encadeia as linhas melódicas principais, conforme o evidenciado na boa overture “North Sea Oil”. Os pontilhismos suaves da flauta dão lugar ao possante baixo por onde se adentram temas de teclado – sempre denotando uma boa escolha nos timbres. Um bom início, motivo bem estabelecido, recheado de variações que sombreiam uma possível falta de inspiração.
Orion” é o primeiro grande momento do disco, contrabalanceando o sisudo tema principal, entrecortado pelos metálicos soares do órgão que fazem sentir a presença de John Evan (interessante o aproveitamento dos dois tecladistas), e o romântico clima dos interlúdios, impulsionados pela solenidade orquestral, a bela harmonia em suas variantes e os entalhes esmerilhados do baixo de Glascock, um parceiro perfeito para a delicadeza do violão.
Esse soar épico, repleto de sentimentos que poderia apelar ao brega, fazem-se genuínos nessa gravação, mas ainda sim é possível sentir excessos como em “Home”, que carece de qualquer profundidade melódica.
Dark Ages” se ergue sobre um tema mais pesado, acompanhados dos sussurros espectrais da voz de Anderson, aproveitando boas interjeições das teclas e da guitarra que duelam, num desfile cíclico de alternâncias que logo dão espaço a viradas potentes da bateria, originando um dos melhores riffs do disco, um impressionante hard rock acompanhado de incisões de flauta e linhas hiperativas de baixo. A inter-relação entre os instrumentos é fantástica, há espaço para que todos brilhem numa poderosa construção sonora, entre assaltos da espacial guitarra, as lamúrias das teclas (que muito apontam ao Tull orquestral de “Thick as a Brick”), o sinuoso baixo e o uso consciente da flauta, direcionando a uma excelente conclusão, em boas construções rítmicas e variações sobre infinitos temas, estruturando uma intensa viagem progressiva por diversas alegorias, minúcias instrumentais e lacerantes viradas de bateria. O ponto alto do primeiro lado do disco.
Fechando essa primeira parte temos “Warm Sporran”, com seus movimentos inconstantes. Há uma reminiscência forte da construção barroca do Gentle Giant em certos momentos, dando lugar, em outros, para uma linha de baixo pouco inspirada. O ponto alto é evolução da flauta, em seu timbre esvoaçante acompanhada de sussurros “druídicos” imponentes. Razoável.
O segundo lado começa com “Something´s on the Move”, mais um daqueles vigorosos hard progs em excelentes interplays entre a guitarra rasgada (que pode apontar a Tony Iommi em alguns momentos do disco), o órgão paralelepipedal e o serpear da flauta, sempre preenchendo as lacunas horizontais com competência, mesmo sobre a engenharia simplificada da harmonia, longe de seus momentos mais inspirados.
Old Ghosts” agrada logo de cara pelas variações ascendentes da flauta, que dita o tema principal, a ser bem tratado pela guitarra e as teclas, num clima aerado, fresco, aproveitando de excelentes efeitos de sintetizadores para construir estranhas abstrações, bosques cibernéticos, entre verticalizações marciais e a interpretação impecável de Anderson, entre seus, não raros, excelentes momentos vocais. Muito superior a anterior.
A acústica “Dun Ringill”, parece soar como mais do mesmo, encaixando-se nos padrões Tullinos, fazendo-se válida pela impressionante presença vocal de Anderson e fica por aí.
Flying Dutchman” é uma das melhores composições do disco e provavelmente, minha faixa preferida. A cadência emotiva do piano no início já demonstra a riqueza harmônica que se enuncia por aqui, dando lugar ao bandolim cintilante, ante a poderosa carga emocional que se faz sentir no tema principal, acompanhando as variações do baixo de Glascock. A segunda parte é ainda melhor, onde ecos da flauta acompanhada das teclas que impõe um clima céltico, cheio da passionalidade arborizada, amalgamando-se ao tema principal, uma síntese da fuga urbana que é permeada por todo o disco. Belíssima faixa, com esplêndido trabalho por parte de todos os instrumentistas ao desenvolver os motivos com perspicácia, retendo uma grande carga emocional, como demonstram os catárticos solos de flauta por toda a composição. Perfeito encontro entre o luxuoso progressivo orquestral e o singelo clima folk, de algum lugar entre a Inglaterra e os místicos Andes.
A faixa final, “Elegy”, é de autoria de David Palmer – todas as outras são de Anderson – soando bem, de fato, algo de suntuoso entre os contrapontos melódicos e o imponente desfilar das teclas, aproveitando bem algumas possibilidades instrumentais, apesar da obviedade das conclusões.

Em suma um bom disco, não é dos maiores clássicos do Tull, mas consegue propiciar alguns momentos válidos, principalmente entre seus highlights “Orion”, “Dark Ages”, “Old Ghosts” e “Flying Dutchman”, alguns dos últimos suspiros de uma era.  Longe do essencial, mas ganha contornos interessantes por sua temática prenunciando crises ambientais, problemas energéticos e cataclismos naturais. Destacando também a guitarra de Barre, em um de seus momentos mais agressivos e incisivos em toda a discografia da banda. Mesmo com toda a prolixidade, 3,4/5,0.

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