sábado, 13 de agosto de 2011

A Scarcity of Miracles (2011) - A King Crimson ProjeKct




Após quase dois meses de espera, recebi o LP de “A Scarcity of Miracles”, o mais novo “ProjeKCt” de Robert Fripp.
Tendo o escutado por cerca de duas semanas desde a entrega, devo admitir que a primeira audição me fez questionar o quão válido tinha sido esse longo “esperar”. E esse mesmo questionamento parece ter assolado uma parcela significativa de ouvintes. Com um hiato de quase dez anos, desde o metal cataclísmico de “Power to Believe”, a família Crimsoniana retorna com uma estética completamente remodelada, que incluí a volta de um “tio” há muito perdido no tempo: Mel Collins.
Mr. Collins dispensa apresentações tendo sido um dos músicos mais prolíficos do cenário progressivo dos anos 70. Gavin Harrison, Tony Levin, Jakko Jakszyk (o novo “tempero” que surge para guiar essa nova fase do Crimson) e, é claro, Robert Fripp completam o line-up.
O resultado dessa união é um disco enigmático que se revela aos poucos em arquiteturas impressionantes que deverão agradar novos e antigos fãs.
“A Scarcity of Miracles” pode soar, a primeira vista, um trabalho nostálgico, talvez até comercial, por seu clima aparentemente lisérgico que aponta diretamente as ondas sinuosas que encantaram o público setentista. Por aqui, há algo de “Islands”, de um Crimson lírico que se vai deixando construir aos poucos sem uma melodia ou uma harmonia sólida: tudo parece fluir como um desfile de cores emotivas pela mente do ouvinte.
Essa aparente “ausência de melodia” se dá pelo extensivo uso de “soundscapes” (cortesia de Fripp) que elabora enlaces impressionistas que tornam inteligível a aproximação ao passado, diante da inegável referência a Debussy e seu cintilar mágico, misterioso.
E eis o ponto em questão, ao se aproximar do que fora, o Crimson faz emergir uma tendência atual a que muito me venho referindo: o pós-rock. Os veteranos ingleses flertam com o estilo fundamentado, em partes, sobre a própria temática Crimsoniana, ou não é possível observar, em sua obra passada, as construções crescentes, lentas e transcendentais características do estilo?
Após algumas audições esse ambíguo “A Scarcity of Miracles” se mostra uma obra fina, fresca e inspiradora, amalgamando um impressionismo delicado a ataques de um free jazz serpeante, disponibilizado pelos salientes sopros de Mel Collins.
A faixa título deixa bem claro todas as características da obra até aqui explicitadas: o lirismo exacerbado, interplays introspectivas entre as guitarras (nada das pirotecnias do duo Belew/Fripp), setor rítmico impecável, cromatismos jazzísticos, ressoares espectrais, dando vazão a uma belíssima letra, relembrando o passado para refletir o presente e sua crise moral, desatinos, desencontros, questionamentos e a incerteza em versos solenes, dignos dos tempos de Peter Sinfield.
The Price We Pay” expõe, de maneira mais direta, a presença fundamental de Jakko, que traz um clima oriental lastimoso e reflexivo (tendência incorporada por Levin em seu último disco), acompanhado de um fantástico trabalho inicial de Tony. A seguir uma estrutura mais “ortodoxa” se ergue dando vazão a melódicos motivos de sax interpolando-se com um dos mais incríveis solos de guitarra do disco. Talvez essa esteja um pouco abaixo do nível do álbum, justamente por sua arquitetura um tanto mais “clichê”.
O grupo se recupera na climática “Secrets” que soergue pilares suntuosos, criando lacunas para um intenso trabalho de sax que nos carrega por uma cinzenta jornada pelo esquecimento, vazio e solidão. O sax entalha milimetricamente um atonalismo atemporal que evoca clássicos jazzísticos, uma celestial improvisação livre, vindo tanger o tema incongruente tracejado entre as guitarras que sussurram levemente sobre o impecável setor rítmico. Uma monumental faixa, minha preferida no disco, em seu desenvolver lógico, mas estranhamente desafiador, suas minúcias e suas nuanças marmóreas, fantasmais, evanescentes. E ainda me faltam adjetivos...
This House” inicia-se com um caótico desabar percussivo, mantendo a tendência ambient, agora de modo mais sutil, ameno, pontuando tons em meio ao vácuo, como ao criar um acorde inexistente a partir da confluência das vozes (recurso usado no barroco, visto de forma completamente inesperada por aqui), sem dúvida mais um dos grandes momentos do disco. Collins soa mais comportado, posicionando-se sobre as meditativas linhas de fundo de maneira elegante, sem deixar de lado a perceptível carga emocional.
Os fãs do Crimson atarefado, agressivo e lacerante de outrora deverão gostar de “The Other Man” que vem quebrar o desfilar flutuante apresentado até aqui. Harrison e Levin assumem o destaque com uma intrincada articulação rítmica por onde incidem as guitarras afiadas e certa esquizofrenia nos sopros. Por aqui, contrapontos melódicos crus e repetições paranóicas se alinham a ecos interdimensionais, evocando uma causticidade caótica em toda insânia terrena. Outro ponto alto da obra.
The Light of the Day” se abre em improvisos aquosos, acordes entoados ao espaço, no qual a música parece ir e vir de maneira randômica, claustrofóbica, onde diversos elementos coincidem sem aparente relação lógica para gerar uma compilação do absurdo. O ambient segue de forma aterrorizante, alinear, destruindo os alicerces do tempo e de sua essência, finalizando o disco em um de seus momentos mais experimentais e incisivos.

Após mais de quarenta anos no mercado musical, o King Crimson, através desse seu novo ProjeKCt, reafirma sua posição como uma banda relevante e inventiva no cenário atual, alterando tendências e adaptando-se a elas, aqui na sua própria resposta ao pós-rock que inclui um amálgama pitoresco de espectralismo, Ravel, Charles Mingus e Claude Monet. Talvez essa resenha não faça jus a esse fantástico e tentador disco, que nos engalfinha em suas sombras densas e atemorizantes, como as do pesadelo distópico de “The Light of the Day”. Indispensável a qualquer amante da música progressiva, pelo alto nível das composições (somente “The Price We Pay” deixa a desejar) e das herméticas ideias nelas impressas. 4,3/5.0, forte candidato a melhor do ano.

7 comentários:

  1. Grande resenha Lucas!

    Adjetivar King Crimson é tarefa árdua, e poucos tem a sensibilidade para interpretá-lo como o fez acima!

    Acredito que se lembre de mim... digamos que eu tenha camuflado a minha identidade para continuar a burlar o sistema!

    Eis o novo endereço do meu blog:
    http://rockininthefreewolrd.blogspot.com/

    Parabéns pela matéria!
    Grande abraço!

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  2. Lucas,
    Sua resenha, além de muito bem escrita, é estimulante e desperta no leitor a vontade de ouvir o novo trabalho do bom e velho Fripp.
    Abração!

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  3. Claro que lembro, "Sr. Parsons". Vou aproveitar e substituir o antigo link de seu blog por aqui.
    Agradeço pelas palavras, mas minhas tentativas em descrever o King Crimson, nem chegam a arranhar a superfície...

    Érico,
    Agradeço igualmente, a grande força motriz desse blog é a vontade em instigar aos leitores que escutem a boa música, que nem sempre é divulgada como deveria (apesar da internet ter reduzido absurdamente essas possíveis barreiras).

    Em geral, tais palavras só me motivam ainda mais a continuar o que faço, propiciando, ainda que tortamente, a ideia de "missão cumprida".

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  4. Hi there, exchange links? If you want to please let me know in one of my topics here:

    http://progghead.blogspot.com/

    Cheers

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  5. lol Mel Collins, vou dar uma ouvida nisso!

    Belo post, abração,
    Prog Resenhas.

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  6. onde estão os links p/download?????????? Tentei baixar o Amon Dull, mas não consegui, não achei link p/downl, fui nos comentarios, ali ha alguns links que nmão funcionam

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